INTRODUÇÃO

  Dada às suas dimensões continentais, o Brasil possui, e não poderia ser diferente, uma grande diversidade de ecossistemas. Nenhum deles é homogêneo e todos se subdividem em diversos micro-sistemas, cada um com sua característica própria. Muitas vezes são tão próximos uns dos outros ou ocorrem uns dentro dos outros, que se torna difícil a sua separação ou até mesmo a sua classificação, além disso existem as áreas de transição.
O mais conhecido e o mais rico é a Mata Atlântica, mas, além dele temos a Floresta Amazônica; o Cerrado (Savana) localizado no Planalto Central onde aparecem também os chamados campos de altitude; a Caatinga; a Mata dos Pinhais ou Floresta de Araucária (considerada como uma continuação da Mata Atlântica); o Pantanal; os Manguezais; os Brejos, as Restingas e outros.
O trabalho aqui apresentado não é exaustivo e, para não se tornar muito extenso, ficou limitado à uma abordagem dos ecossistemas e habitats mais ricos ou interessantes, embora existam outros que merecessem também uma abordagem, como as belíssimas chapadas tais como dos Veadeiros (onde ocorre a Encyclia chapadensis), dos Guimarães e Parecis.
Em maior ou menor intensidade, a presença da orquídea é sempre uma constante e é na Mata Atlântica que ocorre a maior parte das espécies brasileiras desta família. Só no Espírito Santo, concentram-se mais de 600 espécies de orquídeas.
Em função desta diversidade, quando queremos cultivar gêneros e espécies de orquídeas brasileiras, é preciso que conheçamos um pouco do habitat daquelas que escolhemos, pois as condições climáticas são realmente muito díspares e não é suficiente saber qual a localização geográfica de seu ecossistema como um todo, é preciso conhecer os pormenores de seu micro-ecossistema. A temperatura, umidade ambiental-chuva, neblina e nevoeiro, ventilação, luminosidade, mudam muito mesmo dentro do mesmo habitat e as condições encontradas por orquídeas que vegetam no topo das árvores não são as mesmas encontradas por aquelas que vegetam na parte baixa da mesma árvore ou no solo junto à ela.
Algumas orquídeas provenientes da Amazônia gostam de excesso de umidade chegando a ficar submersas por semanas durante o período das inundações (Acacallis cyanea, Galeandra devoniana, por exemplo), outras não resistem a este excesso. Outras, originárias do Cerrado, gostam de uma alternância estacional drástica de seca e chuva (como a Cattleya nobilior, as espécies terrestres de Cyrtopodium que até se beneficiam com os incêndios anuais), outras provenientes desta mesma área, mas ocorrendo nas matas ciliares precisam de mais umidade. Algumas exigem choque térmico diário (espécies que vegetam em lugares onde a temperatura chega a cair mais de 30º C do dia para noite), outras dependem do binômio temperatura mais baixa no inverno, com um período de repouso menos drástico e mais umidade no verão, outras de muita umidade, menos luz e frio no inverno (espécies da Floresta Atlântica), outras de muita luz, vento, calor diurno e frio noturno com sereno (espécies rupícolas dos campos de altitude).
 
Brassavola tuberculata (foto:FM)
Certas plantas tanto vegetam diretamente expostas aos raios de sol, sobre a pedra como Bifrenaria harrisoniae, Laelia lobata, Brassavola tuberculata, Epidendrum denticulatum, robustum, quanto vegetam como epífitas sobre as árvores.
Enfim, as variantes são enormes e conhecer um pouco destes habitats nos permite adequar um pouco melhor o ambiente de cultivo e quanto mais conseguimos nos aproximar das condições naturais, mais sucesso podemos esperar nas florações de nossas plantas. Mas, de toda maneira, não devemos esquecer que jamais teremos as mesmíssimas condições, assim sendo, uma
  planta que, na natureza, vegeta em pleno sol, às vezes até diretamente sobre rochas, beneficiada pelo vento constante, retirada do seu habitat, confinada num vaso, não resistirá se mantida sob esta condição específica. Se na natureza, ela vegeta em determinada condição, ela levou uma eternidade para se adaptar, para chegar a este estágio e esta condição não é isolada, existem outras interagindo em equilíbrio quase perfeito, permitindo assim sua sobrevivência. Então, em cultivo, é preciso compensar de algum modo a ausência destas condições procurando equilibrar todos os elementos imprescindíveis: Luminosidade, umidade ambiental, rega, ventilação, nutrientes e temperatura.

 

MATA ATLÂNTICA

A Mata Atlântica é segunda maior floresta da América do Sul, vindo logo após a Floresta Amazônica.
Primitivamente, ia do Rio Grande do Norte até o Rio Grande do Sul, estando presente em 17 Estados brasileiros, acompanhando a costa. Está situada próxima ao Oceano Atlântico, principalmente em áreas montanhosas, que vão de 800m a 1.700m de altitude (Serra do Mar, Serra Geral, Serra da Mantiqueira e Serra dos Órgãos). Calcula-se, de acordo com dados da Fundação SOS Mata Atlântica, que a mata remanescente esteja em torno 5 a 8% da mata existente na época do descobrimento do Brasil, ou seja cerca de 100 mil km² . Alguns estados foram mais castigados em termos de devastação, outros, um pouco mais preservados.

 
Foto/Photo: Sergio Araujo
Paisagem comum durante a primavera e verão (época das chuvas),
com nuvens e neblina envolvendo o topo, em
região montanha
a 1.600m de altitude. (foto:SA)
Possui praticamente apenas duas estações, a estação das chuvas (primavera e verão) com a temperatura mais elevada e a estação das secas (outono e inverno) com a temperatura mais baixa embora se possa perceber também as duas outras estações de transição.
A temperatura média não é uniforme em toda a sua extensão, na parte pertencente ao nordeste é mais elevada do que a do sul e do sudeste e em algumas partes, a temperatura mínima pode atingir patamares bem baixos, até -6º C (até menos) e em outros lugares, a máxima atinge 35ºC.
  Neste tipo de ecossistema, são muitos comuns os cursos de água, assim além da umidade da névoa que toda noite vem do mar, ainda se tem a umidade provocada por estes cursos. "... este sistema é muito úmido daí a grande dificuldades em cultivar as orquídeas dele originárias, especialmente os Oncidiuns porque elas são habituadas à névoa da noite, que não só ajuda a baixar a temperatura, que é uma coisa de que precisam muito, como provê também a umidade necessária ao seu desenvolvimento. O maior inimigo da orquídea é o excesso de água, embora essas orquídeas da Mata Atlâtinca estejam num ambiente muito úmido, elas estão na casca da árvore que seca muito depressa. A chuva escorre, vem o sol e seca aquilo tudo. Mas se você deixar a planta num lugar muito protegido em vaso ou debaixo de uma folhagem muito densa, não vai secar. Então a raiz apodrece e mata a planta." (Palestra de Carlos Eduardo de Britto Pereira, sobre habitats de orquídeas no Brasil, Jardim Botânico, setembro 2002).

Tronco com musgo e Phymatidium em
ambiente de muita umidade (foto:FM)
 
  As árvores da Mata Atlântica são altas e alcançam 30, ou até 40 metros de altura , sobressaindo-se no dossel e permitindo a presença de uma flora rica e diversificada e a umidade ambiental favorece a presença das epífitas, sobretudo orquídeas e bromélias. Em muitos casos, existe uma vegetação subjacente muito rica, caracterizada por arbustos e plantas que requerem muita umidade.
Berço da maior parte das espécies Cattleya, Laelia (de flores grandes), Sophronitis, Miltonia, Oncidium, Maxillaria, mas também de uma quantidade enorme de Pleurothallis assim como Stelis e Ornithocephalus, possui gêneros e espécies de flores grandes e muito pequenas, as chamadas micro-orquídeas. O grupo que apresenta um maior número de espécimens e é também o mais variado em número de espécies é o da sub-tribo das Pleurothallidinae (com os gêneros Pleurothallis - com mais de 100 espécies, , Stellis, Masdevallia, Barbosella, Octomeria). Muitos gêneros de grupos terrestres como Habenaria e gêneros da sub-tribo Spiranthinae, estão bem representados no interior da floresta como Cyclopogon, Hapalorchis, Pelexia, Erythrodes e Sarcoglottis, entre outros.
De acordo com a separação das quatro regiões climáticas ou quatro províncias ecológicas das orquídea (G. J. Pabst e F. Dungs, em Orchidaceae Brasilienses), a Serra do Mar, apresentando um clima temperado, está inserida na primeira província que contêm mais ou menos 60% dos gêneros e espécies existentes no Brasil.
Para entendermos um pouco melhor este habitat, transcrevemos o que diz Guido Pabst a respeito: " ... a Serra do Mar é caracterizada por cadeias de serras nas quais esbarra o ar quente e úmido que, ao subir pela serra, condensa-se no ar mais frio das alturas, transformando-se em neblina ou chuva. São estas as regiões de maior umidade atmosférica, a qual durante todo o ano se precipita em intensidade variável. A grande riqueza em orquídeas nesta região não é conseqüência unicamente da grande umidade atmosférica que ali reina, mas também, graças à que provém de outras regiões, ar estranho, portanto. Na Mata Atlântica, as orquídeas vegetam desde o chão, troncos baixos, meia altura, até o topo da árvore, procurando as melhores condições para vegetar...
...Os períodos úmidos são bem diferentes do que as regas que se costuma fazer nas culturas. Geralmente ocorrem à noite. A formação da neblina e de nuvens começa geralmente no fim do dia. Uma hora depois a floresta está toda encharcada. A brisa matinal, o ar mais seco do dia e os raios solares secam depois tudo rapidamente...
...As plantas provenientes de região de neblina apresentam-se em maior número de gêneros, espécies e variedades. As plantas individuais ficam mais viçosas, fortalecendo-se mais depressa...".

Mesmo dentro da Mata Atlântica, a ocorrência das orquídeas não é uniforme, pois embora possam ser encontradas desde o nível do mar até mais de 4000m, elas são mais freqüentes em altitudes situadas na faixa entre 500 e 2.000m. As matas situadas ao nível do mar ou um pouco acima, são relativamente pobres de espécies se comparadas com o número encontrado na faixa acima citada.

 
Foto/Photo: Sergio Araujo
Masdevalia discoides (foto:SA)
Foto/Photo: Sergio Araujo
Miltonia spectabilis (foto:SA)
Foto/Photo: Sergio Araujo
Maxillaria tenuiflora (foto:SA)
 
Foto/Photo: Sergio Araujo
Aspasia lunata (foto:SA)
Foto/Photo: Sergio Araujo
Laelia crispa (foto:SA)
Foto/Photo: Sergio Araujo
Cattleya bicolor (foto:SA)
  A lista de gêneros da família Orchidaceae é enorme e pode-se percorrer quase o alfabeto inteiro: Aspasia lunata, Baptistonia echinata, Barbosella, Bifrenaria aurea-fulva, atropurpurea, clavigera, harrisoniae, inodora, melanopoda, vitellina, Bulbophyllym sp, Campylocentrum sp, Capanemia superflua, thereziae, Catasetum macrocarpum, Cattleya bicolor, dormaniana, forbesii, harrisoniana, loddigesii, velutina, warneri, Cirrhaea sp, Cleistes sp, Comparettia coccinea, Dichaea sp, Dipteranthus grandiflorus, Dryadella sp., Elleanthus, Encyclia euosma, oncidioides, patens, Epidendrum addae, armeniacum, denticulatum, ecostatum, Gomesa barkeri, crispa, recurva, Gongora bufonia, Govenia utriculata, Habenaria, Isabelia virginalis, Laelia alaorii, cinnabarina, crispa, dayana, fidelensis, lobata, perrinii, virens, Leptotes bicolor, tenuis, Masdevallia infracta e outras espécies, Maxillaria rufescens e outras espécies, Octomeria robusta e outras espécies Miltonia cuneata, spectabilis e outras espécies, Notylia, Oncidium concolor, cornigerum, crispum, curtum, divaricatum, forbesi, gardneri, harrisonianum, lietzei, longipes, majevskyi, marshallianum, pabstii, pumilum (Lophiaris pumila), schunkianum, schwambachiae (Lophiaris) sphegiferum, Pabstia jugosa, modestior, schunkiana, triptera, viridis, Phymatidium, Pleurothallis,
  Promenaea guttata, ovatiloba, stapelioides, xanthina, Prosthechea inversa, kautskyi, vespa, Rodriguezia, Scuticaria, Sophronitella violacea, Sophronitis acuensis, coccinea, brevipedunculata, pygmaea, Stanhopea graveolens, Stelis sp, Zygopetalum brachypetalum, crinitum, intermedium, mackayi, maxillare, pedicellatum, Zygostates multiflora, entre outras (Lista obtida a partir do livro "Brazilian Orchids", Capítulo "Orchid's Map Over the Continent", de Francisco Miranda e "Orchidaceae Brasilienses",de G. J. Pabst e F. Dungs com nomenclatura atualizada). Foto/Photo: Sergio Araujo
Promenaea guttata (foto SA)
  "...Embora os chamados campos de altitude se localizem sobretudo na Serra Espinhanço, existe, na Mata Atlântica, um outro tipo, encontrado especialmente na região serrana. À medida que o morro vai subindo, a altura das árvores vai diminuindo, a vegetação vai modificando até que se chega a uma pedra e é em cima desta pedra que encontramos este campo.
Se reparamos bem as serras de Petrópolis, Friburgo, vemos a Mata Atlântica e por cima dela, a pedra com este campos de altitude com características bem diferentes daqueles encontrados em Minas
  Gerais onde predominam gramíneas e, nesse caso, a rocha é nua e as plantas se encontram nos lugares de decomposição das rochas. Encontramos um exemplo no bairro de Caxambu, em Petrópolis.
É como se fosse um vale todo circundado pela Mata Atlântica ainda virgem.
Subindo pelo mato, começa a transição para o campo de altitude, as árvores acabam e começa uma vegetação basicamente de gramíneas
..."
(Extaído da palestra de Carlos Eduardo de Britto Pereira, palestra sobre habitats brasileiros, no Jardim Botânico, em setembro 2002).

Foto/Photo: Sergio Araujo
Hapalorchis rhombiglossa - espécie terrestre (foto:SA)
   


continua



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