Entrevista concedida à nossa revista on-line Orchid News #4 em agosto de 1997

 


 Dr. Francisco de Sales Carvalho e Silva, engenheiro químico e cultivador há mais de 50 anos.



No grande debate sobre o substituto universal ideal para o xaxim, o que é preciso se levar em consideração? Quais são as grandes qualidades que se espera deste possível substituto?

Eu tenho um raciocínio químico, não consigo racionar sem a química, em tudo, eu procuro uma explicação química. Primeiro é preciso entender todo o processo que envolve o envelhecimento do substrato pois o grande problema reside justamente aí e nós tivemos a preocupação de fazer um trabalho sobre isto.
Cultiva-se a planta num substrato seja ele qual for, se for uma orquídea no xaxim, esfagno, piaçava, num pedaço de madeira enfim numa porção de tipo de substância, e no fim de algum tempo, percebe-se que este substrato vai envelhecendo.
A grande pergunta é, então, a seguinte: O que é o envelhecimento de substrato?
Concluímos que o substrato vai sendo atacado por fungos, bactérias, quer dizer, tem uma flora microbiana muito intensa que tem um papel importantíssimo, indispensável à vida na terra. Esta flora microbiana vai degradando, decompondo a matéria orgânica, transformando-a em húmus, gerando uma série de substâncias que são importantes para as plantas. Este foi o nosso caminho, o nosso trabalho foi baseado nisto.
Evidentemente a planta não tem condição de comer pedaços, é preciso que o alimento esteja solubilizado, ela só consegue se alimentar, absorver o nutriente se ele estiver solúvel.

Como é que se consegue isto?

Exatamente por ação das bactérias que atacam os resíduos orgânicos provocando sua decomposição lenta até chegar no reino mineral na forma de minerais simples, nitrogênio, hidrogênio, etc.. Logo, se o substrato não se decompõe, percebe-se de primeira mão que ele é um mau substrato porque ele não fornece os elementos que a planta necessita.
Por que é o xaxim, sem favor nenhum, o substrato universal?
Porque ele tem uma quantidade grande de celulose que vai se decompondo paulatinamente, não muito rapidamente, ele tem um controle de decomposição e vai gerando húmus num processo altamente complexo onde primeiro entra um grupo de germes, todos aeróbios, depois entram outros grupos, bactérias, fungos, etc... Chega num ponto em que se vai ter o húmus que é feito essencialmente da decomposição de resíduo vegetal. E isto é uma coisa que a gente vê todo dia. Junta-se um bocado de folhas, detritos vegetais, mantém-se uma certa umidade, aquele material vai se decompondo, aos poucos vai ficando com aspecto de terra solta, escura, que perdeu a estrutura das folhas e dos detritos vegetais e vai até o ponto de desaparecer, voltando integralmente ao reino mineral. Se entrarem bactérias anaeróbias, se o material for fechado por um processo de modo a impedir a entrada de ar, pode-se gerar componentes absolutamente indesejáveis, condições anaeróbias que não são ideais para a produção do húmus, criando um meio putrefato, alcalino, que pode trazer problemas sérios.
Quando você encharca o substrato demais, você mantém quase que um meio anaeróbio, quer dizer o oxigênio contido na água é consumido, porque no interior do substrato se formam substâncias redutoras, quer dizer, áridas de oxigênio, que o roubam da água, criam condições anaeróbias. O excesso de água, entre outras coisas, é pernicioso por isto.
Quando se compacta excessivamente o substrato, tem-se um problema semelhante. Eu não sou muito favorável, embora não seja totalmente contra, ao uso do adubo orgânico, mas ele tem que ser usado com muito cuidado e com muita orientação porque forma uma camada, uma tampa que veda o substrato, também gerando estas condições anaeróbias.
Há uma experiência clássica que se faz, pegam-se duas plantas com raízes bastante novas, ainda bem verdinhas na ponta, bota cada uma num copo e cobre de substrato, compactando bem um e o outro não. No fim de poucos dias você tira, aquela que você compactou, a raiz está morta e a outra, de substrato mais leve, continua viva.
A natureza nos dá uma grande lição disto, como é que se encontram as raízes das plantas? Penduradas, soltas, na superfície das árvores, das pedras ou então em terrenos extremamente fofos. Uma planta bem nutrida, bonita, em bom estado cultural, geralmente é encontrada em chão de mata onde se tem aquelas folhas bem soltinhas.
Assim sabe-se que o substrato que se torna anaeróbio, sem entrada de ar, é um substrato pernicioso. Então se ele permite a entrada de ar e vai se decompondo, chega num momento que se tem a formação do húmus.

O que é o húmus?

São componentes químicos, quer dizer ácidos fúlvidos, ácido húmico e humina que é um substância química que não está bem definida. Além disto têm-se um pouco de melanina, a mesma que nós temos na pele que é produzida por fungos, agindo, decompondo os tecidos vegetais. Hoje em dia, sabe-se que o ácido húmico é fator de uma importância total nas plantas. É difícil dizer que é o mais importante mas certamente é um dos mais importantes componentes na vida das plantas. Ele tem uma ação múltipla que permite e favorece o enraizamento. É também estimulante, favorece a absorção de muitos elementos, nitrogênio, potássio, enfim tem um papel importantíssimo, indispensável à vida vegetal, não se pode concebê-la na sua ausência.
Tem-se um grande, gritante exemplo onde nós vemos isto de perto: são os rios da Amazônia. Há dois grupos de rios, os brancos e os pretos. O Solimões é um rio branco e o Negro é preto.
A diferença fundamental é que o rio preto corre em cima de terrenos rochosos, não tem argila e como a água é muito límpida, vê-se em profundidade, vê escuro porque a água é incolor.
O outro passa em terreno barrento, extrai uma quantidade muito grande de argila, fica com aquele aspecto barrento. Quem já esteve na Amazônia, já viu isto, o encontro das águas do Solimões com o rio Negro formando o rio Amazonas. Um é preto, o outro branco.
Estes rios transbordam todos os anos formando aqueles igapós enormes. Sabe-se que a flora às margens dos rios negros é muito exuberante, porque eles têm um teor muito alto de ácido húmico. Na cheia, eles invadem, formam os iguapós em cima de terrenos da mata, cheios de folhas. Extraem aquele ácido húmico, carregam e o fornecem para as plantas. Como estes rios sobem muito, algumas plantas ficam mergulhadas e tem-se um suprimento enorme de ácido húmico.
É claro que outros fazem a mesma extração mas têm um teor muito alto de argila que combinada com ácido húmico, acaba por seqüestrá-lo. A argila é seqüestrante assim como o ácido húmico. Há um grupo de substâncias químicas que têm a propriedade de seqüestrar. Naturalmente quando se fala em seqüestro, quer se referir a ion metálico mas a argila tem uma ação muito parecida com ele sobre o ácido húmico, ela o tira de circulação.

O que quer dizer isto?

Na água tem-se uma quantidade muito grande de ions metálicos que vão passando: sódio, potássio, ferro, nitrogênio e o seqüestro é um processo químico, quase podemos dizer físico, em que a molécula do corpo envolve o ion metálico.
Têm-se, por exemplo, o ion do ferro, quando ele passa, o seqüestrador o envolve como se fosse uma cápsula. A argila prende o ion metálico, se você testar uma água que tem ferro e colocar um seqüestrador lá dentro, você não encontrará o ferro, não haverá uma resposta ao teste daquele metal, apesar dele estar presente e isto porque ele está seqüestrado.
A imagem perfeita é esta, uma cápsula envolvendo. A planta tem capacidade de absorver isto e romper o seqüestro. O teor de ácido húmico vai crescendo, todo dia regam-se as plantas fornecendo uma série de ions metálicos que estão dissolvidos: cálcio, magnésio, potássio que vão sendo retidos, absorvidos pelas planta. Então as águas dos rios brancos (rio Solimões e outros) são mais pobres do que as dos negros e a flora não é tão exuberante.
Esta é a evolução básica do substrato: decomposição até chegar a um ponto de produzir uma quantidade de ácido húmico. A decomposição vai aumentando e chega num ponto ótimo onde a planta tem um suprimento ideal. Depois a quantidade de substâncias lançadas ao meio começa a ficar muito alta e vai atingir um limite excessivo, insuportável e tornar-se tóxico.
O ácido húmico tem dois problemas paralelos, ele é um excelente estimulante e podemos enumerar duzentas vantagens, mas ele é também um agente redutor e um agente seqüestrante. Como redutor, começa também a roubar oxigênio do meio, fazendo um curva perfeitamente compreensível: tem-se o substrato ainda não decomposto, sem ácido húmico, sem humus nenhum, indiferente para a planta e pela ação da umidade, são criadas condições favoráveis para as bactérias, elas começam o desdobramento e vão formando humus, com ácido húmico ali presente.
O xaxim com 6 meses, 1 ano está no ponto ideal, está ótimo e não está excessivamente ácido. Está num pH bom para a planta, está fornecendo os componentes que ela precisa. Já se desdobrou uma parte, já se decompôs internamente, as bactérias já permitiram a liberação de nitratos, potássio, nitrogênio nas suas diversas formas - amoniacal, nítrica e etc... A planta vai absorvendo mas até chegar ao ponto que já falei, passando então a ser tóxico para ela

Qual o prazo para o processo atingir este ponto?

Isto varia muito porque está em função da umidade mas a experiência nos ensina que um substrato bem feito, não muito compacto, pode durar até 4 anos. Depois vê-se nitidamente que a planta começa a sofrer. Mas se o substrato está excessivamente úmido, a decomposição é mais rápida, se a temperatura é mais alta, ela pode mais intensa.

Para se fazer uma medida de pH que seja útil, é preciso não botar adubo nenhum, porque o adubo orgânico tem um teor de pH muito elevado. O esterco de galinha, por exemplo, tem pH 10, a própria torta de mamona tem um pH alto. Tudo isto altera o pH.
Os alemães inventaram, numa certa época, a melhor maneira de se regar uma planta, eu mesmo vi na Suíça, regam menor número de vezes mas quando regam, encharcam a planta para lavar o substrato. É uma coisa extremamente inteligente pois o substrato vai ficando saturado e o ácido húmico é bastante solúvel (embora não excessivamente). Se o pH não estiver ácido, ele é perfeitamente solúvel. Então lava-se, tira-se o excesso, especialmente de sais minerais, conseguindo recompor o substrato. Mas não se consegue tornar o substrato novo porque não se consegue extrair todas as coisas.
Não há substrato eterno. Depois que a degradação começa é difícil pará-la. Mesmo lavando, o meio fica muito cheio de bactérias. Criou-se um meio de cultura e quando para-se de lavar, as bactérias vão agir muito mais rapidamente do que se fosse um substrato novo.
Basicamente, este é o ciclo do substrato.
Nós temos que raciocinar, especialmente, na base do xaxim e a partir daí tirar-se a conclusão para os outros.
A pedrinha é um bom substrato? Não, não é. Ela não tem nada para fornecer para a planta. Tudo o que a planta vai receber, vai ser externo, vai ser através de adubo.

Em 1992, o senhor publicou um artigo na revista Orquidário sobre a piaçava onde ela era considerada um substrato promissor. Aparentemente estas qualidades não se confirmaram, o senhor poderia explicar o porquê?

Exatamente por isto foi considerado promissor. A piaçava é um substrato que tem características muito boas, é porosa mas ela é formada em grande parte de lignina que não se decompõe.
Eu abri um vaso, que eu usei há oito anos, e está como eu coloquei. Então, evidentemente, este substrato não pode ser igual ao xaxim.
Há um outro fator que na época era imprevisível, nós não imaginávamos. Eu tenho a impressão que a flora microbiana procura um lugar para ficar Não é em qualquer lugar que ela nasce, não vai nascer numa pedra, e eu acho que a piaçava tem alguma coisa que repele, diminui a quantidade e a qualidade da flora bacteriana. Se não há decomposição, não há alimento para planta e é preciso pensar sempre assim, quando se coloca o esterco, se está preocupado especialmente em alimentar a flora microbiana pois é ela que vai alimentar sua planta. Ela faz um desdobramento mais específico, melhor para a planta, dá uma porção de formas de nitrogênio amoniacal, orgânico, nítrico, desdobra o fosfato sob diversas formas. Então este desdobramento feito pela flora microbiana, inegavelmente é melhor do que o que nós fazemos.
É claro que você pode cultivar em cultura hidropônica mas é um trabalho infernal, um negócio complicadíssimo, você tem que manter uma porção de coisas, muitas preocupações. No quotidiano, a gente tem que contar com a ajuda destes microorganismos que vão fazer o desdobramento. A piaçava é um ótimo suporte mas não tem nada para dar, é um péssimo celeiro.
Aliás tem um fungo desgraçado que dá um problema de pele e na vista, uma coisa meio brava.
Quando eu fui buscar a primeira carga de piaçava no fornecedor, fui informado que havia um problema sério com os empregados mas eu não dei muita atenção. Eu sou meio bruto para estas coisas, é difícil alguma coisa me pegar, mas tive um problema sério. Era só abrir para começar a dar problema na pele e na vista.

E quanto ao coxim? Os estudos realizados durante três anos para a formulação da tese da Maria Esmeralda concluíram que o coxim seria o substituto mais próximo do ideal. Qual a sua opinião a respeito?

Eu ainda não tenho experiência suficiente com o coxim mas a partir das análises preliminares que fiz dele, achei-o muito pobre em matéria orgânica e neste ponto ele é mais próximo da piaçava do que o xaxim.
Eu fiz uns vasos que enraizaram bem. A Rosário (Quinta do Lago) também fez uns vasos que enraizaram bem mas isto só se vê com quatro, cinco anos.
Eu acho que esta tese comete, no meu entender, um erro básico. Sua maior falha é não abordar o ácido húmico. Eu acho isto um negócio meio estranho. Qualquer livro de nutrição vegetal dá importância enorme, de capítulos inteiros, há teses de doutorado desenvolvidas sobre o assunto. Não pode considerar um negócio deste sem analisar a decomposição do substrato. E analisando a decomposição do substrato, fatalmente você cai no ácido húmico.
Eu vi coisas fantásticas na Amazônia com ácido húmico, realmente é de uma importância impressionante. Puxa lençol freático para cima, lençol que está lá em baixo porque desmataram , bota uma camada de folhas de 15 cm, o lençol sobe, porque age sobre a argila, coagulando-se, quer dizer, tem qualidades fantásticas.
A quantidade de ácido húmico do coxim é menor do que a do xaxim. Ele é um dos aspectos do cultivo, tem outros fatores, sais solúveis, diversos tipos de sais, pH, mas eu acho o mais importante para se medir.
Não se iluda! substrato que não se decomponha, que dura a vida inteira é um mau substrato.

Segundo o fabricante, em Recife, com a umidade muito elevada, ele dura 4 anos e teoricamente, em lugares mais secos, duraria até mais, uns 8 anos talvez.

Pode ser que sim, é difícil de responder, mas se dura 8 anos é um mau substrato, com certeza.

O maior problema que o senhor vê no coxim, seria, então, o da nutrição e o da falta de decomposição?

Qualquer substrato precisa ser um celeiro.Eu não sou contra nem a favor do coxim, apenas não tenho ainda elementos para acreditar nêle e considero que todas estas afirmativas em torno de suas qualidades são temerárias. Nunca houve um controle de tudo isto.
Eu não concordo com as coisas que são ditas. Eu repito que não tenho experiência com o coxim mas, quando se pensa em substrato, tem que se pensar que ele precisa fornecer nutrientes. Veja como nós começamos o nosso trabalho sobre o substrato (publicado na revista Orquidário Volume 11, no 1, jan-março 97): "O substrato, sem sombra de dúvida, é a base de uma boa cultura de orquídeas. É, a um tempo, suporte e fonte de nutrientes para as plantas, devendo apresentar qualidades básicas e indispensáveis, como sejam consistência como suporte, boa aeração das raízes, capacidade de retenção de água, sem encharcar, pH adequado e, finalmente, possibilidade de se degradar formando húmus (ácido húmico em particular) com liberação dos elementos minerais necessários às plantas".
Ora, o coxim é um ótimo suporte, tem consistência, ótima aeração de raízes mas quanto à capacidade de retenção de água é mais ou menos, menos do que o xaxim.

Na conclusão de sua tese, a Professora Maria Esmeralda informa que um dos inconvenientes do coxim é que ele reteve pouca umidade quando novo mas, segundo informação do fabricante, o coxim atual teria sido aperfeiçoado e teria maior capacidade de retenção de umidade. De tudo isto pode se depreender que ainda não se tem substituto para o xaxim?

Eu, pelo menos, não tenho.
Quer dizer, você pode ter milhões mas ainda não há um substituto universal para o xaxim. Você pendura a orquídea na árvore, ela vai muito bem, você coloca na casca de peroba, ela vai magnificamente bem. Você pode ter uma planta que vai bem num determinado substrato e outras não. Outras vão bem na piaçava. O esfagno é um grande, um fantástico substrato, que se decompõe muito bem, com muita rapidez, dura menos tempo que o xaxim e tem um antibiótico. Cascas de árvores resinosas são ruins porque não permitem o crescimento de bactérias.
Eu, por exemplo, uso uma mistura que fiz: madeira, esfagno, um pouco de xaxim e areia e algumas plantas vão muito bem, mas como média, não dá.
Nunca medi seu teor de ácido húmico mas não deve ser desprezível, deve ser uma coisa razoável, pois tem a madeira se decompondo, xaxim, tem esfagno. Tem o coquinho de açaí, a decomposição é rápida demais, tem casca de coco natural.

Sérgio Silva: Por exemplo, se você coloca uma Maxillaria bonita, cheias de raízes, na casca de coco natural, a raiz brota, bate no coco e morre.

É isto que estou dizendo! Um substituto universal é difícil.
Você conhece alguma orquídea que não vá bem em xaxim? Eu não conheço.
Você pode até dizer que ela não vai tão bem no xaxim, vai melhor em outro substrato. Mas, em última análise, bota no xaxim que ela vai.
Em termos de raciocínio universal, para todo o tipo de planta, não se referindo a uma planta específica, se você quer uma média, isto é difícil, não existe ainda.
Para quem tem um orquidário, o problema é sério.