ON: Vamos tentar ser objetivos. Em relação a 4 anos atrás e agora, o que a gente pode ticar lado a lado, estrutura física, como estava, como está.

Marta: Estrutura física estava completamente desintegrada. As paredes mofam rapidíssimo, num minuto, elas ficam com aspecto de caquéticas, abandonadas. Em maio, por exemplo, eu consegui um aporte do patrocinador para pintar. Os vidros quebram muito, cada vez que a gente vai lavar o telhado, só de passar a escova, lasca o vidro, a própria refrigeração em cima é complicada. Têm uns bicos que precisam ser desentupidos e a gente não consegue chegar lá em cima para fazer isto. Então às vezes fica um jato direto no vidro que ou racha, ou empurra e então tira do lugar. O Jardim Botânico trocou os que estavam quebrados. Enfim é uma manutenção cara, não é qualquer firma ou qualquer vidraceiro que trabalha aqui. É complicado, a estrutura física, a princípio, é responsabilidade do Jardim Botânico mas há o problema de verba no orçamento, de previsão para isto.


ON: Então já tem que começar a pedir este ano para o ano que vem.

Marta: Este ano eu já mandei umas 4 mensagens para lá. Eles têm uma posição... como isto está funcionando, está bonito, está amparado, eles têm tantos problemas no parque que eles vão deixando de lado.


ON: Já que está legal, é mais barato você conservar do que deixar destruir e fazer de novo.

Marta: Como para o patrocinador é ruim se estiver com aspecto ruim, ele acaba botando um a mais. Isto é péssimo.


ON: Isto não é legal pois você fica só dependendo do Antonio Bernardo, o dia que ele decidir não renovar o patrocínio, acabou tudo. Como estava esta estufa antes da obra de recuperação?

  Marta: Na época da obra, os vidros estavam completamente cobertos de alga.
A estrutura de ferro precisou ser toda refeita.
As treliças, por exemplo, foram tiradas, desmontadas, as que eram muito fechadas e largas foram abertas e refeitas mais estreitas.
Foi Flávio Cardim (antigo Diretor técnico da Quinta do Lago) que chamou atenção para isto.
Comprei andaimes para facilitar a manutenção que é quase que diária.
Mas não está rolando.
É uma batalha.
Photo:Sergio Araujo
treliças: antes...
Photo:Sergio Araujo
e depois
 

ON: O que falta aqui para ficar em condições quase ideais, viáveis, que, de alguma maneira a gente divulgando, possa ajudar?

Marta: Eu acho que falta esta melhoria da estrutura física. Eu queria, por exemplo, ter uma água pura aqui pois a água clorada para orquídea não é legal. Além disto, no verão tem problema de água com rede e se quebra alguma coisa, fecha o abastecimento, acaba com a água. Eu até já orcei fazer um poço aqui. Eu perco também muito tempo com esta parte de telhado, com água, com manutenção e lavagem dos vidros. Os jardineiros fazem muito trabalho de manutenção, muito mais do que o desejável. Já tenho poucos e perdem muito tempo. Um dia na semana é perdido só para varrer, mas tudo bem, estamos cuidando daqui mas se tivermos ainda que lavar telhado, pregar telhas, fica complicado pois todo dia tem algum problema estrutural para resolver. Com essa estrutura que tenho de 2 jardineiros, a estufa fica difícil de ser mantida. Eu não consigo melhorar isto em matéria de cultivo. Olha que eu adubo de 15 em 15 dias, não deixo o xaxim ficar velho. Como vou botar mais plantas, se não consigo manter?

ON: Se você colocar uma planta bonita, saudável, fica fácil de manter. Não é ficar cultivando ali, seria quase como uma área de exposição, floriu, vai para ali, vai para o meio. Uma área de atração de público, é nisto que estou pensando. As pessoas entram aqui, dão uma volta, bebem água no bebedouro, olham as que estão bonitas e vão embora. Qual política do JBRJ em relação a este público leigo? Ou não deve existir nenhuma política neste sentido, pois a função do JBRJ, do orquidário em particular é outra?

  Marta: O que você quer dizer com público leigo? Que não é botânico, que não tem alguma relação com o universo das plantas ou que não sabe absolutamente nada de plantas?
A maioria de nossos visitantes está dentro desta última categoria. O Arboreto do JBRJ é primeiramente um local de recreação e de utilidade pública.
O visitante com um real interesse pelas plantas é raro.
Vem-se aqui para exercitar, respirar, pensar, passear, namorar e apreciar a natureza, não necessariamente as plantas.
Estou me referindo ao Arboreto como um todo e ao Orquidário em particular.
Uma das funções do JBRJ é exatamente mudar o olhar das pessoas, educar e despertar o interesse pelo reino vegetal. Muitas pessoas não distinguem uma orquídea de uma bromélia ou de uma samambaia.
E neste nível de ignorância é muito difícil apreciar.

Acho que é por isso estes cartazes com informações sobre orquídeas que temos na estufa fazem tanto sucesso. Vejo pessoas vibrando com as descobertas que fazem ao ler os textos. Elas lêem os cartazes, eu acho que a gente está cumprindo a função.
Photo:Sergio Araujo
  ON: Qual o objetivo do Orquidário?

Marta: A tendência é ensinar sobre orquídeas, mas ensinar sobre outras coisas também, porque é um lugar onde se pode comparar. Você tem bromélias, você tem samambaias, tudo misturado.


ON: Mas orquidário é orquidário. Bromeliário é bromeliário. Não tem uma orquídea no bromeliário.

Marta: Na estufa, por exemplo, eu gostaria de fazer um jardim evolutivo, mostrar a evolução do reino vegetal, como tem em Kew Gardens. Mas lá é fora de série, é de tirar o chapéu. Eu não vou lá há muito tempo, não vi estas estufas novas, climatizadas mas parece que são o máximo. Quando fui, o jardim evolutivo estava fechado e não pude entrar.
Fiquei morrendo de pena, porque eu sempre tive isto na cabeça, desde que comecei a estudar planta, tinha que fazer alguma coisa assim com o canteiro, mostrando a evolução da planta, mais primitiva, mais perto lá do dinossauro e vir mostrando o que foi acontecendo.



ON: Por que você não faz isto aqui fora, nesta área que não foi usada?

Marta: Porque seria muito complicado, muito sol. Dentro da estufa propriamente dita seria melhor.


ON: Você só não pode produzir mais flores porque você não tem luminosidade suficiente. O clima daqui é muito interessante pois apesar de ser Rio de Janeiro, há uma queda diária de temperatura que facilita a floração mas com este problema de luminosidade, é complicado. O fotoperíodo é bom mas com este telhado do ripado, fica difícil.

Marta: Eu sei, o telhado do ripado está ruim. Eu tenho bancada sobrando, mas são locais escuros ou onde já falta telha em cima, chove. Ele não está bem adaptado para orquídeas mas a gente vai levando.


ON: Então a sua principal necessidade no momento, é realmente conseguir um patrocinador para trocar o telhado do ripado?


Marta: Com certeza.


ON: Voltando ao problema da estufa (octógono e corredor) propriamente dita, estamos vendo que, apesar de não ter sido possível executar estes projetos, muitas espécies se dão muito bem e florescem todo ano. Como foi feita esta escolha, você foi experimentando e transferindo as que não se davam bem?

Marta: No início, nós evitávamos deixar as plantas na estufa além do período da floração. Mas o que observamos foi que as que ficavam por acaso por mais tempo, em geral se mostravam muito felizes. Na verdade a alta luminosidade e o contraste entre o calor e a secura contrabalançados com a rega diária têm dado certo para a maioria das espécies.


ON: Apesar de todas as dificuldades que você expôs, hoje em dia vemos orquídeas que estão muito bem não só na estufa mas em todas as partes que compõem o orquidário. Na área externa, no corredor, no jardim interno. Como você faz esta distribuição, esta escolha?

Marta: Como organizar e expor uma coleção de plantas vivas? Foi a minha primeira interrogação ao chegar aqui, e não tenho até hoje a resposta. O mais simples é arrumar por gênero e espécie, distribuídas nos ambientes mais adequados (principalmente de luminosidade) dentro de nossa área. Eu imaginava a princípio fazer por ecossistemas. Estética e didaticamente é o mais interessante. Mas construir os diferentes ambientes não é fácil, o paisagismo fica muito caro, é preciso coletar espécies representativas dos diversos ecossistemas, que vivam bem em cultivo e que se associem às orquídeas. Manter a luminosidade e umidade diferenciadas também não é tarefa fácil, vide as estufas climatizadas de Kew Gardens. Um ecossistema, por exemplo, a Mata Atlântica, abrange desde a mata costeira aos campos de altitude, de zero a dois mil metros acima do nível do mar. Como conciliar tudo isto? Quando começaram a chegar as plantas coletadas pelo Toscano na Bahia, tentei mantê-las juntas, assim como o material dos outros coletores. Não é o ideal, mas é interessante ver agrupadas as orquídeas representativas de uma área, como temos, por exemplo, espécies do Pão de Açúcar, Floresta da Tijuca, Macaé de Cima, Teresópolis, Pico do Cairuçu (Paraty), Aiuruoca (MG), Chapada Diamantina (BA). Enfim, temos tentado um pouco de tudo. Você sabe que uma coleção viva não pode é ser estática.
  Na estufa propriamente dita, na parte octogonal, algumas espécies exóticas estão muito bem, com boa floração, como:
Arundina graminifolia,

Renanthera
sp,
Vanda coerulea
,
Bulbophyllum lobbiiPhoto: Marta Moraes
Arachnis sp
Photo: Marta Moraes
Spathoglottis plicataPhoto: Marta Moraes
Papilionanthe teresPhoto: Marta Moraes,
  Das espécies brasileiras encontramos:
Oncidium baueri;
Maxillaria brasiliensis;

Cattleya labiata;
Cattleya forbesii;
Sobralia sessilis;
Brassavola tuberculataPhoto: Marta de Moraes
Maxillaria rufescens
Photo: Marta de Moraes
Maxillaria ochroleuca
Photo: Marta de Moraes
Pseudolaelia vellozicolaPhoto: Marta de Moraes
  Ainda na estufa mas no corredor, temos mais espécies brasileiras com uma floração muito boa:
Cattleya amesthysglossaPhoto: Marta de Moraes
C. tenuis
Photo: Marta de Moraes
  C. granulosa, C. guttata, , C. loddigesii, Xylobium squalens, Miltonia spectabilis, Oncidium flexuosum, O. sarcodes, O. pumilum (Lophiaris pumila),Sobralia macrantha, Sobralia sp,
Sobralia liliastrum
Photo: Marta de Moraes
Laelia grandis
Photo: Marta de Moraes
  diversas espécies de Maxillaria (clique aqui para ver algumas Maxillarias do JB),
diversas espécies de Epidendrum (clique aqui para ver alguns Epidendruns do JB)
e até Pleurothallis.
  Pleurothallis glumacea Lindl
Photo: Marta de Moraes
  Tem também Renanthera, Vanda coerulea, Vanda tricolor.
Na área externa, temos a Cattleya elongata, Cyrtopodium gigas e outros, Laelia bahiensis, Encyclia alboxanthina, E. oncidioides, diversos Epidendrum, Catasetum, Cattleya forbesii. Mas grande parte da coleção está no ripado, a maioria dos híbridos e das Laelia e Cattleya.



ON: E as espécies de Cattleya, o que floresce bem aqui?

Marta: Cattleya amethystoglossa, Cattleya elongata, Cattleya forbesii, Cattleya granulosa, Cattleya guttata, Cattleya harrisoniana, Cattleya intermedia, Cattleya leopoldii, Cattleya loddigesii, Cattleya maxima, Cattleya tenuis.


ON: Apesar de estarmos a nível do mar, com clima bem quente do Rio de Janeiro, embora bastante atenuado pela mata em volta e pelo próprio campus do JBRJ, parece que as espécies de Laelia florescem razoavelmente bem aqui. Pelo menos, aqui tem uma queda bem razoável de temperatura à noite.

Marta: Temos Laelia alaori, Laelia bahiensis, Laelia crispa, Laelia crispata, Laelia grandis, Laelia. kaustsky, Laelia lobata, Laelia perrini, Laelia purpurata, Laelia tenebrosa, Laelia virens, Laelia xanthina. Contrariamente ao recomendado, a Laelia lobata só floresceu depois que foi reenvasada. A Laelia bahiensis, nós cultivamos no jardim externo, a pleno sol.


ON: E Oncidium?

Marta: Os que vão melhor aqui são Oncidium pulvinatum, Oncidium pumilum, Oncidium uniflorum, Oncidium sarcodes, Oncidium phymatochillum, Oncidium croesus, Oncidium varicosum.
 
Photos: Marta de Moraes - Art: Sergio Araujo
clique aqui para ver alguns Oncidiuns, Cattleyas e Laelias


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