Maria da Penha Fagnani

Médica formada pela antiga Faculdade Nacional de Medicina (hoje U.F.R.J.) em 1957.
Alguns anos antes de se aposentar, querendo expandir seu conhecimento sobre as orquídeas, cursou as principais matérias de Botânica na Universidade Santa Ursula, o que a ajudou na identificação e na compreensão de alguns aspectos da biologia destas plantas tão especiais.
Maria da Penha Fagnani não é apenas um
a exigente cultivadora de orquídeas, mas uma estudiosa
  Foto/Photo: Carlos Ivan Siqueira   da família Orchidaceae e muito tem acrescentado ao conhecimento das orquídeas do estado do Rio de Janeiro.
Minuciosa como todo cientista, sempre procura adequar o ambiente da melhor maneira possível para cultivar espécies que escolheu, buscando reproduzir o mais próximo possível o seu habitat. Nesta busca da perfeição, prefere cultivar um número menor de plantas e obter um índice elevado de sucesso e de realização do potencial de floração da cada planta.
Como pesquisadora, tem prestado valiosas colaborações através de suas pesquisas na identificação de espécies do estado do Rio de Janeiro e no conhecimento de seus habitats. Destacam-se os estudos da restinga da Massabamba e Rio Bananal (Guapimirim-RJ), ambos publicados na revista Orquidário, da OrquidaRio.
  O primeiro foi também apresentado na XV Conferência Mundial e publicado em seus Anais.
O segundo foi também objeto de Orchid News nº 2.
Na identificação de espécies de orquídeas, colabora com entidades como o Departamento de Botânica da Universidade Santa Úrsula e o Jardim Botânico.


  ON- Por que começou a cultivar orquídeas? Qual foi o momento mágico da atração?

MPF- Não houve um momento específico e sim um aumento progressivo de interesse, provocado principalmente pela possibilidade de cultivar e, ao mesmo tempo, de usufruir de outros aspectos ligados à orquidofília, como conhecer pessoas interessantes e a parte científica, por exemplo.


ON- Há quantos anos você cultiva orquídeas?

MPF- Por curiosidade e pela beleza há mais tempo, mas como orquidófila há dezesseis anos.

  ON- Onde você cultiva suas plantas ?

MPF- No terraço de meu apartamento em Botafogo, numa área de 30 m², no 8ºandar.
Muita luz e com sol a partir de 10:30h da manhã até o fim da tarde, bem ventilada, com vento forte às vezes.
As plantas são protegidas parcialmente por uma treliça, marquise e toldos.
No inverno as plantas ficam mais expostas à luz, sem o uso de toldos.
Foto/Photo: Carlos Ivan Siqueira
  Foto/Photo: Carlos Ivan Siqueira Tenho vista para o Corcovado, recebendo um pouco de umidade da mata próxima à montanha. Para melhorar as condições de cultivo tenho arvoretas plantadas em caixas, como: jaboticabeira, pitangueira e outras, que além de aumentar a umidade servem de suporte para orquídeas e bromélias. Entre as bromélias destaco a Tillandsia usneoides (barba de velho) que não acumula água e ocupa qualquer espaço, pendurada com suas guirlandas.

  ON- Quantas plantas você possui, aproximadamente?

MPF- Atualmente tenho menos de cem plantas. Já tive mais de duzentas, mas como tive necessidade de fazer uma obra no terraço doei ou perdi muita coisa. Estou recomeçando a adquirir ou aceitar novas plantas, sem excesso.

  ON- Quais as orquídeas que você mais cultiva?

MPF- Atualmente, fico com as que se adaptam ao meu microclima, como alguns Cyrtopodium, Cycnoches, Mormodes, Catasetum, alguns Dendrobium e outras.
Foto/Photo: Maria da Penha Fagnani
Cyrtopodium intermedium

  Foto/Photo: Maria da Penha Fagnani
Dendrobium smillieae
ON- Entre as orquídeas que você cultiva, existe alguma que seja a preferida?

MPF- No momento estou encantada com a resposta que obtive no meu cultivo de Dendrobium smillieae F. Muell.
Comprei da C. Miranda, uma planta pequena com poucos pseudo bulbos em 1997. A planta prosperou rapidamente e em setembro de 1999 floriu pela primeira vez. Na Exposição de Primavera de 2000 obteve um primeiro lugar e, para completar minha satisfação, foi capa do vol. 14, nº 3 da revista Orquidário.
É hoje um exemplar robusto que cultivo, sem muito trabalho, na luz plena, com proteção do sol da tarde, no verão.

  ON- Quais os gêneros brasileiros que você tem em sua coleção?

MPF- Anacheillum,
Brassavola, Brassia,
Catasetum, Cyrtopodium,
Cycnoches, Epidendrum,
Leptotes, Liparis,
Miltonia, Maxillaria,
Mormodes, Oncidium,
Pleurothallis, Sophronitis.



ON- Quanto tempo por dia você gasta cuidando de suas orquídeas?


MPF- Isto varia muito, dependendo da época do ano e do que preciso fazer. Como tenho poucas, gasto de meia até algumas horas com elas.
  Foto/Photo: Maria da Penha Fagnani
Cycnoches pentadactylum Foto/Photo: Maria da Penha Fagnani
Mormodes elegans
Foto/Photo: Maria da Penha Fagnani
Brassia lawrenciana
Foto/Photo: Maria da Penha Fagnani
Stenorrhynchus lanceolatum

  ON-Além daquela primeira atração, houve algum outro fator de influência na sua relação com as orquídeas? (pessoa ou fato)

MPF- Foi decisiva para afirmar minha relação com as orquídeas, a visita que fiz à exposição de Primavera de 1986, realizada no Rio Design Center, em setembro. Foi a primeira da OrquidaRio e lá conheci pessoas como Roberto Agnes e Hans Frank. Foi então que me associei à OrquidaRio e passei a freqüentar as reuniões, onde nas palestras, ou simplesmente conversando com pessoas como Alexis Sauer, Waldemar Scheliga, Francisco Miranda e outros, fui aprendendo como cultivar e muito mais sobre orquídeas.

  Foto/Photo: Maria da Penha Fagnani ON- Quais são as condições climáticas encontradas em seu ambiente de cultivo?

MPF- No verão, máxima de 36º; no inverno, mínima de 18º; muita luz o dia todo e sol, principalmente, à tarde. Assoalho de cerâmica e parede revestida de pastilhas, o que, juntamente com o vento forte ocasional, torna a umidade natural deficiente, mas o uso de alguns recursos, que já descrevi, torna possível o cultivo.


  ON- Você teria alguma dica de cultivo sua que quisesse compartilhar conosco?

MPF- Fez muita diferença para meu cultivo o uso de mesas feitas com ripas de madeira com rodízios, o que facilita a manutenção do assoalho e o deslocamento das plantas para acompanhar a incidência do sol segundo as estações. Muito importante também foi aprender a controlar a vontade de ter mais plantas do que meu espaço e minhas condições de cultivo permitem, isto incluindo saber quando se desfazer das que estão doentes, com virus , por exemplo.


  ON- Existe alguma historia ou caso interessante ligado à sua relação com as orquídeas?

  MPF- Um dos meus Cyrtopodium paranaense estava bem florido e exalando um perfume intenso pela manhã. Ao sair de casa para ir ao banco parei para admirá-lo e quando estava na fila do caixa comecei a sentir, como se estivesse junto a mim, o perfume adocicado e ligeiramente ácido das flores e a planta não saia da minha cabeça, como se estivesse me chamando. Voltei do banco para casa e fui direta para ver a planta: um fio de "pipa" estava enrolado nas hastes florais e iria quebrá-las. Desenrolei o fio e senti que a planta me agradeceu.
Foto/Photo: Maria da Penha Fagnani
Cyrtopodium paranaense


  ON- Diz-se que a orquidofilia é uma manifestação branda de loucura. Você já fez alguma loucura orquidófila?

MPF- Algumas vezes a ansiedade de encontrar orquídeas no seu habitat, para registrar a ocorrência e estudá-las, me colocou em situação de risco. A pior situação foi quando, para fugir de abelhas, entramos num rio em Lumiar, no município de Friburgo,R.J. Lá, os rios muitas vezes têm corredeiras e uma delas me arrastou. Consegui me agarrar numa pedra e só sai com a ajuda de moradores locais, com o joelho machucado. Além disso, cometi a loucura comum de gastar mais do que podia com plantas, às vezes inadequadas, às minhas condições de cultivo, como Sophronitis coccinea, por exemplo.

  Créditos:
Fotos de Maria da Penha: Carlos Ivan Siqueira
Fotos das plantas : Maria da Penha Fagnani

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