ON: O que mais?


  Marta: Sophronitis cernua, Sophronitis mantiqueriae,C. polyphyllum, Encyclia cordigera, Prosthechea fragrans e vespa, Epidendrum warasii, , Epidendrum densiflorum, Epidendrum hololeucum, Epidendrum ciliare, Epidendrum ellipticum, Epidendrum vesicatum, Maxillaria chrysantha, Maxillaria desvauxiana, Maxillaria phoenicanthera, Maxillaria consaguinea, Maxillaria camaridii, Maxillaria alba, Maxillaria cerifera, Maxillaria spirito sanctenses, Maxillaria valenzuelana, Maxillaria tenuifolia, Maxillaria ubatubana, Maxillaria pachyphyla, Maxillaria madida, Bifrenaria racemosa, Bifrenaria vittelina, Bifrenaria stefanae, Bifrenaria aureofulva,
Psychopsiella limminghei
E.Lückel & G.J.Braem,
Photo: Marta de Moraes
Constancia rupestris Barb. Rodr.
Photo: Marta de Moraes
Schomburghia crispa Lindl.
Photo: Marta de Moraes

Cyrtopodium cardiochilum Lindl.
Photo: Marta de Moraes
Epidendrum orchidiflorum
(Salzm)Salzm. ex Lindl.
Photo: Marta de Moraes
Koellensteinia graminea (Lindl.) Rchb.f.
Photo: Marta de Moraes
  Vanilla chamissonis, Leptotes bicolor, Leptotes unicolor, Brassavola tuberculata, Ornithophora radicans, Brassia chloroleuca, Aspasia lunata, Miltonia clowesii, Miltonia regnelli, Miltonia flavescens, Miltonia cuneata, Pleurothallis pubescens, Pleurothallis punctatifolia, Pleurothallis binotii, Pleurothallis nectarifera, Pleurothallis recurva, Octomeria grandiflora, Octomeria tricolor, Octomeria robusta, Phragmipedium caudatum, Mesadenella cuspidata, Sarcoglottis fasciculata, Prescottia stachyodes, Eltroplectris triloba, Cirrhaea saccata, Catasetum saccatum, Catasetum purum, Catasetum cernum, Isochilus linearis,
Trigonidium tenue
Lodd. ex Lindl
Photo: Marta de Moraes
Trigonidium latifolium Lindl
Photo: Marta de Moraes
Liparis nervosa
(Thumb.) Lindl
Photo: Marta de Moraes
Pleurothallis glumacea Lindl
.Photo: Marta de Moraes




Dendrobium moschatum
(Buch.Ham) SW
Photo: Marta de Moraes

Dendrobium thyrsiflorumPhoto: Marta de Moraes
  Myoxanthus exasperatus, Myoxanthus punctatus, Pleurothallis strupifolia, Dendrobium crumenatum e outros.

ON: O que você acha das pessoas no meio viverem apregoando que a estufa é um cemitério de orquídeas? Procede o comentário? Esta sua lista de espécies e floração obtida aqui não acaba de vez com esta lenda?
 
Photo:Sergio Araujo
Marta: Logo que cheguei aqui ouvi dizer que muitos orquidários comerciais e colecionadores particulares haviam feito doações ao orquidário do JBRJ e que a maioria das plantas tinha morrido, que o JBRJ estava desacreditado e que seria difícil contar com doações para uma reinauguração.
Naquela época eu ouvi falar em cemitério de orquídeas.
Pudera, estava totalmente abandonado.
Na estufa não encontrei nenhuma orquídea, só samambaias e antúrios. Achei que seria difícil cultivar qualquer planta lá dentro.
Com o tempo fui percebendo que quem sofre mesmo na estufa são as pessoas, especialmente os estrangeiros, as plantas não, é só molhar muito bem.
 
  ON: Qual é o acervo, hoje em dia, do Orquidário?

Marta: Hoje temos 2693 registros e 2439 acessos. Acesso é qualquer material botânico que chega ao Jardim, seja planta viva, herborizada, em álcool, semente, amostra de madeira, etc. Se um acesso der 3 mudas, estas levam o mesmo número da mãe com /1, /2, /3, e são três novos registros.


ON: Quantas espécies o orquidário possui?

Marta: Temos 590 diferentes espécies e/ou híbridos. 350 flores de espécies em álcool e 185 espécies fotografadas.


ON: Qual a proporção de plantas nativas?

Marta: Cerca de 70%. Se você pensar que a flora brasileira de orquídeas tem cerca de 2.300, 2.500 espécies e nós temos 420, isto é muito pouco. Temos 590 espécies entre híbridos e espécies.


ON: Por que isto?

Marta: Porque não temos um programa de coleta própria. Isto tem que ser feito oficialmente. Este é um ponto que sempre dá uma certa trava.


ON: O Jardim Botânico não tem um coletor oficial?

Marta: Tem coletor geral, de orquídeas não. Em geral, as pessoas que coletam aqui trazem plantas das famílias que já têm pesquisador especialista na casa. Orquídeas, como não tem especialista, as pessoas passam batido, não trazem.


ON: Mas o Jardim Botânico do Rio de Janeiro ou o Orquidário não poderia ter o direito de nomear alguém para uma coleta específica? Por exemplo, para construir alguma coleção, você poderia fazer isto?

Marta: Claro que poderia, teria que montar uma equipe, mas é uma burocracia. Isto é uma das coisas que Toscano ia fazer, mas precisava de uma firma para patrocinar. Como o bromeliário fez. Gustavo conseguiu um patrocínio da Coca-Cola e passou dois anos coletando, foi a todos os parques do Brasil, do Oiapoque ao Chuí. Escreveu para cada unidade de conservação que ele iria visitar, conseguiu licença de coleta, foi um trabalho impressionante.


ON: Vamos fazer isto?

Marta: É bárbaro, bárbaro. Deu um trabalho burocrático gigantesco. Um trabalho de dois anos de viagens. Incrível! Ele mandou muitas plantas para nós. Muitas vezes, ele estava lá em cima, no norte do Brasil, botava tudo no caixote e mandava, porque iria demorar para ele voltar por aqui. Eu tenho bastante plantas que ele trouxe.


ON: Mas isto não está sendo feito por ninguém no momento?

Marta: Não, não está sendo feito. O que precisamos, além de alguém com experiência de campo e o olhar treinado para orquídeas, é de um projeto bem feito e um patrocinador.


ON: E um mateiro?

Marta: Mateiro, você contrata no local, um cara que conheça a região. Não é para coletar, não é para tirar planta, mas para assessorar, andar no lugar. Você não pode encomendar para que ele colete, ele é só para ajudar.


ON: Tem determinados dados que precisam ser anotados, que o mateiro não faz mas ele sabe exatamente onde encontrar as orquídeas. É inviável existir, um coletor autorizado para o Jardim Botânico?

Marta: É. A não ser que venha a ser formado para isto e entre para o quadro de funcionários do Jardim. É o que espero aconteça com o Gabriel, ele tem todos os requisitos.


ON: E vocês vão continuar com um déficit de 1.600 espécies?

Marta: Enquanto não formarmos pessoas para este fim vai ser difícil enriquecer nossa coleção.


ON: Quer dizer que pouquinho a pouquinho, vocês estão indo. No passado, como foi formada a coleção do Orquidário? O próprio Barbosa Rodrigues trouxe muita coisa para cá.

Marta: Encontrei um trabalho do Campos Porto que é muito simpático, de 1914. A estufa do Orquidário estava a zero de orquídeas e o Jardim o contratou para ir para Itatiaia coletar plantas para cá. Ficou 8 meses lá, só coletando, ele abarrotou isto aqui. É um trabalho super bacana, ele colocou todas as espécies que coletou por altitude, onde ele encontrou, mês de floração. Não dá para ter certeza se ainda temos as mesmas plantas que ele coletou, mas tem alguma coisa que a gente pode imaginar que seja.

 
ON: Este Jardim Botânico é uma coisa mágica.

Marta: O que tem de gente que mora aqui no Rio e que nunca veio ao Jardim Botânico e quando vêm fica falando: Como eu nunca tinha vindo neste lugar? Que absurdo?
Tem os que vêm todos os anos, todos os meses, todo domingo.
Tem tudo aqui, tem umas coisas estranhas como os que jogam as cinzas de seus mortos aqui, tem gente que traz cristal para energizar as plantas.
  Photo: Sergio Araujo
  ON: Qual a relação do JBRJ com os orquidários fluminenses? Existe alguma incompatibilidade entre o JBRJ e os orquidários?

Marta: Não percebo incompatibilidade alguma entre o JBRJ e os orquidários, aliás me sinto muito bem recebida em todos os que visito. Da mesma forma, acho que não existe hostilidade do Jardim para com os orquidários. O que não existe é uma troca efetiva com todos eles, mas isto seria o quê?
Com o orquidário Quinta do Lago temos um contrato de cooperação de orientação sobre cultivo e o JBRJ permite que a Rosário participe de excursões botânicas e tenha suas plantas identificadas. É uma parceria legal, mas totalmente unilateral. Só a Quinta do Lago cumpre, o Orquidário do JB só levou a Rosário em uma viagem, mas ela não cobra... na verdade é uma falha de ambos, porque não sentamos para conversar, avaliar, propor...enfim, é uma pena, porque desta experiência poderiam surgir outras, evoluir de alguma forma a relação do JBRJ com os orquidários comerciais e mesmo com os colecionadores. Mas como também seria uma atribuição do Toscano, nunca me preocupei em tomar a dianteira. Acho que seria muito bom abrir este canal e principalmente acabar com este mito da incompatibilidade, que não existe. Por exemplo, o orquidário Orchid Castle, do Roland Cookie nos doou 110 plantas de Laelia purpurata que são as que estão florindo agora.



ON: A grande preocupação de vocês seria a de, com o tempo, só colocar em exibição espécies brasileiras? Isto seria o ideal?

Marta: Seria o ideal.


ON: E quando você expõe, é indicado de que se trata de uma espécie brasileira?

Marta: Na bancada da salinha, que fica no final da estufa de vidro, nós tentamos só colocar espécies e preferencialmente brasileiras, com um texto sobre elas. No momento, temos Encyclia osmantha, Miltonia flavescens, Laelia tenebrosa e Laelia purpurata com um texto sobre as duas últimas.


ON: E é um lugar que as pessoas sempre visitam.


Marta: Visitam bastante. Sempre tem os apressadinhos que dão a volta e saem antes de chegar na sala do fundo. Mas a grande maioria chega e aprecia muito.


ON: E a relação com o meio orquidófilo, o que poderia melhorar?

Marta: Eu acho que a relação poderia ser muito mais estreita, sabe? Se viessem mais, visitassem mais, trocassem mais idéias, trocassem plantas mesmo, seria super legal.


ON: Trocassem ou doassem?

Marta: Doar também, mas poderíamos fazer permutas porque temos muitas plantas exóticas que poderiam ser permutadas. É claro que isto depende de uma burocracia, mas é possível.


ON: Isto poderia ser feito com um indivíduo ou teria que ser através de uma instituição?
 
Photo: Marta de Moraes
Marta: Eu acho que poderia ser feito com pessoa física, embora eu nunca tenha feito. De outros estados, eu já recebi plantas maravilhosas como a Laelia grandis que está florida agora, Laelia alaori, Cattleya amethystoglossa. São plantas com procedência, isto é outra coisa que temos que ter na nossa coleção. Não adianta ter uma coleção sem saber de onde vêm as plantas.
Photo: Marta de Moraes
 

ON: Mas seria possível esta permuta, se alguém quiser?

Marta: É possível sim, seria maravilhoso.


ON: Estes intercâmbios com os orquidários comerciais, com os orquidófilos, passam, de uma certa forma, pela OrquidaRio. Depois de muito tempo, tivemos uma exposição promovida pela sociedade. Esta parceria está sendo retomada ou nunca foi rompida?


Marta: Em setembro, ficou fechado com o patrocinador e o presidente da OrquidaRio, Hans Frank, que iríamos ter duas exposições por ano. Uma em maio e outra em novembro.


ON: Mas a de novembro deste ano não rolou.


Marta: Antônio Bernardo, o patrocinador, achou que novembro estava muito em cima e a próxima ficou mesmo para maio.


ON: Como funciona a relação Antônio Bernardo, Orquidário do JB e a OrquidaRio, nas exposições?


Marta: Apesar do espaço público ser muito valorizado, muito caro, a idéia era ao invés de alugar e ganhar dinheiro, o Orquidário ganharia em orquídea. Cada expositor pagaria pelo estande um tanto em dinheiro à OrquidaRio, que precisa de cash e pagaria o equivalente em planta ao Orquidário do Jardim Botânico. Isto nunca ficou muito bem definido. Já tem toda uma situação que a gente está tentando fazer da melhor maneira possível para dar certo. Agora é preciso tomar muito cuidado com a posição em relação ao patrocinador e não se tomar uma posição chata acreditando que ele seja obrigado a pagar tudo, não é assim. Ele sempre cumpre o combinado, faz os cartazes, no entanto sempre fica uma dívida estranhíssima. Não é possível que se julgue o tempo todo que o patrocinador tenha que pagar tudo.

ON: É preciso acabar com essa idéia de que as instituições, os patrocinadores, os mecenas têm obrigação de bancar tudo o que lhes é proposto. Existe essa mentalidade que acha que, como eles têm dinheiro e as associações e as pessoas não, existe a obrigação deles bancarem tudo. É muito fácil administrar qualquer coisa assim: preciso fazer isto, corro no patrocinador e pego o dinheiro.
Quem quiser ter projeto bancado, que faça primeiro um projeto bem estruturado, bem embasado, de interesse para ambas as partes e a partir daí as chances de conseguir o dinheiro surgem.
Ficar só reclamando e pedindo que os outros venham com as soluções não resolve nada e é bem uma manifestação de subdesenvolvimento.
O patrocinador paga o que ele se compromete a pagar.
Mas com relação à cessão de plantas ao Orquidário, parece que isto nunca funcionou muito bem, pois soubemos de orquidário que ainda deve plantas ao Jardim Botânico.


Marta: Eu não sei, de repente, eles vão embora sem saber que esta é a combinação.


ON: Mas eles sabem disto?

Marta: Na verdade, eu não sei se foi colocado para os expositores. A posição da OrquidaRio é de que não se pode cobrar dos particulares, que não vieram vender, só vieram expor. Mas é uma coisa simbólica, uma planta que seja pois ele veio aqui, usou o espaço público.


ON: Ele está tendo algum benefício.

Marta: Na primeira exposição foi estabelecido um valor em planta equivalente ao que OrquidaRio ganhava em dinheiro, foi uma coisa super simpática e que funcionou muito bem. Todo mundo concordou, durante uns meses, não me lembro quantos, cada orquidário mandava um número de planta para nós termos planta em flor aqui.. Mas é lógico que o orquidário é que estipulava o valor daquela planta, podia dar o valor que ele quisesse mas isto não tinha importância. O importante é que ficasse mais ou menos equiparado.

ON: Estas exposições precisariam ser mais divulgadas. Se vai fazer uma exposição OrquidaRio/Jardim Botânico, tem que contratar uma divulgadora profissional para encher isto aqui de gente.


Marta: Agora, interessa abarrotar este lugar aqui de gente? Fica insuportável, por que não se faz mais vezes? Por que não se pensa de outra maneira? Por que o interesse é só vender?
Se a OrquidaRio fizer uma vez por mês uma reunião, num fim de semana, por exemplo.


ON: Você está fazendo uma oferta à OrquidaRio que eu considero importantíssima. Um Jardim Botânico deste porte que se coloca à disposição de uma associação de orquidófilos é um fato que não acontece todo dia.
A bola agora está no campo da OrquidaRio, que se não fizer uso desta oferta estará dando uma demonstração de incompetência ou de preguiça ou de sei lá o quê.


ON: Todo mundo reconhece a importância deste espaço e de seu publico cativo. Então, por que a dificuldade de se desenvolver um trabalho conjunto?

Marta: A questão é que eu não sei, por exemplo, o quanto é importante para a Quinta do Lago ter aquela placa ali na frente e ter a sua marca aqui. Vira e mexe, Rosário traz plantas, fica a etiqueta, deixa folhetos, mas acabam rápido. Eu acho que não há um real interesse comercial nisso.

 
ON: Eu adoraria ter um banco aí no arboreto ou aqui no orquidário patrocinado pelo meu estúdio de fotografia, com o nome do meu estúdio gravado nele, pois sou apaixonado pelo Jardim Botânico e não entendo como as pessoas que mexem com planta, com orquídeas, não têm esta mesma visão, esta mesma paixão por este espaço, que não vou dizer que é único, mas que é ...

Marta: Uma dádiva.

ON: ...uma dádiva para o Rio de Janeiro.

Photo:Sergio Araujo
Photo: Sergio Araujo

  Marta: Eu acho que tudo é uma questão de conversar, discutir, de trazer os assuntos, as questões. Isto é o que eu acho uma pena, uma coisa que não funciona por questões bobas.

ON: Como foi o recente Congresso de Botânica? Discutiu-se muito orquídea? Por que uma das críticas que fazemos ao meio orquidófilo do Rio de Janeiro é a de que se pensa cada vez menos orquídea no Rio de Janeiro.

Marta: O Congresso Brasileiro de Botânica de João Pessoa quase não tinha nada sobre orquídeas.
Além do Fábio de Barros, de São Paulo, que deu um panorama do que é a pesquisa de orquídeas, hoje no Brasil, não tinha mais nada. É uma coisa impressionante, uma família gigantesca, o Jardim Botânico do Rio de Janeiro não tem um especialista em orquídea, não sei, é algum fenômeno, não é só da OrquidaRio, tem alguma coisa aí. Tem que botar as cabeças para pensar para entender o que está acontecendo.



ON: Não, claro que não é só da OrquidaRio... A coisa é geral. Este congresso foi bem divulgado?

Marta: No mundo da botânica sim, todo mundo vai. O estudante de botânica vai. O Presidente da Fundação Margareth Mee estava lá.


ON: E como funciona o intercâmbio entre os jardim botânicos. Qual a relação do Jardim Botânico RJ com os outros jardins botânicos do mundo? Existe ou não?

Marta: Existe e sempre existiu, principalmente na área de pesquisa. Geralmente um jardim botânico está associado a uma instituição de pesquisa que possui um herbário (coleção de plantas secas) que é a base do estudo botânico. A troca destas plantas, na forma de doações de duplicatas ou empréstimo de typus , é uma prática mundial que enriquece e mantém vivo o acervo das instituições, além de ser a memória do acervo botânico do planeta. Como vocês sabem, naturalistas e botânicos vindos com os colonizadores levaram nossas plantas e em seus países de origem as cultivaram, estudaram e nomearam. Por isso, muitos typus, ie. a planta que serviu de base para a descrição de uma espécie, estão depositados em herbários estrangeiros. Em planta viva é que eu não vejo muito acontecer, já fica mais difícil o intercâmbio e eu não tenho conhecimento dos mecanismos e do grau de intercâmbio que existe entre os jardins botânicos, principalmente desde a Rio 92 quando foi levantada a necessidade de preservar a biodiversidade, os países têm seguido a Convenção da Biodiversidade que traçou a política e reserva de germoplasma de cada país. Os jardins botânicos tiveram que se unir e junto com o BGCI - Botanic Gardens Conservation International, produzir os dados básicos para se pensar esta convenção.
Foi criada a Rede Nacional de Jardins Botânicos que atualmente é presidida pelo Dr. Sergio Bruni, presidente do "Instituto de Pesquisas Jardim Botânico do Rio de Janeiro" (é o novo nome do JBRJ). A Rede junto com o JBRJ publicaram em português o "Manual Técnico Darwin para Jardins Botânicos" e "Normas Internacionais de Conservação para Jardins Botânicos" elaborados pelo BGCI. Com as políticas traçadas, a Rede tem trabalhado na criação de novos Jardins Botânicos no Brasil, de preferência um em cada Estado. O presidente da Rede faz parte do conselho da Rede Latino-Americana de Jardins Botânicos e tem trabalhado com a Rede Ibero Macaronésica de Jardins Botânicos. Ele chegou esta semana da China, onde esteve a convite do JB de Pequim. Está realmente acontecendo uma união de Jardins Botânicos através destas Redes e o Dr. Sérgio tem sido um grande incentivador. Há dois meses ela promoveu no Solar da Imperatriz , hoje Escola Nacional de Botânica Tropical, um curso para funcionários de Jardins Botânicos de todo o Brasil, que eu fui convidada a participar. O principal palestrante foi o Dr. Prance que foi diretor de Kew Gardens por muitos anos e hoje dirige o JB do Havaí. Ele trouxe uma enorme quantidade de informação de todos estes anos de experiência, com um grande entusiasmo. Outra palestrante foi a Diretora do JB da Ilha da Madeira, que é a Presidente da Rede Ibero Macaronésica. Tivemos participantes de todo o Brasil que trouxeram suas experiências, dificuldades e realizações. Foram cinco dias de trocas e muito incentivo para os que já estão implantados superarem seus problemas e para os que pretendem enfrentar o desafio da criação de novos Jardins Botânicos. Dos Jardins Botânicos presentes o único que tem orquidário é o de São Paulo. Conversei com a Diretora e com o Fábio de Barros, especialista em Orchidaceae e ficamos de trocar visitas. Com as políticas traçadas, a Rede tem trabalhado na criação de novos Jardins Botânicos no Brasil, de preferência um em cada Estado



ON: O que é muito pouco ainda.

Marta: Pouquíssimo, pouquíssimo. Mas, mesmo assim, eu vi neste seminário, neste curso, um cara dizendo: "Estou preocupadíssimo, pois se é um por estado, são quantos estados? Vai coletar planta para isto tudo? Vai coletar este monte de planta para cada orquidário, vai abalar um bocado".


ON: Existe este intercâmbio de conhecimento entre os institutos do Governo Federal, da iniciativa privada e dos jardins botânicos? Isto rola normal, sempre, o fluxo é contínuo?

Marta: Rola. Agora estamos informatizando a coleção e com isto esperamos facilitar a troca de informação.


ON: Quem está retendo este conhecimento? Isto está sendo conservado como?

Marta: Isto é investigação científica. Cada pesquisador tem a obrigação de publicar tantos artigos. Tem a revista Rodriguezia aqui, tem outras revistas que tratam exatamente disto.


ON: E as revistas também têm intercâmbio?

Marta: Total.


ON: Como estes conhecimentos ficam preservados?

Marta: Como normalmente acontece numa instituição científica. Aqui tem uma comissão de editoração que analisa os artigos e os pesquisadores são obrigados a ter uma produção científica, senão não ganham bolsa. Todo pesquisador complementa o salário com bolsa do CNPq. Tem que ter um número de estagiário, tem que ter um número de publicações.


ON: Vocês aqui têm que ter isto?

Marta: Não, tem uma dicotomia aqui no Jardim entre Arboreto e Pesquisa. O Arboreto, como o nome diz, cuida do parque e a Pesquisa da pesquisa. Existe pouquíssimo entrosamento entre os dois. Já aconteceu ao longo da história do Jardim, na época do Barbosa Rodrigues, em que o Arboreto e a Pesquisa eram uma coisa só, mas é porque ele era uma coisa só. Na maior parte da história do Jardim isso não aconteceu . Cansei de ver pesquisadores que pesquisavam plantas que eles nunca tinham visto, ao vivo, no campo. Como eu sempre estive em projetos, viajando, coletando, eles pediam para trazer a planta. Você já sabia quem estudava o quê, aí você dizia: " Vou levar isto para fulano, isso para sicrano". É isto que um bom coletor faz normalmente, mas aí o fato da Pesquisa pesquisar a Mata Atlântica não quer dizer que estas plantas estejam sendo tratadas aqui no Arboreto também, entendeu? Agora, de uns poucos anos para cá, é que começou a ter uma ligação entre a Pesquisa e o Arboreto nesta parte de conservação, na parte de banco de sementes, eles estudam revegetação.


ON: Isto, em algum momento, vai para exibição no Jardim ou não?

Marta: Exibição, como?


ON: Serem plantadas aqui para que todo mundo possa ver.

Marta: Em geral, o excedente de semente vai para o horto. Lá na reserva do Mico Leão Dourado que é a maior, um grupo que estuda a revegetação ficou lá. Já acabou o estudo da Mata Atlântica, mas ficou uma equipe só fazendo reflorestamento. Continuou lá trabalhando.


ON: A gente vem aqui, vê no jornal da Sociedade de Amigos do Jardim Botânico a floração do mês e fica acompanhando, mas tem uma hora que a gente já conhece tudo e quer ver coisas novas. Como é feita esta reposição, já que tem esta pesquisa?

Marta: A transmissão de conhecimento é muito difícil, embora tenha um setor de educação ambiental aqui, ele ainda não dá conta de promover a transmissão de todo este conhecimento. Eu acho que a principal função do Jardim seria realmente gerar e transmitir conhecimento.



ON: : E com referência ao Orquidário, especificamente, como está o intercâmbio com as instituições?

Marta: Muito fraco. Até mesmo com o setor de pesquisa do Jardim Botânico, só recentemente é que começamos a participar das excursões para coletar. Temos ido a Macaé de Cima regularmente para herborizar as orquídeas de lá, a pedido do Programa Mata Atlântica do JBRJ. Há alguns anos temos a colaboração técnica do Orquidário Quinta do Lago e estamos participando do Grupo de Conservação da OrquidaRio, para aprender com eles a semear, mas também para dar uma força, simbólica é claro! Mas tenho conseguido ajudar o Grupo também.
O que eu tenho feito aqui é abrir as portas,de um modo geral:
Cursos da Malena e do Hélio Maurício, organizados pela Sociedade de Amigos do JBRJ, têm acontecido aqui,
O Paulo Ormindo e a Malena Barreto já têm uma prancheta na minha sala,
A OrquidaRio também é totalmente bem vinda aqui, tanto para as exposições como para usar nosso espaço para cursos ou reuniões (já foi oferecido),
Ganhei do David Miller uma capela de fluxo laminar, para a OrquidaRio ou para o JBRJ,
Consegui autorização para usar a lupa do Laboratório de Botânica Estrutural do JBRJ, para o Carlos Manuel preparar um trabalho sobre doenças das orquídeas.
Além de manter o local bonito e as plantas saudáveis (que é o meu compromisso com o patrocinador) e o Banco de dados atualizado (meu "dever" com o Jardim).
Meu anseio como botânica é abrir caminho para os jovens que se interessam por este universo que eu tanto amo. Depois de muito batalhar na tentativa de abrir espaço para estagiários oficiais, ie. com bolsa, remuneração e reconhecimento do trabalho, desisti e ocupei uma vaga de jardineiro com o Gabriel. Além dele, aceitei também a Melissa, que está terminando o curso de Biologia na Santa Úrsula e foi estagiária do orquidário bem no início de nossa gestão. Ela está interessada na parte de reprodução. Por hora ela vai ficar como "estagiária voluntária", sem ganhar nada e sem reconhecimento legal do estágio. Mas acho que vale a pena o esforço, tanto meu quanto dela. Ela também promete uma bela carreira. E ontem o Claudio me trouxe mais uma estagiária voluntária.
Todos os três com 24 anos e muito interesse, não é ótimo?
Se fizermos uma dobradinha, eu e Claudio, como eu queria ter feito com o Toscano, em que eu oriento a base do estudo da botânica, a organização da bibliografia, a coleta e a herborização, o banco de dados e o cultivo, e o Claudio orienta a taxonomia, florística, fitossociologia, espero que com estas cinco cabeças pensantes no orquidário possamos propor intrecâmbios com outras instituições.



ON: Vejo aqui algumas exsicatas indicado o Programa Mata Atlântica Petrobrás. Que programa é este?

Marta: Desde a Rio 92 com o grande alarde em torno do 'Meio Ambiente' ficou combinado que as instituições de pesquisa de cada Estado estudariam prioritariamente seu ecossistema mais representativo. O JBRJ deu prioridade ao estudo da Mata Atlântica, inicialmente financiado pela Shell e MacArthur Foundation, hoje pela Petrobras. A primeira área estudada foi Macaé de Cima. Como o David Miller já tinha levantado as espécies de orquídeas de lá e não havia tempo nem especialista na família para fazer o trabalho de herborizar e identificar a flora de Orchidaceae, a lista do David foi usada pelo Programa Mata Atlântica sem comprovação científica, isto é, sem o comprovante herborizado. Este é um dos trabalhos que estamos fazendo agora no Orquidário, coleta, herborização e identificação (com a ajuda de especialistas, é claro!) .


ON: Você ainda não completou este trabalho de Macaé de Cima?

Marta: Nada, na lista do David são 270 e estou com 74 espécies coletadas.


ON: Desde quando?

Marta: Desde agosto deste ano.


ON: Muito pouco tempo

Marta: Há também material coletado lá por outras pessoas, em outros momentos. Tem plantas identificadas pela Maria da Penha Fagnani, pelo Ruy Alves do Museu Nacional, pelo Toscano, pelo Carl Luer (dos Pleurothallis) que já esteve lá duas vezes, e recentemente pedi ajuda ao Carlos Eduardo com os Oncidum.


ON: Bom, voltando ao intercâmbio entre os Jardins Botânicos.

Marta: Esta troca sempre existiu, porque se eu quero estudar uma planta e quero saber a distribuição geográfica dela, eu vou começar a olhar nos herbários para poder conhecer os locais onde ela foi coletada, porque eu não vou conseguir coletar esta planta em toda sua área de distribuição. Então é através de herbário que se faz isto.


ON: Eles lhe mandam o material? que responsabilidade.

Marta: Mandam, realmente é a maior responsabilidade. Em geral, existe a troca de duplicata. Eu não estou fazendo isto aqui porque não tenho tempo nem quero ficar coletando em Macaé de Cima, tiro uma com o maior respeito mas o certo é coletar 2, 3 , 4 para ter duplicatas para poder mandar para os outros herbários pois se pega fogo no daqui, perde-se tudo. O herbário é a memória do que foi a natureza. O do Jardim Botânico tem 300.000 plantas. É um grande arquivo de plantas, tem planta de tudo quanto é lugar por causa desta troca. É a memória do que era a vegetação em alguns lugares que não existem mais. Tem planta que era de Copacabana, tem planta coletada em l800, é uma memória. Então esta troca entre jardins botânicos existe, sempre existiu na parte de pesquisa, mas parte de planta viva, só tinha aquela coisa de mandar uma planta, um ipê amarelo que é o representante de nossa flora para ser plantado por um presidente. O Jardim Botânico ainda não tem um planejamento, está começando. O primeiro plano de manejo está sendo elaborado agora, pelo Claudio Nicoletti.


ON: Isto é bom ou isto é ruim?

Marta: Eu acho que é legal.
 
Photo: Marta de Moraes
ON: Com referência ao Jardim, quer dizer que não há uma preocupação mercadológica, digamos assim, em relação ao público leigo? O máximo que se faz aqui para o público leigo é manter, na medida do possível, o Jardim limpo e os bancos livres de dejetos dos passarinhos?

Marta: É, porque o Jardim tem um carisma, um atrativo natural, uma visitação certa.

 

ON: Mas que ainda é pequena.

Marta: Um dos motivos pode ser a falta de estacionamento no final de semana com aquela fila gigantesca. É incompreensível porque é a mesma área de estacionamento desde 1808.
Como é que pode isto?



ON: Aquela área da frente onde tem o lago das tartarugas, com aquela grama, por que não faz um estacionamento ali, por exemplo?

Marta: Existe um projeto de fazer um grande estacionamento subterrâneo ali.


ON: Mas se vocês não tem dinheiro nem para consertar os vidros?

Marta: Você sabe que para obras grandiosas que aparecem é mais fácil conseguir recursos. Aquela área lá vai virar cultural, um projeto muito bom. O diretor tem mil idéias, é muito dinâmico. Não conseguiu para fazer o Herbário?


ON: É, mas aquele prédio abóbora é um horror. Tinha que ser pintado de outra cor, uma cor que o fizesse sumir.


Marta: Mas eu gosto, sabia? Vocês já foram na Escola de Botânica? Éa coisa mais linda.


ON: Mas agora com esta mudança de estatuto para fundação, para o orquidário isto traz algum benefício ou não? Ou só para Jardim Botânico?

Marta: : Eu não sei te responder.



ON: Voltando à questão do público leigo, o Jardim serve basicamente como área de lazer?

Marta: Totalmente, totalmente.


ON: Os outros jardins botânicos também são assim, usados como área de lazer?

Marta: São.


ON: Então ele está no padrão?

Marta: Está. Agora, quanto mais você apresenta, mostra, educa, ensina, a pessoa começa a gostar mais, quanto mais ela vai aprendendo. Então os outros jardins botânicos que existem lá fora... tem cada um que você se emociona, dá vontade de chorar de tão legal. Eu, como botânica, quando chego num jardinzinho botânico deste tamanho na Califórnia, mínimo mas tão bem representado, sabe, umas plantas que você acha que só iria ver no livro, você chega e vê aquilo ali, não acredita, dá um arrepio geral. Também tem gente que vai nestes lugares e não lê uma legenda, não quer nem saber, vai fazer um piquenique. Tem a área piquenique e pronto.


ON: Como deveria ter área de cobrar refrigerante, cobrar cerveja, etc. Não proponho uma catedral para admiração. Acho que tem que gerar muito grana, mas tem que reverter para a exposição da pesquisa ao público em geral. Acho que quanto mais a pessoa conhece, mais intimidade ela adquire, mais respeito ela tem pelo parque, continua sendo uma área de lazer, mas com uma outra visão.

Marta: Claro que seria possível.


ON: Enfim, qual o resumo que poderíamos fazer da atuação do Orquidário desde a inauguração até hoje?

Marta: O Orquidário tornou-se autosuficiente na produção de flores para exposição ao público.
No início tivemos a ajuda dos Orquidários Comerciais que nos emprestaram plantas para enfeitar a Estufa de Vidro.
Apesar das oscilações normais tivemos um número crescente de flores ao longo dos últimos anos:

1997
=
309
1998
=
699
1999
=
1079
2000
=
942
2001
=
790 (até Outubro)

- Com o auxílio do Patrocinador (Antônio Bernardo) temos uma autonomia de ação no cultivo, com mão de obra e insumos que garantem os procedimentos necessários ao cultivo e os bons resultados acima descritos.
- Através da consultoria técnica dada pela Quinta do Lago também melhoramos muito o desempenho no cultivo, desfazendo o mito de que "o Orquidário do Jardim Botânico é um matadouro de orquídeas".
- Com o Banco de Dados implantado há um ano, temos condição de monitorar a coleção e dar informações aos visitantes e pesquisadores com rapidez e precisão. Além da informatização, a organização da coleção através da numeração, fotos, flores em álcool e material herborizado, assegura a qualidade e a permanência da coleção para o futuro.
- O ingresso de estagiários e a troca de experiência e conhecimento com o Arboreto e a Pesquisa do Jardim Botânico estão possibilitando o enriquecimento da coleção estimulando o interesse de estudantes no estudo da família Orchidaceae.
- E finalmente estamos de portas abertas para Pesquisadores, Orquidófilos, Ilustradores Botânicos, Professores, enfim quem tiver interesse em consultar a bibliografia que dispomos ou desenvolver algum tipo de trabalho com nossas plantas, além de apreciá-las é claro.

ON: Algum pedido, algum apelo?

Marta: Eu queria que você desse um cunho, a esta materia, desta abertura. Estamos aqui a fim de receber as pessoas, mesmo os que acham que estamos matando plantas.

ON: Acho que ficou claro que da parte do Orquidário do Jardim Botânico, todos são muito bem vindos.

E o endereço do Jardim Botânico é: rua Jardim Botânico, 1008, Rio de Janeiro.
Tel - 021 22946012. E quem quiser falar com a Marta, seu e-mail é: mmoraes@jbrj.gov.br
.

Obrigado, Marta, pela entrevista.



Photo: Arquivo JBRJ / Archive JBRJ


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