(final)






David: Outra coisa aterrorizante é Laelia perrini, encontramos em Sumidouro, mais ou menos a 300m de altitude. Aparentemente era comum em Casimiro de Abreu.
Encontramos Laelia pumila na antiga estrada de ferro, em Lumiar, esta planta está quase extinta neste local mas do outro lado de Nova Friburgo encontramos numa capoeira, em quantidade razoável.

ON: O que vocês destacariam em termos do que foi encontrado?

David: Laelia perrini. Cattleya guttata no anticlíneo perto de Santa Maria Madalena, ela só existe no litoral, mas encontramos dezenas num oásis, catalogamos este tipo de lugar como um oásis. Tinha Oncidium baueri, literalmente em quantidades industriais.

ON: E Cattleya warneri, você não localizou nenhuma?
David: Não. Outro que me chocou profundamente foi um Oncidium walueva, no Parque de Teresópolis. No meio de um monte de Sophronitis coccinea, exatamente com mesmo tipo de bulbo.
  ON: Vocês encontraram muito Cyrtopodium?
David: Sim, mas não em Macaé de Cima e sim do outro lado de Nova Friburgo, no anticlíneo, uma área muito mais seca.
Você tem o Cyrtopodium que era antigamente chamado andersonii e um outro muito grande, imenso. Encontramos também uma Gomesa sessilis  com uma haste floral imensa.

ON: Vocês encontraram muitas terrestres?
David: Muitas, mas localizar terrestres em floresta original é muito difícil .Quando você anda nela, você está procurando epífitas, não está olhando para o chão.
O problema das terrestres é que você tem que pegá-las na floração e depois, as folhas de muitas terrestres são a mesma coisa.
Isabel: Sacoila lanceolata é capim lá.
David: Nós descobrimos uma nova espécie de Sauroglossum, sem dúvida não é uma variedade. Até Pabst fala em uma espécie de Sauroglossum, mas Hoehne tem duas.

Gomesa sessilis
 
Prescottia nivalis, uma das menores flores da família
ON: Saurgolossum nitidum e Sauroglossum elatum, mas que hoje em dia são considerados como sinônimos.
Isabel: Tem que se ter mais atenção para as terrestres. Porque todo mundo, inclusive estes pesquisadores antigos só olhavam para cima, eventualmente olhavam para baixo para andar e então só encontravam epífitas ou não deram bola. Tem coisas lindíssimas.
David: São 173 espécies. Tem páginas de Epidendrum que são terrestres. O problema é que tem muito mais estudo em Kew Garden sobre nossas orquídeas do que aqui.

ON: Mas têm muitas pessoas fazendo um bom trabalho e ficam no anonimato, pois elas não têm patrocínio, não têm ajuda financeira, não têm o devido reconhecimento.
Voltando à pesquisa de vocês, como ela foi estruturada?
David: Nós dividimos a serra em seções de um até oito. Todas as seções pares são do lado da escarpa como Tinguá, por exemplo. Cachoeira do Macacu, seção 6, tem 50 km, onde encontramos Cattleya dormaniana .
  A seção 8 vai de Cachoeira de Macacu até Santa Maria Madalena, é uma imensa área onde achamos Laelia perrini a 350m de altitude. Perto de Lumiar, encontramos Stanhopea.
Isabel: E também perto de Sumidouro.
David: Uma enorme quantidade de Stanhopea guttulata e uma imensa colônia de Phragmipedium vittatum
 
Touceira de Phragmipedium vittatum no barranco
 
Phragmipedium vittatum
  Phragmipedium vittatum
  Isabel: É emocionante, é de chorar não dá para acreditar...

ON: E vocês chegaram lá na época da floração?

David: Sim, vai de outubro até abril.
Isabel: É muito extensa a floração.
David: Realmente uma colônia imensa com umas trezentas plantas mais ou menos.
Isabel: Muito mais.
 
Bletia catenulata
David: Tem 70m de colônia. Também na seção 3, encontramos Bletia catenulata junto com Phragmepedium vittatum, em ambiente muito específico, de muita umidade.

ON: É interessante, pois na restinga de Massamababa, a Bletia catenulata é encontrada na areia, em solo sem retenção de umidade nenhuma.
David: Só que eu li em um número de Orchid Digest, de l978, num artigo de Fowlie que ele encontrou Phragmipedium vittatum, em Goiás, junto com a Bletia catenulata, exatamente nas mesmas circunstâncias, no mesmo ambiente. Tivemos estas surpresas absolutamente fantásticas que fazem você ficar sentado vendo estas coisas todas.
  Isabel: Tem também o Epidendrum aquaticum, o Epidendrum dendrobioides que parece trigo que é a coisa mais linda.
David: Em uma área mais inclinada, que foi cercada para não deixar o gado entrar por ser perigosa, de repente, você encontra o Epidendrum dendrobioides, amarelo, simplesmente parece trigo.
Teve uma Laelia pumila que nem estávamos procurando (aliás nunca estamos à procura de uma coisa específica. Acho que a única vez foi a procura de Cattleya dormaniana que levamos 4 anos para achar e Cattleya velutina que praticamente não achamos), de repente eu vi descendo no rio, depois de uma chuvarada, um tronco e eu peguei uma colônia de bulbos. Achei estranho, era tão pequenino que logo pensei que não era Encyclia ou Cattleya, pois todas as nossas espécies são bifoliadas, mas nem pensei em Laelia. Andamos um pouco mais e descobrimos um fruto e era nitidamente um fruto de Laelia. Pelo fruto, eu calculei que seria abril o mês da floração.
Isabel: A gente voltou na época que calculamos para a floração e não dá para acreditar. Dá vontade de gastar filmes e mais filmes.
Muito bonito.

Epidendrum aquaticum
  David: Eu sento e fico olhando. Tem uma meia dúzia de casos como este, Phragmipedium vittatum, Bletia catelunata, Laelia pumila, minha favorita de todas, Laelia perrini e ainda Cattleya guttata.
Saindo da seção 6, ou seja, Nova Friburgo, Macaé de Cima, descendo Cachoeiras, na seção quatro, mais dois choques: Cochleanthes candida, aquele branco com aquela faixa azulada, isto foi um chocante mas o maior choque mesmo foi a Huntleya meleagris. Encontramos de repente, num sub-bosque, parecia uma bromélia, fiquei absolutamente alucinado, comecei a olhar as supostas bromélias, tudo Huntleya meleagris. Coisa lindíssima.
 

Cirrhaae saccata
Outro choque foi Cirrhaea saccata.
Encontramos também Cirrhaea longiracemosa com 15 hastes floridas ao mesmo tempo, na seção 6, perto de Cachoeira de Macacu, a 400m.
A única Cirrhaea que se encontra acima de 400m é a dependens, que se encontra a 1.200m.

Cirrhaae longiracemosa
  ON: O que vocês puderam observar em termos vegetativos?
David: O melhor substrato para o Oncidium é a madeira podre, mas não pode ser mais podre do que um certo grau, ele tem que estar apodrecendo. Para Laelia crispa, a primeira bifurcação de uma árvore é fantástica e que pode ser mais perto do chão ou a 20 m de altura. Joga uma Laelia crispa num tronco de uma árvore, ela sobrevive, mas não como na primeira bifurcação, a diferença entre o tronco e a primeira bifurcação é muito grande, é fantástica.

ON: Voltando ao projeto de conservação. O trabalho de vocês fala por si mesmo, mas nem todo mundo conhece, gostaria que vocês falassem um pouco mais.
David: Há quase 30 anos, nós montamos um esquema para defender a região que não é nossa, a chamada reserva de Macaé de Cima. Para defender, nós precisamos pesquisa. Com a pesquisa do Jardim Botânico, o Programa Mata Atlântica, por exemplo, não tem juiz nenhum que possa aceitar o condomínio de 200 casas neste vale. É para isto que precisamos de tempo para pesquisar e para planejar muito bem este negócio de conservação de uma região, de baixo para cima.
Isabel: A mata está lá intacta.

ON: Vocês conseguiram captar recursos para o projeto?
Isabel: Quando estávamos tentando captar recurso para fazer a pesquisa, simplesmente falaram para a gente que pesquisa não era cultura. Como você faz um livro sem pesquisa?

ON: E isto torna mais difícil a execução do projeto.
David: Existem certas dificuldades. Por exemplo, nós queremos uma Kombi de segunda mão, de 98, uma coisa assim.
Isabel: Eu sou mais prática, precisamos de uma Kombi melhor, mais resistente, mais moderna, um jipe, um carro mais forte. Nós temos um Gurgel e uma Kombi de 86, que foi doação de uma cliente que nos quis dar, juntou com nosso dinheiro. A Kombi quebra muito, pois as estradas são muito precárias.
David: Quando estamos fazendo pesquisa de todo o resto da Serra, Trajano, Visconde de Imbé, temos dificuldade de comunicação, são áreas que não tem celular que pegue de forma nenhuma, nem telefone fixo. Chegamos a ter um telefone via satélite, mas vendemos quando terminamos o projeto, pois era muito caro.
Isabel: Pois foi de nosso bolso que saiu.

ON: Concluída a pesquisa, como vai ser apresentado o resultado, vocês pretendem editar um livro?
David: O livro já está pronto, ele vai ter aproximadamente 750 páginas, em tamanho A4 , sendo 138 a cores. A edição é de Richard Warren, tem de cerca de 350 fotografias coloridas de Isabel Moura Miller, cerca de 200 desenhos de Pleurothallidinae de autoria de Helmut Seehawer e 16 aquarelas de Álvaro Pessanha dos gêneros mais importantes como Cattleya , Epidendrum, Habenaria, Sophronitis, Maxillaria, Oncidium, com exceção do grupo desenhado por Helmut. Além dos desenhos de labelo feitos pela Isabel e por mim.

ON: Vocês já têm quem subsidie a publicação do livro?
David: Deixe-me explicar a estratégia: descobrimos que pesquisa ninguém financia, nem mesmo com a Lei Rouanet, aliás já está registrado na Lei. Primeiro tem que se ter o produto e como agora já temos, nós vamos voltar à abordagem. Philipp Cribb, de Kew Garden, já esteve aqui com a gente. Ele leu a introdução, adorou e quer que mande para publicar lá, tanto em português como em Inglês. A gente tem um projeto exatamente como o que Kew Garden quer, um excelente projeto editorial. Só que eu acho que este tipo de livro em Português tem que ser editado no Brasil.
Isabel: O livro abrange toda a história da estrada de ferro Leopoldina, ciclo do café, ciclo do ouro, ciclo do açúcar...
David: Mostramos que, na área de conservação, fazer não é um problema, isto é muito fácil, é uma coisa político-social. Nós sabemos como fazer isto. Vender isto como necessidade para a sociedade é que é muito difícil.
 

Oncidium marshallianum



Todas as fotos dessa matéria são de autoria de Isabel Miller

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