por Delfina de Araujo


  Circundando a face sul do Morro da Urca e margeando o mar, em plena cidade do Rio de Janeiro, na zona sul, o Caminho do Bem-te-vi (pista Cláudio Coutinho), com quase 1.300m de extensão, é o lugar preferido por muitos cariocas para o sua caminhada. Situado em área de proteção ambiental (APA), este pequeno trecho possui duas diferentes condições ambientais que se revezam,
  ora apresenta a encarpa nua,
 
ora um pequeno bosque com árvores de copas bem desenvolvidas
 

.Na encarpa, nos primeiros 600 metros, no verão, crescendo diretamente da pedra nua ou entre as fendas ou ainda entremeadas a outras plantas rupículas, surgem os exemplares de Vanilla sp e de Epidendrum denticulatum, aos montes com suas flores róseas ou quase púrpuras dependendo da ensolação ou do tempo de abertura, pois elas tendem a escurer à medida que envelhecem.

A partir segunda metade do caminho, o bosque é contínuo e e as rupícolas não aparecem, pois a área é bem sombreada. A atração passa a ser, no lugar do reino vegetal, o reino animal com seus pássaros, micos, lagartos e até uma enorme e tímida iguana que não se deixou fotografar. Eles fazem a alegria da criançada e até mesmo dos adultos.

 

Tiê-sangue macho (Ramphocelus bresilius)

Possível imaturo (macho jovem) da mesma espécie


Mico-estrela-de-tufo-branco (Callitrix jacchus). Originário do nordeste

  O Epidendrum denticulatum ocorre em, pelo menos, dez estados brasileiros, a saber: Alagoas, Bahia, Espírito Santo, Minas Gerais, Pernambuco, Paraná, Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro, São Paulo e Santa Catarina. Generosamente disperso pela cidade do Rio de Janeiro, ainda hoje podemos vê-lo florido, além do Caminho Cláudio Coutinho, na pedreira da Rua Pinheiro Machado, na Barra da Tijuca e na Restinga de Jacarepaguá. A lista de registro de ocorrência é bem longa: Praia Vermelha, Avenida Niemeyer, Alto da Boa Vista, Corcovado, Av. Sernambetiba, Pedra de Itaúna.
 
 
 

Barbosa Rodrigues assim descreveu a espécie em 1882, Genera Et Species - Orchidearum Novarum:
E. caule articulato, proligero; foliis distichis, oblongis; sepalis superiore oblongo, acuto, concavo, patente, inferioribus sub-falciformibus, concavis, patentibus; petalis obovalis, basi attenuatis, acutis, patentibus, labello cum tribus carunculis divergentibus ad basin irregulariter sulcatis et medio antice crenulato, trilobo, lobulis lateralibus, medio duplo majoribus, unciformibus, convexis, margine dentatis, medio bi-partito, apiculato cum marginibus erectis, dentatis.
Les fleurs sont d'un rose-lilaciné exepté les caroncules qui sont blanc-jaunâtre.

Esta espécie foi objeto de matéria veiculada em Orchid News #13. Consulte: Orquídeas da cidade do Rio de Janeiro

 

 
Vanilla bahiana Hoehne

  Crescendo também diretamente na rocha, misturada ao Epidrendrum denticulatum ou ainda protegida pelos pés de clusia, surgem também a Vanilla com suas flores verde-esbranquiçadas.
  Encontrei apenas 4 exemplares desta espécie, sendo um bastante desenvolvido, carregando três inflorescências.
Este espécimem recebe bastante luminosidade, mas está protegido por um arbusto bem ralo. Ao seu lado, cresce uma outra planta, bem menos desenvolvida, mas que portava também uma inflorescência.
As duas outras plantas crescem diretamente das fendas da rocha e não são bem desenvolvidas. Apenas uma apresenta inflorescências.
 
 

Guido Pabst, em sua obra " As Orquídeas do estado da Guanabara", revista Orquídea Maio-junho de l966, páginas 169/170, cita 5 espécies como nativas da cidade do Rio de Janeiro:

Vanilla aromatica Sw. (material coletado por Glaziou em Copacabana e Corcovado). Encontrada nos estados de Amapá, Minas Gerais, Pará e Rio de Janeiro.


 

Vanilla chamissonis Kl. (material coletado por Glaziou em Copacabana e na restinga de Jacarepaguá, perto do Recreio dos Bandeirantes, por Guido Pabst). Espécie com maior área de dispersão: Estados da Bahia, Distrito Federal, Espírito Santo, Goiás, Minas Gerais, Mato Grosso, Pernambuco, Paraná, Rio de Janeiro, Santa Catarina e São Paulo.

Vanilla gardneri
Rolfe (material coletado por Glaziou no Morro do Flamengo). Distribuída pelos estados de Minas Gerais, Pará, Pernambuco, Piauí e Rio de Janeiro.

Vanilla organensis
Rolfe (material coletado por Glaziou no Corcovado e Dressler e Emmerich na Serra Carioca, estrada do Redentor, 600 m de altitude, em l966).

Pabst considerou a Vanilla planifolia Andr. como sendo originária de sementes dispersas de plantas cultivadas por ser ela nativa da América Central e Norte da América do Sul (material coletado por Gardner no Corcovado, perto do Rio Comprido). No entanto, hoje em dia, considera-se como ocorrendo nos estados de Alagoas, Espírito Santo, Mato Grosso, Pará e Rio de Janeiro.

Em Orchidaceae Brasilienses, Guido Pabst & Dungs citam também a Vanilla edwallii Hoehne como ocorrendo na cidade do Rio de Janeiro (antigo estado da Guanabara) e também para os estados de Paraná, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e São Paulo.

O gênero Vanilla Mill é objeto de um tópico no site Brazilian Orchids - consulte.


Bibliografia:
1) Orchidaceae Brasiliensis - G. F. Pabst & F. Dungs, Alemanha, l977, Vol. I.
2) "As Orquídeas do estado da Guanabara" Guido Pabst - revista Orquídea - Maio-junho l966, páginas 169/170.
3) Iconographia das Orquidáceas Brasileiras, F. C. Hoehne.





  Todas as fotos dessa matéria de autoria de Sergio Araujo.  ©2004 Sergio Araujo


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