ON - Cattleya eldorado, por exemplo, só ocorre em campina aberta? Isto quer dizer que precisa de muita luz? Qual a altitude? Qual o habitat das outras espécies, C. luteola, C. violacea, C. lawrenceana, C. jenmanii?
  C. eldorado.Foto/photo: Kleber Lacerda   KL - Cattleya eldorado ocorre predominantemente em campina aberta, mas também em campinarana, raramente em igapós e terra firme (esporádica), sempre em baixa altitude (menos de 200 m.a.m.).
Em margens de rios perto de campinas também pode ser encontrada, indicando que gosta de boa luminosidade. A faixa de luminosidade aceitável é ampla, conforme demonstrado por Braga em uma campina aberta, e conforme descrevi em artigo no Boletim da CAOB.
  Cattleya luteola ocorre em florestas de várzea, e também em copas altas de árvores de igapós e floresta de terra firme, mas esparsamente. Cattleya violacea tem vasta distribuição, em quase toda a Amazônia, e prefere margens de rios e lagos e arquipélagos fluviais em geral, principalmente de água preta, onde há vegetação de igapó, e também em florestas de terra firme mais abertas em Rondônia e Pará.
  Algumas campinas
abertas e campinaranas
têm população razoável de
Cattleya violacea, e é aí
que se encontra seu híbrido
natural com a Cattleya eldorado,
a Cattleya X brymeriana, que
não é tão raro como geralmente
se supõe.
  Cattleya X brymeriana. Foto/photo: Kleber Lacerda
  Cattleya lawrenceana é encontrada em matas serranas, maiores altitudes, principalmente na Serra Parima, em Roraima e Amazonas. Mais abaixo, em vegetação serrana baixa, matas de terra firme de Roraima e vegetação de transição, encontra-se Cattleya jenmani, ao limite superior de distribuição geográfica da Cattleya eldorado. Lamentavelmente, as duas estão se extinguindo na natureza, a primeira pela coleta seletiva e a segunda pelas queimadas.

ON - Pode-se supor que o habitat de C. eldorado e Brassavola martiana seja o mesmo ou a ocorrência da Brassocattleya rubyi é uma raridade?
  Bc rubyi. Foto/photo: Kleber Lacerda   KL - Só existe uma planta conhecida de Brassocattleya rubyi, à qual tive a honra de ser apresentado em 1979 pelo seu descobridor, o Dr. Pedro Ivo...
Ela ainda está na sua árvore, um macucu em uma campina às margens da rodovia Manaus-Caracaraí, pelo menos até o ano passado, conforme fui informado e pela foto digital aqui reproduzida.
  Brassavola martiana pode ocorrer em campinas, mas é comum em florestas de várzea, de igapó, e às margens de rios em qualquer tipo de vegetação.
  ON - E seu interesse pelo gênero Catasetum? Como foi isto? É só este gênero ou todos os outros da mesmo subtribo? Você escolheu este grupo, as Catasetíneas, ou foram elas que escolheram você em razão de estar no centro de dispersão dos gêneros Catasetum e Cycnoches?

KL - Foi meio sem querer, pois à medida que descobria novas espécies e variedades tive que estudar cada vez mais a subtribo; não nego entretanto que sempre os achei interessantes, pois já em 1976 eu cultivava duas plantas de Catasetum barbatum na região de Cachoeira Porteira, no rio Trombetas. Uma delas tinha fímbrias enormes e avermelhadas, é o mais bonito que já vi, mas nunca consegui encontrar outro parecido. A planta ficou lá quando me mudei.


ON - E como é ocorrência deste grupo, habitat, tipo de suporte, questão da luminosidade, questão da umidade ambiental, periodicidade das chuvas?
    KL - As Catasetinae no Brasil estão em algumas áreas em rápido processo de especiação, pois são orquídeas de ciclo muito rápido. É impressionante como "colonizam" troncos em decomposição em áreas inundadas (represas e igapós). Muitas vezes o primeiro pseudobulbo já atinge mais de um palmo de tamanho e floresce. Nos depósitos de miolo de compensado desprezados pelas madeireiras em Manaus pudemos certa vez observar milhares de plantas de Catasetum gnomus que germinaram havia pouco tempo e estavam adultas. João Batista encontrou em igapó um Ctsm. gnomus cujo único pseudobulbo tinha 26 cm de comprimento...
Na Amazônia ocorrem onde quer que exista matéria orgânica em decomposição, como troncos podres e palmeiras onde se acumulam detritos.
Onde há mais umidade germinam e crescem facilmente, como em frestas, madeira, telhas, etc.
  Segundo nosso amigo da AOA Norman Penny disse, ao voltar de Rio Branco, lá não se deve ficar muito tempo sem tomar banho senão nascem Catasetum nas pernas...
O cultivo de Catasetum deve respeitar o espectro fenológico de cada espécie. Alguns precisam após a floração de longo período de repouso, secos e sem adubação, (a maioria das espécies das regiões subtropicais e temperadas), com mais frio, antes de receberem novamente água, calor e adubação nitrogenada abundante. Outros têm a fase de crescimento vegetativo ao mesmo tempo e após a floração, neste caso todo o trato cultural muda! Os da Amazônia são diferentes nas exigências conforme sejam de locais de altitude acima de 400 m ou das áreas de planície baixas e úmidas. Seria muito exaustivo discorrer aqui, recomendo aos interessados a obra de Arthur W. Holst "The World of Catasetums", Timber Press, 1.999, onde o assunto é detalhado.
Sobre os outros gêneros não há tanta dificuldade, Mormodes e Cycnoches adaptam-se mais facilmente ao cultivo. Dressleria são plantas terrestres que crescem sob sol pleno e muita umidade. Clowesia têm exigências específicas, sendo mais adaptáveis a regiões não tropicais as da América Central e México, como Clowesia rosea.
Repito que as catassetíneas têm em geral ciclo curto na natureza. Crescem magnificamente, florescem, mas às vezes formam tantas cápsulas que ficam fracas e morrem. As sementes produzidas entretanto disseminam a espécie rapidamente. Em cultivo, quando a planta está fraca, é melhor eliminar botões florais, pois a energia despendida nas sucessivas florações acaba fazendo secar um ou mais pseudobulbos e a planta nunca aumenta de tamanho. Isso é muito evidente em Cycnoches.
É sabido que água retida dentro das folhas novas costuma causar podridão do broto, tanto que já foram criados artifícios para evitar morte de plantas cultivadas, como a técnica de gotejamento no substrato de Vitorino P. Castro. Aí vem a inevitável pergunta: e na natureza, como acontece, se chove no início da brotação? Ora, morrem também. É comum morrerem frentes novas e até touceiras inteiras no ambiente natural... Em cultivo temos obrigação de salvar as plantas, mas na natureza é cada um por si...



ON - E a respeito do Catasetum incurvum que era considerado extinto e você redescobriu? Não o encontramos nas listas atuais das espécies do gênero, trata-se de sinônimo?
  KL - Recentemente escrevi sobre esta espécie para o Boletim da ABRACC. Eu não sei se ela era considerada extinta nem quem disse isso. Ao encontrá-lo, com base no que eu dispunha de literatura achei que era o Catasetum stupendum Cogniaux., pois era idêntico ao ilustrado em uma prancha que eu tinha da Lindenia. Soube logo após que também havia sido encontrada na mesma época no Equador, região de Morona Santiago, e estava para ser descrita, com nome escolhido e tudo, segundo Dodson. Conversando pessoalmente, chegamos à conclusão que a dita era uma espécie já descrita, com o nome de Catasetum incurvum Klotzsch em 1854, o qual depois foi erroneamente   Catasetum incurvum. Foto/photo: Kleber Lacerda
  recombinado por Mansfeld e mantido por Schweifurth como uma variedade de Catasetum saccatum Lindl.