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  Entrevista com Marta Moraes, bióloga, administradora do Orquidário do Jardim Botânico do Rio de Janeiro    

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  ON: Marta, em nossa primeira edição, em 1997, você nos falou sobre a recuperação do orquidário e dos projetos em andamento. Quatro anos depois, sabedores de que as dificuldades são inúmeras, gostaríamos de saber o que já foi feito, o que está em andamento, quais são os novos projetos.

  Marta Moraes: O que temos feito nestes anos, em primeiro lugar, é atrair o público com uma estufa bem tratada, com plantas bonitas, razoavelmente bem identificadas, com informações básicas sobre as orquídeas e um atendimento diário.Temos mantido a coleção, que não é grande, mas tem plantas muito interessantes, que não são encontradas normalmente em coleções particulares.
  Embora sem informação, podemos supor que algumas das orquídeas que temos aqui hoje foram coletas de botânicos importantes como Campos Porto, Brade e talvez Barbosa Rodrigues.
Temos tido um pequeno acréscimo da coleção científica com coletas do Toscano de Brito (Botânico) até 1999, do Gustavo Martinelli (Especialista em bromélias) e do Gabriel Cattan (funcionário contratado do Orquidário) atualmente.
Algumas trocas com colecionadores, compras e doações de orquidários comerciais têm ajudado a manter o orquidário florido a maior parte do tempo.
Informatizamos toda a coleção usando um programa específico para jardins botânicos.
Não só a entrada dos dados, mas a atualização do banco tem sido uma das atividades prioritárias do orquidário e um projeto piloto do Jardim Botânico do Rio de Janeiro
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Marta e Delfina

  ON: E como ficou a parceria com o joalheiro Antonio Bernardo? Como funciona o contrato?

Marta: O patrocínio já foi renovado duas vezes, por períodos de dois anos. Estamos no sexto ano, que termina em agosto de 2002 e esperamos que seja renovado mais uma vez.
O contrato com o Antonio Bernardo é muito simples. Ele mantêm a coleção viva contratando dois jardineiros e uma bióloga (que sou eu) que supervisiona os jardineiros e administra o local, para que as plantas estejam bem tratadas e floridas, logo mantendo uma boa imagem do patrocinador. Fornece ainda o material básico para o cultivo. Tinha também o compromisso de pagar um salário a um especialista na família, indicado pelo Jardim Botânico. Como não existe mais tal pesquisador na casa, na última renovação ficamos com esta lacuna. Em troca o JBRJ cede seu espaço para eventos de divulgação do patrocinador.

  ON: Embora já tenha havido alguma melhora com o sistema de irrigação superior, a estufa do Orquidário (chamada Orchideario - o octógono e o corredor), devido à sua estrutura e sua cobertura em vidro que favorece uma temperatura extremamente elevada, durante a primavera e o verão, sempre foi considerada como um local muito difícil para o cultivo.
Isto não pode ser mudado?
Esta história de estufa tombada é verdade ou é folclore?
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  Marta: É verdade. Não se pode mexer, mas tem uma certa maleabilidade. Se convencer o IPHAN de que é necessário uma mudança, eles analisam.


ON: Haveria a possibilidade remota, delirante, de conservar isto aqui como um monumento, destinado à exposições e se criar um outro espaço, dentro do Jardim Botânico, em moldes mais modernos?

Marta: Com certeza, nós pensamos muito em colocar aqui atrás uma estufa mesmo, bacana, bem feita, embora existam orquídeas que vão muito bem aqui. Tivemos um oferecimento de uma firma de estufa de São Paulo, que fabrica desde as pequenininhas, que você faz em casa, tipo "faça você mesmo", até estufas gigantescas para cultivadores de hortaliça, de tudo. Esta firma foi recomendada pelo Maurício Verboonen (Orquidário Binot). Veio uma pessoa para fazer um estudo da possibilidade de refrigerar, de melhorar a situação desta estufa. Ficou um tempão aqui, pediu para eu tomar dados, deixou um barômetro, medimos o nível de umidade lá dentro, duas vezes por dia, medimos temperatura e tudo mais. Ele fez um relatório dizendo o que deveria ser feito para aqui ficar um pouco mais fresco. Era preciso colocar uma tela nela toda, por dentro, de alumínio que refratava o calor, colocar ventiladores, exaustores, muitas coisas, ficava caríssimo. Não deu para fazer, mas deste contato, surgiu a oferta de se fazer uma estufa pequena, para o orquidário. Seria uma forma de fazer uma propaganda, mas este assunto, infelizmente, morreu.


ON: Morreu como?

Marta: Não sei. Na mesma época, apareceu também um orquidófilo de Oxford, que é louco por laelias rupícolas. Ele vem ao Brasil, de dois em dois anos, vai a todos os lugares, fotografa tudo, volta e faz palestra. Ele está vendo que a cada ano que passa, o ambiente está se deteriorando cada vez mais e acha que seria interessantíssimo um estudo de todas elas. Ele falou para o Toscano que queria dar um dinheiro para alguém que as estudasse. Ele não tem muita grana, mas queria incentivar alguém, um estudante, pagar o trabalho de campo ou dar uma bolsa, uma coisa meio simbólica. Toscano disse que não dava para nós fazermos aqui porque não poderíamos cultivá-las, a não ser que tivéssemos uma estufa climatizada. O objetivo dele não era investir em estufa, nem em coisa nenhuma, o que ele queria era incentivar pessoas. Na ocasião, houve esta possibilidade da doação de uma estufa pequena que coubesse no espaço entre a estufa e o ripado para cultivarmos laelias rupícolas.
Não me pergunte porquê o negócio não foi para frente, pois eu não tomava conhecimento destas negociações. Era tudo discutido com o Toscano e ele saiu. Morreu a história da laelia rupícola, morreu a história da estufa.

  ON: Eles se conheciam, o da pesquisa e da estufa?

Marta: Não, embora os fatos tenham ocorrido concomitante, Toscano é que seria a ponte. Esta pessoa foi embora, eu achei que nunca mais voltaria. Voltou aqui este ano e continuava procurando alguém. Na época da exposição, em junho, eu perguntei ao Marco Campacci (pesquisador) se ele tinha interesse em entrar em contato com ele já que tinha muita coisa sobre laelias rupícolas. Eu dei o telefone e quando este senhor voltou aqui, o contato havia sido feito e já haviam marcado se encontrarem em São Paulo.


ON: O Orquidário existe como uma parte do Jardim Botânico? Você tem autonomia para firmar convênios, organizar eventos, por exemplo?

Marta: Não, não tenho. Com certeza, eu tenho que me submeter ao crivo da diretoria.


ON: E os problemas internos do orquidário, é você quem decide?
  Marta: Depende do que você está falando. A parte de estrutura física, por exemplo, eu dependo deles para tudo, se quebra uma bomba, um vidro, este ano, por exemplo, o orçamento não comporta mais despesas. O telhado do ripado que ficou de ser trocado desde o começo da recuperação, ainda não foi.


ON: O que prejudica muito a floração.


Marta
: Demais, demais. Lavamos tudo isto na época da reforma, depois mais uma vez, e eu estou desistindo de lavar de novo pois está tudo tão velho, tão quebradiço.
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ripado do JBRJ
  ON: Mas se você conseguisse, digamos, um patrocínio de uma firma que fabricasse coberturas para trocar aquilo ali, você teria que submeter a eles?
E isto é possível? A estrutura organizacional permite isto?


Marta: Sim, tenho que submeter à diretoria, isto é normal, de praxe. A estrutura permite isto perfeitamente.


ON: Não sei, de repente, aparece alguém. Tem tantas empresas de construção de estufas.
O custo não é muito elevado para se trocar estas telhas.


Marta: Não é tão baixo assim.


ON: Para uma empresa?

Marta: Para as empresas não é, mas para nós é um custo elevado. Eu já fiz este orçamento milhões de vezes. A última vez que fiz, se não me engano, ficou em torno de R$10.000,00 (dez mil reais).


ON: R$ 10.000,00 para um grande empresa não é nada.

Marta: Mas para nós do Jardim Botânico é.

 
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ON: Marta, por que outras instituições não patrocinam o orquidário? Por que não se promovem eventos, uma vez que, além de tudo, a arquitetura do orquidário é belíssima? O patrocínio exige exclusividade?


Marta: Exclusividade não existe, só no ramo de negócios do patrocinador, é lógico. Ele sempre deixou bem claro que se quisermos pedir outro patrocínio para o orquidário, desde que não seja outro joalheiro, tudo bem, ele acha ótimo. Eventos são muito trabalhosos e custam dinheiro, logo requerem incentivo, projeto, bater de porta em porta, produção...
Eu fiz sugestões de temas mas não sou produtora. O patrocinador gosta da idéia, mas por amor ao assunto e ao orquidário, não tem interesse em se promover com isto. O JBRJ também não tem uma especial preocupação em atrair o público, ele já tem uma visitação garantida.
Quem gostaria de promover eventos aqui?
A OrquidaRio seria a principal interessada.
Eu sinto também uma dificuldade geral de separar a orquidofilia do comércio. É complicado.
Eventos que divulguem as orquídeas serão sempre muito bem vindos aqui, já os de cunho comercial, para vender plantas, têm um limite.
Para o patrocinador, quanto mais chamar atenção, melhor.
Por exemplo, Toscano queria captar recursos de alguma empresa para fazer excursão, coleta, etc. e o Antônio Bernardo não se opôs, mas tem que haver um captador de recursos, se não o botânico passa a ser outra coisa.


ON: Claro, não cabe ao botânico correr atrás disto. Vocês teriam que ter aqui um profissional de captação de recursos.

Marta: Agora no Jardim Botânico há um setor para isto,mas tudo é recentíssimo.









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