Claudio Nicoletti de Fraga

Instituto de Pesquisas Jardim Botânico do Rio de Janeiro
Programa Zona Costeira/Curadoria de Colecoes Vivas
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Jardim Botânico, Rio de Janeiro-RJ, Brasil
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Ludovic Jean Charles Kollmann

Museu de Biologia Prof. Mello Leitao
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Santa Teresa, Espírito Santo-ES, Brasil
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Photo/Foto: Claudio Nicoletti

  SUMÁRIO.
Myoxanthus ruschii
(Orchidaceae), uma nova espécie originária da Estação Biológica de Santa Lúcia, localizada na Mata Atlântica do Espírito Santo, é descrita e ilustrada. Esta nova espécie é próxima de Myoxanthus punctatus, Myoxanthus lonchophyllus e Myoxanthus seidelii, das quais difere por não ter pétalas clavadas e pela forma geral do labelo com a base sub-truncada com um par de lobos laterais curvados na ponta.
Palavras-chave: Myoxanthus, Orchidaceae, Mata Atlântica, Espírito Santo, Brasil.
Key words: Atlantic forest, Brasil, Espírito Santo, Myoxanthus, Orchidaceae.

  O lado oriental da Mata Atlântica costeira, embora se apresente atualmente bastante fragmentado, é um dos locais com maior biodiversidade no mundo (Myers et al., 2000). Um destes fragmentos com interesse especial é a Estação Biológica de Santa Lúcia, um sítio para pesquisas biológicas e conservação abrangendo aproximadamente 440 ha. de Mata Atlântica localizado no município de Santa Teresa, no Estado do Espírito Santo. Segundo recentes pesquisas sobre árvores, pássaros, mamíferos e borboletas, existe uma riqueza biológica extremamente grande nesta região, mesmo se comparada com outras áreas da própria Mata Atlântica (Mendes & Padovan, 2000). Como resultado do trabalho de campo nesta estação, encontramos uma nova espécie de orquídea que é descrita e ilustrada neste trabalho.
O gênero neotropical Myoxanthus Poepp. & Endl., muito tempo considerado como sinônimo de Pleurothallis, foi restabelecido por Luer (1982). Posteriormente, Luer (1992, 1997) apresentou uma revisão do gênero, constituído de 48 espécies e 3 subgêneros, Satyria Luer, Silenia Luer e Myoxanthus, com este subgênero compreendendo as seções Myoxanthus, Antennella Luer e Scandentia Luer.
Sete espécies foram citadas para o Brasil para o subgênero autônomo Myoxanthus: Quatro endêmicas para a Mata Atlântica oriental, duas para a região amazônica e uma com distribuição disjunta para o leste do Brasil e nordeste da América do Sul.


Figura 1.

Myoxanthus ruschii
Fraga & L. Kollmann,

NOVON 13: 49-51. 2003.

A. Hábito e inflorescência.
B. Flor.
C. Ovário, coluna e labelo, vista lateral na      posição normal.
D. Ovário e coluna, vistos debaixo.
E. Sépala dorsal.
F. Pétala, vista superior.
G. Pétala, vista inferior.
H. Sépala lateral, vista superior.
I. Labelo, vista inferior.
J. Labelo, vista superior.
K. Antera, vista superior.
L. Antera, vista inferior.
M. Polínea.

Desenhado a partir do espécime tipo. (C. N. Fraga, 780),  por C. N. Fraga.

  Species haec Myoxantho punctato, M. lonchophyllo et M. seideli affinis, sed floribus parvis successivis pedunculatis aggregatis, sepalo postico oblongo, sepalis lateralibus oblongis apice obtusis, petalis elliptico-ovatis, labellis trilobatis, et lobo antico elliptico-ovato, marginibus verrucosis, et lateralibus brevibus retrorsis differt.

  Planta epífita, caespitosa. Raízes grossas. Ramicaules de 14·21 3 0.15·0.2 cm, de ascendentes a eretos, robustos e envolvidos por 5 a 8 bainhas púrpuras, tubulares, híspidas e paleáceas. Folha de 8.5·13 3 2·3 cm, ereta, densamente coriácea, indo estreitamente elíptica a estreitamente abovalada, aguda, com a base inferior cuneiforme em sub-pecíolo. Inflorescência fasciculada de uma única flor, com flores sucessivas, no ápice do ramicaule, ocasionalmente com 2 flores simultâneas na antese, com pedúnculos púrpuras, de 7·9.5 mm de comprimento, recoberto por pequenos pelos purpúreos; brácteas florais de 3·5 3 2·2.5 mm de largura, expandidas, paleáceas e púrpuras pubescentes.
 

Flores ressupinadas; pedicelos de 2·3 mm de comprimento; ovário de 2·4 mm de comprimento; sépalas amarelas com pintas vermelhas, glabras, a sépala dorsal com 7·8 3 2.5·3 mm, oblonga, estreitamente sub-agudas, com 5 nervuras, as sépalas laterais com 7· 8 3 3·3.5 mm, conato na base, oblongo-abovalada, ápice arredondado, 4 (·6) nervuras; pétalas com 7·8 3 2·2.5 mm, amarelas com pintas vermelhas, glabras, estreitamente elíptico-abovaladas, obtusas, com margens revolutas no ápice, com 3 nervuras; labelo com 5·6 3 2·2.5 mm, vermelho com base amarela, não curvado, glabro, o lobo apical elíptico, obtuso, um tanto verrugoso com margens revolutas, grosso, a metade inferior com margens eretas, rebaixadas e arredondadas, o disco com uma área larga, lisa, ligeiramente côncava, a base sub-truncada, com um par de diminutos lobos laterais curvados no final, com 3 nervuras; coluna de 1·1.5 3 0.5 mm, amarela, salpicada de vermelho, fortemente encurvada, com 3 mm de comprimento, com asas arredondas acima da metade, pé da coluna proeminente, com 2 mm de comprimento, côncava, com um par de calos grossos próximo ao ápice, a margem superior da antera fimbriada, e pares de políneas, amarelas e abovaladas. Cápsula desconhecida.

Photo/Foto: Claudio Nicoletti
  Etimologia. O nome desta nova espécie homenageia Augusto Ruschi, um naturalista que se dedicou à conservação de áreas naturais do Espírito Santo, especialmente na área da Estação Biológica de Santa Lúcia, que foi o local por onde ele começou seus estudos botânicos, em particular sobre as Orchidaceae.
Esta nova espécie é aparentemente próxima de Myoxanthus punctatus (Barb. Rodr.) Luer, Myoxanthus lonchophyllus (Barb. Rodr.) Luer e Myoxanthus seidelii (Pabst) Luer, dos quais se distingue por suas folhas elípticas, labelo grosso e não curvado, com margens revolutas e antera fimbriada.
A presença de um labelo elíptico com os lobos terminais de margem verrugosa, também observada no Myoxanthus punctatus e M. seidelii, distingue M. ruschii do M. lonchophyllus, que possui um labelo ovalado um tanto ao quanto híspido-papilar no ápice.
As não-clavadas pétalas amarelas pintalgadas de vermelho e a forma elíptica geral do labelo com base sub-truncada com um par de lobos laterais curvados no final, encontrados no Myoxanthus ruschii, são caracteres ausentes no M. punctatus e no M. seidelii.

 

TIPO:
Brasil. Espírito Santo: Santa Teresa, Valsugana Velha, Estação Biológica de Santa Lúcia, trilha seca, ca. 19º57'10" to 19º59'00" S / 40º31'30" to 40º32'25" W, elev. 750 m, 16 Jun. 2001 (fl.), C. N. Fraga 780 (holótipo: MBML, isótipo: RB).
Figura 1.

PARATIPO:
BRASIL. Espírito Santo: Santa Teresa, Valsugana Velha, Estação Biológica de Santa Lucia, em trilha seca, ca. 198579100·198599000S, 408319300·408329250W, 700 m, Mata Atlântica, 28 Apr. 2000 (fl), L. J. C. Kollmann 2899, C. N. Fraga, V. G. Demuner, E. M. C. Leme & B. R. Silva (MBML).


Agradecimentos.
Agradecemos ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) pelo suporte financeiro, a Helio de Queiroz Boudet Fernandes, Diretor do Museu Biológico e Herbário Mello Leitão, curador, por sua assistência durante o trabalho de campo em Santa Tereza, a Jorge Fontella Pereira, pela diagnosis latina, a Fábio de Barros, Marcos Sobral, aos dois revisores e ao editor pelas sugestões e ajuda no Inglês.


Literatura citada
- Luer, C. A. 1982. A reevaluation of the genus Myoxanthus (Orchidaceae). Selbyana 7: 34–54.

- 1992. Icones Pleurothallidinarum IX: Systematics of Myoxanthus. Addenda to Platystele, Pleurothallis subgenus Scopula and     Scaphosepalum. Monogr. Syst. Bot. Missouri Bot. Gard. 44: 1–128.

- 1997. Icones Pleurothallidinarum XV: Systematics of Trichosalpinx. Addenda to Dracula, Masdevallia, Myoxanthus and   Scaphosepalum. Corrigenda to Lepanthes of Ecuador. Monogr. Syst. Bot. Missouri Bot. Gard. 64: 1–136.

- Mendes, S. L. & M. P. Padovan. 2000. A Estacao Biologica de Santa Lucia, Santa Teresa, Espírito Santo. Bol. Mus. Biol. Mello   Leitao (n. ser.) 11/12: 7–34.

- Myers, N. R. A., C. G. Mittermeier, G. A. B. Fonseca & J. Kent. 2000. Biodiversity hot spots for conservation priorities. Nature 403:   853–858.


  Fotos e ilustrações: Cláudio Nicoletti de Fraga
Manipulação digital: Sergio Araujo

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