ON - Na época de Pabst, havia aproximadamente 60 espécies reconhecidas e um híbrido Catasetum X issanensis Pabst. Atualmente reconhece-se mais dois híbridos e chega quase a 100 o número de espécies reconhecidas. É bem verdade que nem tudo são espécies novas e sim ocorrências constadas para o Brasil. A que você atribuiu este aumento de mais de 50%, a um conhecimento maior da região amazônica?

KL - Já foram descritas cerca de 295 espécies de Catasetum e umas 80 variedades, e parece haver pouco mais de 120 espécies válidas. Quer dizer que há muitos sinônimos, resultantes de mais de uma descrição para a mesma espécie, e nomem nudum. Em trabalho apresentado há 6 anos na XV World Orchid Conference listei 14 motivos porque isso acontece com Catasetum. É incrível que ainda hoje se cometam erros como há mais de um século, quando mal se conhecia o polimorfismo floral do gênero. Recentemente foram redescritas até espécies razoavelmente conhecidas e publicadas descrições baseadas em uma planta com apenas uma flor! Há casos de descrição como espécie nova de planta com floração hermafrodita... Imagine, se você cultiva uma planta que a cada ano é uma espécie diferente, conforme tenha flores masculinas, ou hermafroditas ou femininas... Se florirem as três formas em uma mesma haste, cada pedaço da planta será uma espécie... Mas, como repetia Pedro Ivo, Botânica não dá cadeia...
Mas o número de espécies válidas tem, sim, aumentado bastante, talvez uns 25% nos últimos 20 anos. Isto se deve principalmente à abertura de novas estradas na Amazônia, tanto no Brasil como no Equador, Bolívia e Peru, por onde pesquisadores e coletores puderam atuar. Na Colômbia foram descobertas poucas espécies e na Venezuela Romero, Carnevalli e outros têm descrito algumas espécies e muitos híbridos naturais.



ON - O colorido encontrado nas espécies dos gêneros que compõem este grupo, é espantoso, sobretudo de Mormodes e Catasetum, mas até mesmo Cycnoches, menos rico em número de espécie. A cada nova descoberta, um colorido mais rico. Destas espécies novas, uma foi descrita em sua homenagem, Catasetum kleberianum Braga e muitas foram descritas por você. Pelo que estou me lembrando, você descreveu Ctsm. ariquemense, Ctsm. franchinianum, Ctsm. galeatum, Ctsm. gladiatorium;
Com o Miranda, você descreveu Ctsm. carolinianum, Ctsm. complanatum, Ctsm. longipes, Ctsm.  schmidtianum;  com o João Batista da Silva: Ctsm. maranhense; com Vitorino Paiva Neto: Ctsm. osculatum.
Mas acredito que, proporcionalmente ao número total de espécies do gênero, o Mormodes foi o que mais cresceu. Pelo menos 10 espécies novas em 21 citadas atualmente.

KL - Há ainda as espécies Ctsm. aculeatum e alguns Mormodes. Mas considero que mais importante do que descobrir e descrever espécies é revisar os gêneros, um trabalho exaustivo e de longo prazo, pois necessita verificação completa da literatura, dos tipos depositados em herbários em várias partes do mundo, trabalho de campo, verificação das variações dentro de cada espécie, possibilidade de hibridação natural, confirmação de distribuição geográfica, e, particularmente para o gênero Catasetum, cultivo para observação de alguns dados fenológicos e do polimorfismo floral. Isso somente é possível com estudo multicêntrico, e em 1.993 Romero e Jenny elaboraram a última lista de nomes, que está para ser atualizada, para o que fui convidado a colaborar. Assim pode-se chegar a acertos nomenclaturais e posicionamento taxonômico correto.
O critério para descrições de novas espécies é fundamental.
  O Catasetum gladiatorium, por exemplo, levei uns dez anos e examinei centenas de plantas vivas, fiz trabalho de campo, para decidir se constituía um taxon à parte. Deixei de publicar muitas espécies por demorar a estudá-las pormenorizadamente, mas tenho certeza de que evitei alguns erros... Tenho em estudo um "banco" particular com mais de 400 frascos com flores de Catasetinae conservadas em solução alcoólica e deposito exsicatas no Herbário do Instituto de Ciências Biológicas da UFMG (BHCB).  
  ON - E a respeito do Mormodes aureum L. C. Menezes, trata-se de uma sinonímia? Em listas recentes, não se encontra citação de Mormodes amazonicum Brade (presente no livro acima citado), Morm. densiflorum Miranda, Morm. hoehnei Miranda, Morm. hirsutissimum Miranda,
Morm. wolterianum, você como especialista neste grupo, poderia nos dizer por que? Às vezes encontramos a grafia das espécies de Mormodes como femininas, qual o correto, Mormodes vinacea ou Morm. vinaceum, Morm. sinuata ou Morm. sinuatum?

KL - Mormodes é sem dúvida o gênero mais complicado taxonomicamente dentre as Catasetinae. Há uma enorme confusão, com revisões contendo dúvidas e equívocos. Não me encorajei ainda para enfrentar uma revisão. Salazar, no México, é um especialista no assunto. As espécies brasileiras permanecem ainda sem muitos estudos. As flores deste gênero apresentam diferenças sutis entre masculinas e femininas, mas em uma mesma espécie, até em uma mesma planta, elas mudam muito conforme as condições climáticas! Quase descrevi uma espécie (meu M58), que floriu com as menores flores do gênero, verdes com listas castanhas, inflorescência curta e densa; no ano seguinte, as flores ficaram com quase o dobro do tamanho, bem distanciadas em uma haste longa, verde-claras com listas verde-escuras: tratava-se do Mormodes elegans. Garanto que não foi erro de etiquetagem...
 
  Quase todos os Mormodes
brasileiros de coloração vinosa
ou avermelhada que conheço apresentam ocasionalmente
flores albinas, amarelas.
João Batista ao encontrar
Mormodes paraense
em uma
vereda no Sul do Pará conseguiu flagrar duas plantas juntas
com flores destas cores.
Pela morfologia, considero que Morm. aureum L. C. Men. é o mesmo Morm. vernixioidea Pabst ou Morm. vernixium Rchb. F.
Para não sair dos "vinosos", ainda temos o Morm. vinacea Hoehne e o Morm. paraense Salazar & da Silva.
  As diferença se prendem à morfologia, privilegiando lobulação do labelo e tamanho das flores. Agora imagine que em uma mesma espécie, e até em uma mesma planta, nas flores masculinas e femininas, pode haver atenuação da lobulação, variação do tamanho, mudança na torção da coluna, etc.: caímos naquela da planta ser uma espécie em um ano e outra no ano seguinte... esqueça, em determinação Mormodes, dimensões de planta e flores e disposição e quantidades de flores.
Quanto à citação das espécies, Morm. wolterianum é antiga e não sei dizer porque, mas Morm. densiflorum Miranda, Morm. hoehnei Miranda & Lacerda, Morm. hirsutissimum Miranda, por serem relativamente recentes, ainda não foram incluídas. Tenho dúvidas sobre Morm. amazonicum Lindl., é necessário confirmar; tem sido confundido com Morm. buccinator e outros bem diferentes. Aparece com essa ressalva de denominação nas ilustrações de Margareth Mee em seu livro "Em Busca das Flores da Floresta Amazônica", obra de grande valor artístico e documental mas que peca pelos equívocos de identificação de Catasetinae. Não aparece na revisão de Pabst, que foi quem mudou os nomes das espécies para a forma feminina, com o que muitos não concordam. Etimologicamente, Mormodes vem do grego mormo = monstro e eidos = forma, que poderiam ser latinizados para gênero neutro ou masculino. Fica a gosto do freguês, até segunda ordem... Particularmente, prefiro não usar a forma feminina (há quem diga, por exemplo, "a Mormodes". - Só se for alemão no Brasil...).



ON - Também a respeito do gênero Cycnoches, por que algumas espécies não são citadas recentemente como Cyc. chlorochilon, Cyc. maculatum Lindl., Cyc. peruvianum, Cyc. thurstonorum.
Pelo menos, em relação ao Cyc. maculatum tem -se confirmação de sua ocorrência no Brasil e quanto aos outros?

KL - Há relato do encontro de Cyc. maculatum (comum na Venezuela) no Brasil e de plantas provenientes do Amazonas identificadas posteriormente como Cyc. peruvianum e Cyc. thurstonorum, presentes em coleções de orquidófilos. Uma citação correta precisa preencher critérios científicos e ser publicada como tal, o que poucos têm feito; publicar fotografias ou simplesmente relatar em qualquer publicação pode ser feito mas sem valoração técnica. Coletores costumam esconder ou distorcer informações sobre locais dos achados, seja para evitar depredação ou para reservar o sítio em usufruto próprio. Já recebi plantas como se fossem novidades coletadas no interior do Brasil - de boa fé, provavelmente por troca de etiqueta, plantas de sementeiras artificialmente produzidas ou importadas e que seguramente não existem em nosso país. Ainda há os híbridos artificiais para confundir; imagine uma cápsula destes sendo espalhada em ambiente natural... Entre os orquidófilos circulam histórias algumas vezes bastante inverossímeis. Alguns boatos tornam-se tão fortes e disseminados que induzem a erros e temos muitos exemplos disso. Foi publicada Miltonia spectabilis como nativa da Venezuela, hoje considerado engano. Prefiro, diante de uma suspeita de novidade, comparecer ao local de coleta e verificar pessoalmente o material.


ON - Com relação ao Catasetum lanciferum Lindl. objeto de seu artigo publicado no Boletim CAOB, nº 38, out/nov.dez/1999, gostaria que esclarecesse uns pontos. Esta espécie só ocorre no norte de Minas, sudeste da Bahia. Nos estados de São Paulo e Rio de Janeiro a ocorrência seria do Cstm. fimbriatum, que é confundido com ele? E o Catasetum appendiculatum seria o Cstm. lanciferum ou o Cstm. gladiatorium?

KL - Vamos esclarecer: Catasetum lanciferum Lindl. é uma antiga e válida espécie, que ocorre desde o Sudeste da Bahia, passando ao longo de Minas Gerais até regiões fronteiriças do Estado de São Paulo, segundo constatação pessoal, e em Goiás segundo informações de terceiros. Não sei se ocorre no Estado do Rio de Janeiro. Catasetum appendiculatum, conforme demonstrado no citado artigo, é um nome inválido, que utilizamos durante longos anos, devido a equívoco de Hoehne seguido por outros autores, para designar espécies como Ctsm. lanciferum, Ctsm. gladiatorium, Ctsm. barbatum e suas numerosas variedades, e outras mais; deve ser abolido.
  Catasetum fimbriatum. Foto/photo: Kleber Lacerda   Catasetum fimbriatum,
mesmo quando apresenta
longas e numerosas fímbrias
no labelo, é impossível de ser
confundido, pois tem morfologia
floral completamente diferente, e

nem pertence ao mesmo Complexo.
  Convém assinalar que as pessoas em geral atentam muito para a quantidade e tamanho das fímbrias do labelo quando buscam identificar as espécies do Complexo Ctsm. cristatum Lindl., e essa característica não tem valor taxonômico significativo. Ctsm. barbatum, por exemplo, pode apresentar labelo pilosíssimo até quase glabro, representando variedades. O mais importante para diferenciação diagnóstica (quanto à morfologia) é a distribuição destas fímbrias no labelo, se na superfície ou marginais, se na totalidade ou em determinada parte, e a localização e conformação das calosidades.
O que pode dificultar é a variação intraespecífica e a gradação interespecífica. Cabe acrescentar que a caracterização de uma espécie pode valer-se dos critérios habituais e da sistemática molecular. Não somente dados morfológicos, mais empregados, mas todo um conjunto de informações sobre distribuição geográfica, odores e polinizadores, fenologia, etc. deve ser considerado. O emprego da biologia molecular é importantíssimo para estudos filogenéticos, mas acho que carece ainda de parâmetros claros para auxiliar em taxonomia principalmente a nível de espécies. O conceito darwiniano de espécie envolve o todo morfológico, fisiológico e ecológico, e diversas regiões de DNA podem ter muita ou pouca importância; basta uma pequena mudança, por exemplo, na produção de odor, para que ocorra especiação, enquanto muitas diferenças nos genes podem não conduzir a alterações fenotípicas significativas. Só para exemplificar, Catasetum barbatum e Catasetum lanciferum são morfologicamente muito semelhantes, às vezes quase indistinguíveis, mas nunca sobrevivem se trocarem de hábitats.



ON - No livro "Orquídeas Nativas da Amazônia Brasileira", João Batista F. da Silva e Manoela F.F. da Silva, as seguintes espécies são apresentadas como sinônimos:
Ctsm. appendiculatum = Ctsm. barbatum;
Ctsm. brichtae
= Ctsm. ferox;
Ctsm. lemosii
= Ctsm. albovirens e
Ctsm. randi
= Ctsm. rivularium Barb. Rodr.
Você concorda ?

KL - Tudo leva a crer, pela história - também incluída no artigo citado sobre Ctsm. lanciferum - que a planta descrita como Ctsm. appendiculatum nada mais foi do que uma das variedades de Ctsm. barbatum.
  Ctsm. brichtae
é realmente Ctsm. ferox,
  e acho que
Ctsm. peruvianum também pode ser, pois exceto nas dimensões é muito semelhante.
  Ctsm. lemosii e Ctsm. albovirens são seguramente a mesma espécie, conforme constatei examinando os tipos no herbário do Museu Goeldi em Belém, aliás na época junto com o próprio João Batista.
  Catasetum rivularium. Foto/photo:Kleber Lacerda Ctsm. randi é mais um nome
a ser esquecido, pois trata-se
sem dúvida do Ctsm. rivularium,
bastante característico pelas suas
duas calosidades no labelo com
tufos pilosos e antenas muito curtas,
  bem visíveis no holótipo de
Ctsm. randi em Kew, Inglaterra,
e em aquarela do próprio Barbosa Rodrigues.

Aqui, mais uma vez, foi provocada
confusão, devido a ilustrações de
variedades de Ctsm. barbatum
como se fossem Ctsm. randi,
publicadas por diversos autores.
  Catasetum randi (holotipo).
 


ON - O que você tem a nos dizer em relação ao Catasetum gardneri Schltr. e Catasetum discolor Lindl. ? Por que é tão difícil separar as duas espécies ou não são duas espécies? Muitas pessoas dizem que a espécie que dá na areia seria o Ctsm gardneri e a epífita seria Ctsm. discolor. Pabst não cita o Ctsm. gardneri, apenas o Ctsm discolor.

KL - Não há como confundir estas espécies. Ctsm. gardneri (conhecido como Ctsm. discolor var. fimbriatum) ocorre com hábito terrestre no litoral do Nordeste e Sudeste do Brasil, tem flores menores e as flores femininas são pequenas e caracteristicamente alongadas; Ctsm. discolor é uma espécie predominantemente amazônica mas ocorre em outros tipos de vegetação de áreas vizinhas no Brasil e Venezuela, suas flores femininas são globosas e muito maiores, tanto que levaram à publicação do Ctsm. cassideum - inválido, portanto - baseado nelas. Há ainda no grupo o Ctsm. x roseo-album, tratado como variedade de Ctsm. discolor e que Romero considera híbrido natural entre Ctsm. discolor e Ctsm. longifolium, no que é contestado por Pallarés, e o Ctsm. ciliatum.


ON - O híbrido natural Ctsm. X issanensis Pabst é resultado do cruzamento de Ctsm. discolor ou de pileatum x longifolium?

KL - Ctsm. X issanensis é o híbrido natural entre Ctsm. pileatum e Ctsm. longifolium, o que se pode deduzir principalmente pelo colorido das flores masculinas (bem ilustrado em aquarela de Samuel Salvado) e pelo comprimento das folhas.


ON - O Catasetum arachnoideum Ames é sinônimo de Ctsm. callosum Lindl?

KL - Posso basear-me em informação de Romero, Diretor do Oakes Ames Orchid Herbarium, Cambridge, E. U. A., onde está o tipo desta espécie, para responder afirmativamente. Vale lembrar que há uma ilustração na extinta revista "Orquídea" (Vol. 27:2, mar/abr. 1945, pág. 73), identificada como sendo esta espécie, mas que na verdade é uma espécie diferente, que não consegui identificar, afim de Ctsm. pulchrum ou Ctsm. richteri.


ON - Você falou na Associação de Orquidófilos da Amazônia, o que você pode falar sobre ela , sua importância, sua duração, seus colaboradores, suas publicações?

KL - A Associação de Orquidófilos do Amazonas foi fundada em 16 de janeiro de 1981, em Manaus, por um grupo de aficionados que já se reunia para conversar sobre orquídeas. Os fundadores residiam em Manaus, mas quase todos éramos imigrantes de outros Estados ou países: Pedro Ivo, Marilene, Kleber, Berenice, Antonio Nogueira, Sebastiana, João Batista, Manoela, Johannes Junk, Karola, Norman Penny, Ana Maria, Eliana Fernandez, Atílio Storti, Jean Louis Guilaumet, Susanne Renner, Richard Frisch. Foram se incorporando muitos orquidófilos locais e as atividades eram intensas, com reuniões em residências e no INPA (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia). Tive a honra de presidir a associação na maior parte de sua existência. Já em abril de 1981 editamos - impresso em "of-set"! - o primeiro número do "Boletim da AOA", publicação indexada, editada no início mensalmente e depois bimensalmente, gratuita e que conseguiu ser regularmente distribuída, inclusive para bibliotecas e universidades brasileiras e estrangeiras, durante quatro anos. Continha artigos e trabalhos científicos sempre inéditos, e naqueles tempos, sem os recursos da informática, os editores - Francisco Miranda, Pedro Ivo e eu, entrávamos madrugada afora para conseguir datilografar em máquina elétrica (com negritos e itálicos, imagine!), cortando e colando tiras de textos e fotografias em preto e branco, para os fotolitos em escala reduzida. Pedro Ivo era o diretor Científico e normatizou rigorosamente as condições para publicação, daí a boa qualidade que tornou este despretensioso periódico citado freqüentemente na literatura. Em meados de 1985 a AOA dissolveu-se, mais por uma questão de mudança da maioria dos associados, e ninguém pôde prontificar-se a mantê-la. O "espólio" encontra-se hoje com o Dr. Pedro Ivo, na Universidade do Amazonas, mas a lembrança do convívio amigo e profícuo, as descobertas, os ótimos momentos em reuniões e excursões permanecem na memória dos ex-associados.
     
   
Kleber em cima de uma Vellozia gigante.