Arte: Sergio Araujo



  Photo/Foto: Sergio Araujo Por mais inóspito que o ambiente pareça ser, o Pão de Açúcar, um dos mais conhecidos cartões postais do Rio de Janeiro, ainda é um habitat de orquídeas.
O mais surpreendente é a ocorrência de orquídeas como o Zygopetalum mackayi, espécie de um gênero considerado muito difícil de ser cultivado.
Olhando aquele habitat não se pode imaginar que ali ocorre esta espécie que, em outros habitats, desenvolve-se de forma terrestre e em ambiente de muita umidade, em campos altos, campinas úmidas, barrancas úmidas e
  terrenos arenosos das serras altas e matas litorâneas, desde o Espírito Santo, Minas Gerais até o Rio Grande do Sul.
A ocorrência de Bifrenaria harrisoniae também não deixa de ser muito curiosa, já que esperamos sempre encontrá-la nas matas da Serra do Mar, serras e matas ciliares dos rios de Minas Gerais, Espírito Santo e São Paulo em local de altitude, com muita umidade.
No entanto, é preciso dizer que há uma mata no sopé do Pão de Açúcar e a temperatura cai drasticamente à noite. Muitas vezes, em dias nublados, o cume do morro fica envolto em nuvens.

Dois levantamentos foram executados recentemente e, de um modo geral, as conclusões foram as mesmas. As diferenças encontradas referem-se à extensão da ocorrência das espécies nas diversas faces do morro e não invalidam nem um e nem outro trabalho.

 

De acordo com o levantamento realizado por Francisco E. L. de Miranda e Rogério Ribeiro de Oliveira, no início da década de 80, publicado nas Atas da Sociedade Botânica do Brasil, Secção Rio de Janeiro, onze espécies rupícolas da família Orchidaceae ocorrem do morro do Pão de Açúcar. São elas:

Bifrenaria harrisoniae (Hook.) Reich. f.  
Brassavola tuberculata Hook,  
Cyrtopodium andersonii R. Br. provavelmente o Cyrtopodium glutineferum Raddi já que, hoje em dia, reconhece-se que o verdadeiro andersoni não ocorre no Brasil, pelo meno não no sudeste.
Epidendrum denticulatum Barb. Rodr.  
Epidendrum robustum Cogn. Para alguns estudiosos como Guido Pabst e Maria da Penha Fagnani seria o Epidendrum ammophilum Barb. Rodr ou Epidendrum ammophilum var. Barb. Rodr cariocanum Brade & Pabst
Laelia lobata (Lind.) Veitch.  
Maxillaria acicularis Herbert ex Lindley  
Polystacha estrellensis Rchb. f.  
Prescottia plantaginea Lindley  
Sarcoglottis biflora (Vell.) Schltr.  
Zygopetalum mackayi Hook.  

  O trabalho aborda exclusivamente as orquídeas que ocorrem na própria rocha: as rupícolas (vegetando sobre as rochas) e as saxícolas (vegetam nos detritos depositados nas fendas das rochas). Outras espécies ocorrem nas matas vizinhas de hábito terrestre ou dendrícolas que não foram abordadas como, por exemplo, a Vanilla que ocorre no morro da Urca e que pode ser vista no caminho Cláudio Coutinho que bordeja o mar colado ao morro do Pão de Açúcar.
Este trabalho foi realizado através de visitas mensais ao local para observação das plantas em seu próprio habitat e o material herborizado foi depositado no Herbário Alberto Castellanos (FEEMA).
  O morro do Pão de Açúcar eleva-se a 395m acima do mar, com solo extremamente ácido e suas paredes mais íngremes (em torno de 90º) são as de face norte, oeste e sul, as faces leste e noroeste tem menor declividade (entre 45º e 60º).
  Photo/Foto: Sergio Araujo Foram estudadas todas as faces do morro e eles concluíram que a face sul é a que propicia melhores condições para o estabelecimento das orquídeas pois apresenta menor insolação e, em alguns meses do ano, não recebe sequer a luz solar.
Possui maior retenção de umidade no solo, alta declividade e muita umidade atmosférica fornecida pelos ventos.
Em suas pesquisas constataram a ocorrência de 9 espécies nesta face, não localizando apenas a Laelia lobata e o Cyrtopodium dito andersonni.
A face oeste, virada para o morro da Urca, é também bastante rica.
A face norte é a que recebe mais luz solar e é onde
  ocorre a Polystachya estrellensis e a Brassavola tuberculata que , assim como na pedra do Leme (abordada em nosso número anterior), aparece junto com cactáceas do gênero Rhipsalis e da bromiliaceae Vriesea brassicoides.
A face leste, que recebe o sol da manhã e luminosidade intensa o dia todo, tem um paredão menos íngreme permitindo maior fixação do solo e conseqüentemente apresents uma vegetação mais desenvolvida. Nesta face, ocorrem o Cyrtopodium dito andersonni e o Epidendrum denticulatum.
É interessante notar que foi encontrado apenas um espécime de Laelia lobata, levando Francisco Miranda a ficar na dúvida se a colonização desta espécie no Pão de Açúcar está começando ou está acabando.

Floração constatada no levantamento:
Meses
Jan
Fev
Mar
Abr
Mai
Jun
Jul
Ago
Set
Out
Nov
Dez
Bif. harrisoniae
x
 
 
 
 
 
 
 
 
x
x
x
Bra. tuberculata
 
 
 
 
x
x
x
x
 
 
 
 
Cyrt. andersonii
 
 
 
 
 
 
 
x
x
 
 
 
Epi. denticulatum
x
x
x
x
x
x
x
x
x
x
x
x
Epi. robustum
 
  
 
x
x
x
x
x
 
 
 
 
Laelia lobata
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
x
 
Max. acicularis
x
x
x
x
x
 
 
 
 
 
 
 
Poly. estrellensis
x
x
x
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Pres. plantaginea
 
 
 
 
 
 
x
x
x
 
 
 
Sarc. biflora
x
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
x
Zyg. mackayi                        
X = maior intensidade de floração


 




Em seu trabalho denominado "Orquídeas do Estado da Guanabara" (atual cidade do Rio de Janeiro) e publicado na revista Orquídea, em l966, Guido F. J. Pabst relaciona diversas plantas que ocorrem no conjunto formado pelo morro do Pão de Açúcar, Pedra da Urca e Praia Vermelha. Naturalmente, o fato dele não citar determinada espécie não quer dizer que ela não ocorra, significa apenas que ele não coletou ou não encontrou citação na literatura.
Observa-se que, ao falar da ocorrência da Laelia lobata, não cita o Pão de Açúcar, apenas a Pedra da Gávea (830m de altitude), Pedra Bonita e Pedra Itaipu, levando-nos a crer que ele não pesquisou os paredões do Pão de Açúcar ou pesquisou e não a encontrou. Fato que não ajuda a esclarecer a dúvida levantada por Francisco Miranda.

Espécies citadas por G.F. Pabst:
Espécies
Ocorrência
Bifrenaria harrrisoniae (Hook.) Rchb. f. Praia Vermelha
Brassavola tuberculata Hook. Pão de Açúcar, Praia Vermelha e Pedra da Urca
Eltroplectris calcarata (Sw.) Garay & Sweet (sinônimo Centrogenium setaceum (Lindl.) Schltr.) Pedra da Urca e Praia Vermelha
Epidendrum ammophilum Barb. Rodr. Praia Vermelha e Pedra da Urca
Epidendrum ammophilum Barb. Rodr. var. cariocanum Brade & Pabst.
Praia Vermelha e Pedra da Urca
Epidendrum denticulatum Rodr. Praia Vermelha
Habenaria leptoceras Hook Praia Vermelha e Pedra da Urca,
Maxillaria funerea Lindl. Praia Vermelha

Prescottia montana Barb. Rodr.

Pão de Açúcar
Prescottia plantaginea Lindl Praia Vermelha e Pedra da Urca


  Comparando os dois trabalhos, concluímos que das 11 espécies levantadas, 5 foram também encontradas por Pabst ou examinadas através de material já coletado anteriormente, que são:
Bifrenaria harrisoniae Praia Vermelha
Brassavola tuberculata Pão de Açúcar, Praia Vermelha
Epidendrum denticulatum Praia Vermelha
Prescottia plantaginea Praia Vermelha, Pedra da Urca
Epidendrum robustum, que aparece como Epi. ammophilum Barb. Rodr.
e como Epi. ammophilum Barb. Rodr. var. cariocanum Brade & Pabst.
Praia Vermelha

  As outras 6 espécies citadas no trabalho anterior, Laelia lobata , Maxillaria acicularis, Polystachia estrellensis, Zygopetalum mackay, Sarcoglottis biflora e Cyrtopodium glutinniferum não foram mencionadas por Pabst nem para o Pão de Açúcar, nem pra o Morro da Urca e nem para a Praia Vermelha.
As únicas espécies citadas para o Pão de Açúcar a Brassavola tuberculata e a Prescottia montana. Há também a citação de Eltroplectris calcarata (como Centrogenium setaceum).

Constatamos a ocorrência de Vanilla, no Caminho Cláudio Coutinho que margeia o sopé dos morros da Urca e Pão de Açúcar.
Supomos tratar-se de Vanilla chamissonis Kl em razão da aparência de suas folhas e pelo fato de ser a de ocorrência mais comum na cidade do Rio de Janeiro.

Photo/Foto: Sergio Araujo
Caminho Cláudio Coutinho

 

Ronaldo L. Pangella realizou uma pesquisa no Pão de Açúcar no período de junho de 1993 a novembro de 1995 com o objetivo de ilustrar as orquídeas rupícolas. Ele teve como ponto de partida o trabalho de Francisco Miranda e Rogério Oliveira e, além da confirmação daqueles dados, obteve também outros resultados em sua procura. Vencendo o calor e a dificuldade das escaladas, ele examinou todas as faces do morro levando em sua mochila seu material de desenho para realizar seus esboços e medições. No meio do caminho, parava, retirava o bloco e iniciava suas medições, seus esboços para o estudo de cores, levando, às vezes, hora e meia para concluir. Estes estudos foram terminados posteriormente com a ajuda de fotos tiradas no local. Tudo isto, segundo ele, procurando manter seu equilíbrio emocional em níveis normais, já que a excitação de encontrar as plantas floridas era muito grande e era esta excitação driblava o cansaço, a sede, o sol e calor. Com o tempo, passou a ousar mais e foi saindo literalmente das vias de escaladas e tornando suas escaladas mais perigosas.



Photo/Foto: Cristina Pangella


 
Foi na face leste (virada para a Baia de Guanabara), que Pangella encontrou a primeira orquídea, um Epidendrum denticulatum.Ele observou que esta espécie é muito comum neste local

Ilustração: R. Pangella ilustração de Pangella e também na face sul, ocorrendo principalmente no terço inferior do morro, em locais menos inclinados, preferindo as bordas das comunidades de Velloziacea, Gesneriacceae, Melastomastaceae e Gramineae onde há maior insolação, chegando a surgir na rocha nua. Floresce o ano todo com pico de floração de novembro a fevereiro (final da primavera até meados do verão). De porte muito variável (desde alguns centímetros), frutifica com muita facilidade e também apresenta muitos keikis desenvolvidos em suas hastes florais.
A planta aqui ilustrada foi pesquisada na face leste, a 210 metros de altitude.
Photo/Foto: Cristina Pangella
Epidendrum denticulatum
  No topo do morro, perto de uma colônia de Bifrenaria harrisoniae, há uma frondosa árvore onde
 
Photo/Foto: Cristina Pangella

Photo/Foto: Cristina Pangella
  Pangella encontrou Prostechaea vespa (Anacheillum vespum, Encyclia vespa) que foi identificada posteriormente por Francisco Miranda.
 
Photo/Foto: Cristina Pangella
Prostechaea vespa
  Este espécie aparece novamente na face oeste, só que aí vegeta sobre a rocha. Além destas espécies, ocorre também a Brassavola tuberculata


   
 
A face sul (Praia Vermelha,
lado da pista Cláudio Coutinho)
possui graus de dificuldades variados
e tem mais de oito diferentes vias de escaladas.
Photo/Foto: Sergio Araujo
  Bem protegida do sol, é a

mais úmida e ali ocorre o

Zygopetalum mackayi Hook

incrustado na rocha em

pequenas fendas, cercado

por todos os lados por seu

maior inimigo, o capim

colonião (Panicum

maximum
Jacq.) predador

quase natural das

orquídeas, bromélias e

cactáceas.
Photo/Foto: Cristina Pangella Ilustração: R. Pangella

  Uma colônia de Epidendrum que Pangella acreditou ser robustum e depois corrigiu para Epidendrum amophylum convive entre Velloziaceaea e Bromeliáceas ou vegeta diretamente sobre a pedra com seus compridos e robustos caules secundários. Por ser mais um local mais sombrio, esta espécie desenvolveu uma cor verde escuro oliva, formando um contraste com o verde suave de suas pétalas e sépalas. Floresce de abril a agosto. No decorrer de sua pesquisa, durante 5 meses, em todos os finais de semana, Pangella voltou pacientemente ao local, aguardando o desabrochar das flores.
Ele se sentiu presenteado com a visão de colônias de Epidendrum denticulatum e Epidendrum ammophilum vizinhos a Polystachya estrellensis.
Em paredão não muito íngreme, em local de pouca insolação, ele deparou-se com a Maxillaria acicularis Herbert ex Lindl. Uma grande quantidade de colônias espalhava-se por mais de 300 metros ao longo da rocha, associadas às Bromélias, gramíneas e também à Brassavola tuberculata.
 
Photo/Foto: Cristina Pangella
  As colônias de Bifrenaria harrisoniae estão espalhadas por todo o paredão e o mais fascinante desta espécie é a tonalidade de amarelo suave, com matiz de verde e verde-oliva. Muito comum nas faces sul, oeste e leste, em todas as altitudes da pedra, geralmente nas paredes mais inclinadas, especialmente nesta face. Habita preferencialmente locais com pedra exposta ou bordas de touceiras de Velloziaceae, raro em locais com maior vegetação associada. Flores muito fragrantes, de colorido variável, aparecendo de outubro a janeiro.
 
Photo/Foto: Cristina Pangella

Apesar da literatura não indicar a ocorrência de Laelia lobata e Cyrtopodium dito andersonni nesta face, em parte justificado pela falta de insolação e umidade constante, Pangella localizou ambas as espécies e observa alguns pontos interessantes com relação aos espécimes de Cyrtopodium dito andersonni que aparecem neste local e que ocorrem na face leste. Seus pseudobulbos são muito mais vigorosos e suas folhas apresentam uma exuberância saudável e perfeita. As flores são um pouco maiores e o amarelo é mais intenso. As pétalas e sépalas são arqueadas para traz. Os da face leste florescem antes dos da face sul.

  A Laelia lobata encontrada no Pão de Açúcar, com seu

colorido quase violáceo, difere das encontradas na Pedra

da Gávea que possuem colorido mais suave e até mesmo

alba.

Suas pétalas e sépala apresentam finas estrias.

É deste local, a Laelia lobata que serviu de modelo

para a ilustração aqui apresentada.

Ao constatar a presença de três espécies das onze listadas

no trabalho de Francisco Miranda e Rogério, ele

denominou esta face de "SANTUÁRIO", mal sabendo que,

no futuro, encontraria mais sete das pesquisadas por

Francisco e Rogério, incluindo Brassavola tuberculata e

excluindo apenas Sarcoglottis biflora, não localizada.
Ilustração: R. Pangella


     
  Photo/Foto: Sergio Araujo   A face oeste (de frente para o Morro da Urca) é a mais exposta e o vento é quase constante e lateral. Pangella chama a atenção para o fato de estar dividida em duas inclinações perfeitamente visíveis. A inferior é bem mais íngreme, quase com 90 graus de inclinação, onde é possível encontrar raros exemplares de Brassavola tuberculata. Quando o ângulo de inclinação suaviza, existe uma pequena caverna onde é possível até sentar para um merecido descanso e admirar, simultaneamente, as praias de Botafogo, Urca e Vermelha. Neste local, ele encontrou também belos exemplares de Cephalocereus fluminensis (Cactácea), Clusia sp, (Guttiferae) vulgo cebola-da-mata e Tillandsia araujei
  (Bromeliaceae) e uma pequena colônia de Laelia lobata, a mesma localizada anteriormente por Francisco e Rogério.
Esta colônia chamou sua atenção por uma fragilidade jamais encontrada pois a Laelia lobata, assim como quaisquer outras espécies próximas, normalmente apresenta pseudobulbos eretos com uma aparência mais robusta. Todos os pseudobulbos estavam enrugados, retorcidos e amarelados. Suas raízes não eram claras, como nas novas plantas e suas folhas eram pequenas e planas, a colônia não passava de 30 centímetros. Está totalmente exposta ao Sol no período da tarde e não floresce há mais de 15 anos.
A Bifrenaria harrisoniae foi considerada a mais perigosa espécie a ser ilustrada, fixada em um pequeno platô de veio de quartzo a quase 300 metros de altitude.
Além do Epidendrum denticulatum, foi encontrada uma outra colônia de Zygopetalum mackayi e a Prostecheae vespa ocorrendo diretamente sobre a rocha.

   
  Photo/Foto: Cristina Pangella A face norte não foi pesquisada por
Pangella, pois não localizou nada
representativo, a não ser pequenas
colônias de Brassavola tuberculata.






Créditos:

Ronaldo L. Pangella é artista plástico e ilustrador botânico
Cristina Pangella (fotos do levantamento do Pangella)
Tel.: l(22) 9835-9405
E-mail : rlpangella@ig.com.br


Ilustração da Laelia Lobata - Ronaldo Pangella
The Art Emporium
Web site: http://www.theartemporium.com.ca


Francisco E. L. Miranda é botânico, taxonomista, especialista em orquídeas e proprietário do Orquidário "Miranda Orchids"
Web site: http://mirandaorchids.com
Tel.: 863 422-9398
E-mail: fmiranda@worldnet.att.com

Rogério Oliveira é botânico e alpinista - Centro de Botânica Aplicada da FEEMA.

Guido J. F. Pabst, orquidólogo, escreveu mais de 100 trabalhos sobre orquídeas e o mais conhecido é o livro Orchidaceae Brasilienses Volumes I & 2 , junto Dr. F. Dungs.
Este livro é considerada a bíblia da família Orchidaceae brasileira.




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