Advogado, com atividade profissional no Rio de Janeiro, tendo se iniciado como orquidófilo, no que ele chama o seu terceiro começo, no ano de 1986, quando visitou, pela primeira vez, a Orquídea Collection, que foi uma bem sucedida série de exposições anuais que a OrquidaRIO realizava no Shopping Rio Design Center, no Leblon, Rio de Janeiro.
 

 

Durante aquele evento tornou-se sócio da OrquidaRIO, tendo, depois, ocupado diversas funções na Diretoria.
Presidiu a sociedade por dois mandatos, entre 1990 e 1994.
Em 1994 coordenou uma exposição internacional, a OrchiRIO 94, preparatória da 15ª Conferência Mundial de Orquídeas, a que, também, coordenou e presidiu, ambas realizadas, com grande sucesso, no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (a parte científica da Conferência cumpriu-se no Hotel Glória).
Foi agraciado pela OrquidaRIO com o título de sócio-benemérito.
É cultivador e orquidófilo amador.




  - Por que começou a cultivar orquídeas? Qual foi o momento mágico da atração?

- O interesse por orquídea vem de muito longe, da infância vivida em pequenas cidades do interior da Bahia, onde o meu pai era juiz. Ele era daquele tipo de homem que era chamado de naturalista amador. Costumava fazer longas caminhadas, mato adentro, subindo e descendo morros, seguindo cursos d'água e, sempre, me fazia acompanhá-lo.
Devo, em parte, a isto e aos esportes que me induziu a praticar a boa saúde que tenho até hoje.
Nessas caminhadas, muitas vezes me deparei com plantas incomuns, crescendo sobre rochas, em troncos ou em galhos de árvores e arbustos da caatinga e de pequenas matas, que ele, com ar contrito e respeitoso, me dizia serem orquídeas (aí, devo ter aprendido que orquídea é religião, não apenas prática de lazer...). A "contaminação" deve ter sido nessa época. Eu estranhava que as florinhas, bonitas, mas pequenas, precisassem de haste floral tão comprida. Explicava-me que aquilo era relacionado com a reprodução, que as plantas precisavam lançar suas flores até local mais claro e ensolarado para atraírem e serem notadas pelo inseto polinizador.
Hoje sei que estávamos falando de Laelia bahiensis, de algumas Encyclias e, possivelmente, também, de Catasetum e Cyrtopodium e, com toda certeza, de Cattleya aclandiae (esta já não mais na caatinga, mas em áreas do Recôncavo onde, também, moramos ou visitamos, já que ele viajava muito).
Tudo isto ficou escondido na memória emotiva por anos e anos, até que o interesse se manifestou imperioso, em Teresópolis, aí por volta de 1983, quando terminei de construir a casa do sítio e me instalei no sítio.
Na região serrana eu andava muito pelas matas e morros (tão diferentes daqueles da infância...), na época à cata de begônias, que, ali, são de grande beleza.
  Determinado dia estava eu na mata quando começou a ventar forte e decidi voltar, já que nessas circunstâncias a mata torna-se agressiva e perigosa. Usava um chapéu de palha e senti que caíra algo sobre ele, talvez uma folha ou pequeno galho. Andando contra o vento, tinha que de caminhar curvando a cabeça e segurando o chapéu, com uma das mãos, já que a outra estava ocupada com plantas colhidas. Um intenso perfume me acompanhou até em casa. Quando retirei o chapéu, caiu da copa uma pequena touceira de uma planta de orquídea, com longas hastes florais pendentes e pequenas flores amarelo-esverdeadas, de onde vinha o intenso perfume, que hoje sei ser de Gomesa recurva.
Foi a primeira orquídea de minha coleção.
Se você quer saber sobre "momento mágico", tenho este para lhe oferecer, sobretudo a experiência de sentir o perfume, que é maravilhoso. A partir daí não mais parei...
Gomesa recurva. Photo:Sergio Araujo
Gomesa recurva
 

A propósito, só bem recentemente os perfumes começaram a ser tratados mais seriamente, com publicação de ensaios sobre o assunto (Orquidário, aliás, vem publicando uma série excelente do seu sócio, o Professor universitário Antonio Ventura Pinto), existindo exposições em que se incluem julgamento de odores. Você já deve ter feito a experiência de, sabendo a hora em que a planta se prepara para a polinização, molhar uma planta para que ela solte o seu perfume em toda plenitude.


 

- Houve alguma inspiração ou alguém que lhe inspirou a começar a cultivar orquídeas?

Como respondi antes, meu pai (é, aliás, uma constante entre orquidófilos essa sucessão, genética e por tradição oral, de que se poderiam citar exemplos vários, Sandra Odebrecht, Amândio Pinho Caetano Jr., Maurício Verboonen, Aleksandro Zaslawski, do Espírito Santo, os Robert, do Paraná, os Seidel de Santa Catarina, etc....).
Na minha terceira fase orquidófila devo, enormemente, a Álvaro Pessôa, Roberto Agnes, Francisco Miranda, Waldemar Scheliga, Alexis Sauer, Carlos Eduardo de Britto Pereira e, sobretudo, ao fato de ter-me filiado à OrquidaRIO, o que me permitiu uma visão mais sistemática de orquidofilia e horticultura.
Tenho da minha filiação uma lembrança interessante: o meu introdutor e "padrinho" foi o Hans Frank que me brindou, mal terminei de assinar a proposta, com um Catasetum cernuum, que ainda tenho.

  - Quantas plantas possui?

- Nunca contei. Mas vamos tentar fazer um exercício de cálculo. Aqui no Rio, no terraço do apartamento em que moro, no Bairro de Botafogo, tenho um pequeno orquidário em que cultivo cerca de 300 plantas de que gosto e que não sobreviveriam em Teresópolis, onde está o grosso das que tenho.
Aqui, estão Dendrobium de clima quente, Vanda e Phalaenopsis, além de umas poucas outras, Cattleya (aclandiae, granulosa e uns poucos híbridos) e Oncidium, com que faço experiências de cultivo para concluir sobre possibilidade de adaptação a esse tipo de clima e condições de cultivo.
Photo: Raimundo Mesquita
Phal. French Delight
  É antiga pesquisa que venho fazendo e sobre que ainda não tenho qualquer conclusão.
Como lhe disse o grosso da minha coleção é mantido em Teresópolis, serra, clima temperado, com pontas de bastante frio, chegando a quase zero nos invernos mais rigorosos, muita umidade na primavera e verão, mas bem pouca no inverno e no outono, pelo menos no local onde estou, o bairro do Quebra-Frasco. No inverno chego a ter umidade no entorno de 15 % de umidade.
Tenho uma boa quantidade de plantas, que nunca contei.
Mas dá para fazer uma estimativa.
Photo:Sergio Araujo
Oncidium hastilabium
  Tenho 3 estufas com, aproximadamente, 400 m² .
Dentro dessas estufas as áreas de cultivo, bancadas, etc. devem alcançar uns 200 m².
Partindo de que pode-se cultivar cerca de 40 plantas por m², tenho espaço para 8.000 vasos.
Mas, devo ter algo como quatro ou cinco mil plantas, já que não entupo as bancadas até o limite e dou bastante espaço entre vasos, para arejamento e para tentar evitar contágio por pragas e doenças.


Photo: Raimundo Mesquita
Lc. Mem Helena Eyer

  - Quais as orquídeas que você mais cultiva?

  Photo: Raimundo Mesquita Cultivo de tudo um pouco, tudo que der para cultivar, já que minha visão da orquídea é estética e de experiência sensorial, a minha paixão é beleza, no mais possível variada.
Cultivar uns poucos gêneros ou espécies, é um outro tipo de visão orquidófila em que você se concentra e aprofunda, mas perde em variedade, como só ter flores em determinados períodos e de deixar de ter a experiência de variedade de formas, cores e perfumes.
Sou capaz de seguir o alfabeto para você: A, de Ada, B, de Bulbophyllum, C, de Cattleya, D, de Dendrobium, E, de Epidendrum e por aí afora até Z, de Zygopetalum, passando Wilsonara, Yosufara, etc., etc. e bote etc. nisso...

 

- Por que a escolha de tantos tipos de orquídea?


Photo: Raimundo Mesquita
Cattleya intermedia
- A resposta a esta pergunta está implícita no que disse há pouco, por que, embora na minha coleção, como na de qualquer brasileiro, haja predominância do gênero Cattleya e híbridos seus, inter e intragenéricos, isto não significa preferência especial, mas a circunstância de serem dessas plantas as fontes de abastecimento mais acessíveis, isso, é claro, além da extrema beleza da maioria dessas flores.
Photo: Raimundo Mesquita
Cattleya loddigesii

  - Qual a planta preferida, entre as suas?

- Eu já escrevi que a minha preferência maior, em determinado momento, foi Promenea stapelioides (tenho, aliás, muita pena que híbridos maravilhosos desse gênero, como, por exemplo, com Zygopetalum, não estejam sendo feitos no Brasil, mas na Nova Zelândia. Este é o prejuízo que nos dá a brasileira paixão por Cattleya)...
Já escrevi, também, que, hoje, a minha preferência por orquídea é orquídea
Photo: Raimundo Mesquita
Oncidium crispum
Aliás, não sou nenhuma Euglossinea (*), dessas altamente especializadas em uma só flor... Tenho momentos de preferência por determinadas orquídeas, geralmente as que estão na minha frente, como esse belo Oncidium crispum vindo da Serra dos Órgãos ou essa Restrepia sanguinea, vinda do Equador...
Photo: Raimundo Mesquita
Restrepia sanguinea

  - Quanto tempo você gasta cuidando de suas orquídeas?

 

- Não tanto quanto o que gostaria... Como os meus orquidários são em Teresópolis e eu passo no Rio de segunda a quinta, os três dias de meu fim de semana são integralmente dedicados à inspeção de planta por planta..., replante, fertilização, tratamentos de pragas e doenças, etc.


-
Existe alguma história ou caso ligado à sua relação com as orquídeas que você queira nos contar?

- Como contei antes, poderia dizer que fui "nomeado" orquidófilo por uma Gomesa.

- Diz-se que a orquidofilia é uma manifestação branda de loucura. Você já fez alguma loucura orquidófila?

- Muitas, como pagar US$500.00, por um Phalaenopsis Hilo Lip, que hoje se compra por US$20.00 um espécime adulto, ou US$1.200,00 por Cd, feito na Austrália, com apoio da RHS e da AOS que funcionava mal e era terrivelmente difícil de instalar e operar.
Mas afora loucuras com gastos exorbitantes, uns tantos tombos (alguns até mesmo graves e em tive que recorrer à eficiência do meu anjo da guarda) e um pé fraturado, cometi outras, como aprender a fotografar, a semear e a meristemar, montar laboratório (quando explodi uma panela de pressão por que esquecera de colocar água...) e depois descobrir que, se prosseguisse, iria ter um pesadelo com as mais de 25.000 plantas que tinha em cerca de 500 frascos (por sorte, um gato, que tínhamos em casa, fugindo de um cão pastor, se encarregou de resolver o meu problema - o que sobrou distribui...).
Mas a maior loucura, como você sabe, foi ter coordenado a realização e presidir a 15ª Conferência Mundial sobre Orquídeas, de 1996.

 


- Eu não lembrava dessa sua fase de produtor de orquídeas. Fale disso.

- De fato, tive um período de grande curiosidade, ou, melhor dizendo, de Creator, em que queria dominar, completamente, o ciclo da orquídea e me pus a aprender a semear e produzir clones. Para isso tive, sobretudo, a ajuda de um grande orquidófilo, Roberto Novaes, Prof. da Universidade de Viçosa, em Minas Gerais, que me ensinou o método de semeadura que, até hoje, pratico e que tem a grande virtude de reduzir drasticamente a possibilidade de insucesso por contaminação, além de, pela sua simplicidade, dispensar o uso de "capela" e outras complicações.
Andei divulgando esse método na revista Orquidário, com ajuda de Bill Sweet que me fez umas fotos excelentes. Esses artigos tiveram muito sucesso chegando, mesmo, a ser publicados no exterior (na revista venezuelana Orquideófilo). Já clonagem, andei praticando um pouco e recebi umas noções de corte e trato com um outro professor da Universidade de Viçosa, Sílvio Teixeira, que, além de grande especialista em cultura de tecidos é, também, consultor da FAO para países subdesenvolvidos, o que lhe obriga a uma enorme inventividade, como transformar anzóis de aço em escalpelos, criar "capelas" de fluxo laminar usando caixas de madeira, ventiladores e, como filtro, absorvente femininos, etc., etc.
A clonagem, embora procedimento simples é prática muito exigente, por isso a abandonei, depois de ter tido algum sucesso e tenho algumas plantas que foram fruto de meristemas feitos por mim. Uma delas, uma Cattleya labiata Emilia, foi produzida na OrquidaRIO, quando fiz uma demonstração numa das nossas reuniões técnicas (os mistérios da orquidologia, tinha tudo para contaminar, nem eu tinha qualquer expectativa de êxito. Ao contrário, tinha a certeza da contaminação e, isso, afirmei aos que estavam presentes aquela noite. Pois bem, não contaminou, produziu os protocórmios e deu-me algumas plantas, cerca de dez, ainda hoje vivas e florindo...). A grande vantagem que tirei dessas práticas foi um conhecimento mais aguçado da planta e a descoberta de meios engenhosos de superar limitações, como usar um velho toca-discos de 78 rotações como "shaker" (agitador) do meio de cultura líquido, que se usa para retardar a especialização dos tecidos.

  - E hibridação, sei que você andou fazendo e já divulgamos na nossa página uma Miltassia feita por você, a que deu o nome de sua mulher, Ophelia. O que anda fazendo nessa linha?
Photo: Raimundo Mesquita
Miltassia Ofelia
  - Estou reinventando a roda,
ou, melhor dizendo, estou
trabalhando numa linha de
refazer com flores de agora,
velhos híbridos antigos, como,
por exemplo, o híbrido natural,
horticulturalmente reconhecido
em 1859, Cattleya Isabella
(C. intermédia x C. forbesii).
Photo: Raimundo Mesquita
Cattleya Isabella
 
  Há pouco semeei Laelia Pastoral Symphony (Laelia pumila x L. sincorana), que é um híbrido feito por J. Miura em 1990 e Laelia Pulcherrima. Com o avanço brasileiro em melhoria genética, são enormes as possibilidades de refazer híbridos antigos que, creio, atingirão qualidade superior em todos os aspetos: forma, tamanho, substância e textura.

 

- Você teria alguma dica de cultivo sua que pudesse compartilhar conosco?

- Um orquidófilo experiente não precisa de dicas minhas. Para os iniciantes dou uma: não aceitem dicas de cultivo, elas não lhes servem. Não acreditem em substratos milagrosos, nem em adubos e tratamentos alternativos. Até ter adquirido experiência (o que só ocorre depois de, pelo menos, dez anos de prática de cultivo) sejam convencionais, usem xaxim e vaso de barro, sigam as práticas as mais corriqueiras possíveis, pois só têem a perder com experimentos.
Além disso, leiam, leiam muito, livros e revistas, freqüentem exposições, entrem para uma sociedade orquidófila, conversem com os mais experientes e perguntem, perguntem e perguntem.

Photo: Raimundo Mesquita
Rhynchostylis gigantea



  (*) Nota do Editor: Espécie de abelha que poliniza apenas um determinado gênero de orquídea




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