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  ON: Além do pessoal do Jardim Botânico, a reserva tem servido de base para estudo outros pesquisadores?
David: Gustavo Martinelli, do Jardim Botânico fez muita pesquisa na área de estratégia reprodutiva de bromélia; Marcos Nadruz, também do Jardim Botânico, em filodendro. Darcílio Fernandes, da Fundação Fiocruz, também esteve lá avaliando o nível de poluição através do estudo dos insetos aquáticos, desde as cabeceiras dos rios até Casimiro de Abreu, quer dizer, uma área imensa. Claudio Boher, da UFF, fez estudos em geografia, geologia, ecologia de floresta. Vamos receber o pessoal da UNICAMP que está pesquisando a polinização da Maxillaria acicularis e do Epidendrum sp.

ON: No seu livro anterior, você catalogou 270 espécies distribuídas em 66 gêneros. Você encontrou espécies que não haviam sido relatadas para a região ou espécies novas?
David: Em princípio, uma ou duas, mas lembre-se que aquele livro trata de orquídeas encontradas acima de 1.000m.

ON: Esta pesquisa da Serra dos Órgãos já dura quanto tempo?
David: Foram pelo menos seis anos diretamente, mas, na verdade, são trinta.
Foi muito difícil, foram mais de 20.000 de horas de pesquisa.

  ON: Qual a área abrangida por este projeto?
David: Serra dos Órgãos toda, desde o nível do mar, englobando Petrópolis, Teresópolis, Cachoeira do Macacu, Nova Friburgo, Casimiro de Abreu, Macaé, Glicério, Conceição do Macabu, Santa Maria Madalena, Macaé, Pico do Frade, Trajano, Cordeiro, Cantagalo, São Sebastião do Alto, Bom Jardim, Sumidouro, Carmo, Paraíba do Sul. Fomos um pouco na direção de São Fidélis, mas, de fato, é um deserto, não tem nem árvore.
 

Petrópolis - Serra

  ON: Quem participa deste projeto?
David: Richard Warren é o editor e botânico, Helmut Seehawer, ex-piloto da Lufthansa, especialista em Pleurothallidinae, tem propriedade aqui em Macaé de Cima e fica 6 meses na Alemanha e 6 meses aqui - ele se concentrou inteiramente durante 6 anos a este grupamento. Álvaro Pessanha, ilustrador botânico, Isabel e eu. Recebemos colaboração da Marta Morais, do Orquidário do Jardim Botânico, assim como de Maria do Rosário Almeida Braga, do Orquidário Quinta do Lago.

ON: Evidentemente, vocês encontraram um número muito maior de espécies do que no levantamento do primeiro livro.
David: Na Serra inteira, encontramos cerca de 620 espécies, das quais Helmut já achou 20 espécies novas, principalmente no grupamento Pleurothallidinae. Fora deste grupo, com flores um pouco maiores, acho que descobrimos uma meia dúzia, num total que fica entre vinte e trinta novas espécies. Além disto calculamos que, com a extinção no anticlíneo (direção do rio Paraíba do Sul), sumiram 350 espécies.

ON: Foram perdidas para sempre ou têm em outro lugar? Seriam endêmicas para a região?
David: Têm. Têm em outro lugar.
  ON: Em número de espécies, qual presença é mais forte? Pleurothallidinae com certeza, não é?
David: Pleurothallis mais de 100, Octomeria, 70, Stelis, 35. Maxillaria mais do que Pabst dá para a região, quarenta e tantas espécies, Oncidium, 39, eu acho, Epidendrum entre 30 e 40, Dichaea, mais do que meia dúzia, acho que foram sete,Warmingia eugenii, Psilochilus modestus.

Depois tem uma quantidade de gênero com uma só espécie: Ponera striata, Binotia brasiliensis.

Epidendrum denticulatum

Epidendrum addae
 

Warmingia eugenii
Psilochilus modestus

Ponera striata

Binotia brasiliensis

  Isabel: Encontramos também muita Cleistes, muito lindas.


  ON: Felizmente, por ser um gênero tão difícil, é impossível de se cultivar, as pessoas não coletam embora seja um gênero belíssimo.
David: É impossível fazer a cápsula germinar em frasco. Mesmo o Warren não conseguiu fazer germinar em frasco e ele é absolutamente craque nisto. A semente não germina. Govenia é outra coisa interessante, você consegue fazer germinar, mas cresce para baixo, desce, não tem frasco que agüente.

ON: Em São Fidélis, vocês encontraram Laelia fidelensis?
David: Não, achamos que o esforço que seria necessário para descobrir uma só orquídea não valeria a pena, mas ela provavelmente está lá.
Isabel: Também a decepção foi tão grande em São Fidelis. Uma catástrofe, não tem árvores, então a gente desanimou de entrar nas antigas fazendas.

ON: Cattleya dormaniana só é encontrada em Nova Friburgo?
David: Encontramos em Silva Jardim, em quantidades industriais. Aliás concluímos que, pela trajetória, se todas as espécies de Cattleya como bicolor, guttata, harrisoniae e Laelia pumila se extinguirem, a mais rara, a Cattleya dormaniana vai ficar.
 
Cattleya dormaniana
ON: Existe um registro de Blunt, de ocorrência na cidade do Rio de Janeiro a 700m de altitude.
Você acha isto possível?

David: Foi encontrada na Tijuca, é possível sim, existe uma faixa de altitude, que pode variar de 200m, que é absolutamente perfeita para Cattleya dormaniana, a luz também tem que ser perfeita. Nós só a encontramos vegetando sobre uma espécie de Clúsia.

Cattleya velutina
  Acho que a Cattleya velutina tem a mesma característica.

ON: Vocês encontraram também Cattleya velutina?
David: Nós não encontramos, mas vimos um espécime que tinha sido tirado de uma área, em Silva Jardim. Tem ao redor de Lumiar onde também não encontramos, mas conhecemos gente que encontrou.
Em uma cumeeira entre Nova Friburgo e Silva Jardim a 300m, foi achada uma enorme touceira. Fomos lá à procura e ficamos sabendo que tudo havia sido tirado por um genuíno bandido para venda. Não encontramos uma sequer.
Fizemos, então, uma coisa interessante pegamos um frasco de Cattleya velutina e re-introduzimos no local.

ON: Vocês viram resultado desta re-introdução? É uma planta complicada mesmo na natureza.

Isabel: Já, está indo muito bem.