(continuação)


 
ON: E quanto a espécies novas, houve algum registro?

Lou: Algumas espécies novas foram descobertas ao longo dos anos de pesquisa, além de variedades.
As variedades, notadamente flores albas, semi-albas e coeruelas são jóias raras inseridas no âmago das populações de orquídeas, notadamente em se tratando do gênero Cyrtopodium, que foi algo extremamente gratificante.
Críticos, idiotas da objetividade na orquidofilia, já blasfemaram contra minhas variedades, mas com o tempo aprenderam comigo e passaram também a descrevê-las,

 
ON: Você encontrou duas variedades numa espécie para a qual não havia sido registrada nenhuma variedade. Quais foram?

Lou: No caso de variedades, eu destaco a Bletia catenulata alba, que jamais havia sido registrada ao longo de séculos, visto que o gênero foi descrito em l794.
A Bletia catenulata coerulea foi outro registro gratificante e espetacular.

Bletia catenulata alba
Bletia catenulata
Bletia catenulata coerulea


 
ON: A Bletia catenulata foi a única espécie com variedade alba que encontrou na região?

Lou: Não, encontrei também Cattleya nobilior var. alba, que já descrevi e publiquei na revista Orquidário, em 2001, e muitas outras mais que estão no livro.

ON: A Bletia catenulata é encontrada no estado do Rio de Janeiro, em área de restinga, mas também

Cattleya nobilior
var. alba
 
nas serras dos Órgãos onde ocorre também associada ao Phragmipedium vittatum, em condições completamente diferentes daquelas encontradas a nível do mar.
Em que condições ela ocorre no Planalto?

Lou: Ela ocorre numa altitude de 800-1.400m, onde a vegetação dominante é de gramíneas e sempre sujeita aos incêndios anuais do período seco e é típica de solo hidromórfico.

 
ON: Aquela região, que é riquíssima em termos de Cyrtopodium, pode ser considerada o centro de sua distribuição geográfica?
Lou: Sem dúvida alguma, o Planalto Centro é o centro de dispersão geográfico do gênero Cyrtopodium.

 

Cyrtopodium braemii
ON: No seu livro anterior sobre Cyrtopodium, você descreveu cerca de 10 espécies, entre eles, Cyrtopodium braemii, caiapoense, você ainda encontrou outras?


Lou: Eu estou preparando a 2a. edição do meu livro de Cyrtopodium, visto que o mesmo esgotou-se há muito. Haverá novidades, aguardem.

Cyrtopodium caiapoense
 

ON: É o gênero que possui mais espécies naquele habitat?

Lou: Acredito que seja um gênero a destacar, mas Habenaria é o mais rico e este gênero ficou para ser abordado na edição posterior.

ON: Quer dizer que, em termos de números de indíviduos, este gênero é o mais presente?

Lou: É, sem dúvida, a Habenaria.

 
ON: Finalmente, então existe uma predominância de orquídeas terrestres?

Lou: A predominância é terrestre devendo-se ampliar o sentido daquilo que deva ser incluído nesse hábito, ou seja: terrestres propriamente ditas, paludícolas e mesmo rupícolas. Além de Phragmipedium vittatum e várias espécies de Cyrtopodium, tem também Bletia catenulata, Cleistes, plantas naturais de áreas úmidas e mais raramente em campos secos. No livro coloquei 5, Cranichis, Epistephium, Galeandra (como rupícola e como epífita), Houlettia, Eulophia alta, Liparis, Govenia, Lyroglossa, Prescottia (as plantas deste gênero são terrestres, mas podem ocorrer em árvores e sobre rochas), Pteroglossaspis, fora as que já citei e outras que estão também no livro.
Pelexia laminata


Cleistes castanoides Hoehne

Lyroglossa grisebachii

Eulophia alta
 

Houlletia juruensis(hábitat)

Houlletia juruensis
 

ON: E Cyanaeorchis que, no passado, foi classificada como pertecente ao gênero Eulophia e até como Arundina?


Lou: Este gênero é genuinamente brasileiro e é representado por duas únicas espécies que estão presentes no Planalto Central e que foram incluídas no livro.
São plantas típicas de terrenos brejosos e alagadiços, vegetando sempre a pleno sol, emergindo do solo por ocasião de seu crecimento vegetativo para floração e frutificação, mas depois desaparecem até o seu reaparecimento no novo ciclo de vida, no ano seguinte.

Cyanaeorchis arundinae

 
ON: Seu estudo começou com Phragmipedium vittatum, ele ainda existe em abundância na região?

Lou: Phragmipedium vittatum é uma espécie abundante, quase sempre encontrada associada aos gêneros Cyrtopodium (algumas espécies), Epidendrum (algumas espécies), Bletia catenulata e Habenaria (algumas espécies). Do ponto de vista ecológico, a espécie está ameaçada em face de coletas intensivas e indiscriminadas que, no passado, dizimaram populações e comprometeram as remanescentes e também a expansão demográfica, a poluição do ar, rios, riachos acelerando a poluição dos habitats brejosos.

ON: E ocorrência nova para a região?


Lou: Algumas ocorrências novas foram registradas para os gêneros Encyclia, Sarcoglottis e outras que deverão se constituir em surpresa aos leitores do livro.

ON: Qual é a abordagem de seu livro?

Lou: O livro é fartamente ilustrado por fotografias das plantas, da flor e do habitat, com uma introdução ao gênero.
Para o Phragmipedium vittatum, eu faço uma abordagem também do ponto de vista das condições de cultivo, luminosidade, regas, substratos, as dificuldades, hábitats remanescentes, características dos hábitats, consequências da expansão demográfica, poluição, coletas indiscriminadas. etc...
Durante meus estudos sobre o Phragmipedium vitatum e várias espécies do gênero Cyrtopodium, foi dada atenção especial às interações ecológicas nos hábitats. Os periódicos incêndios que devastam os hábitats durante o período seco de junho a setembro foram um dos mais interessantes aspectos neste sentido.


Epistephium lucidum

Epistephium lucidum (depois do fogo)

 
ON: Até onde eles são benéficos para as orquídeas e qual seu efeito ecológico?

Lou: A importância dos incêndios em relação à ecologia das orquídeas terretres tem sido objeto de cuidadosas observações por parte de alguns pesquisadores. Os incêndios tem um efeito seletivo e algumas famílias de plantas são particularmente beneficiadas, entre essas, a família Orchidaceae que cresce, freqüentemente, sob condições adversas, sufocada pela vegetação dominante - as gramineas - e acaba por se beneficiar desse evento natural de "limpeza".
Nos habitats calcinados pelos incêndios, têm-se a impressão de que toda a vida foi perdida para sempre. Entretanto, meus estudos mostaram que a maioria das plantas de Phragmipedium vittatum e Cyrtopodium sobrevivem e que novos brotos aparecem tão logo cheguem as primeiras chuvas da primavera.
O fogo é benéfico, mas não indutor da floração como é dito em algumas publicações.
Parece evidente que fora do habitat, mantidos em cultivo, Phragmipedium vittatum e espécies de Cyrtopodium não dependem de incêndio para florir, pois continuam a florescer anualmente.
 

ON: Então os efeitos só são benéficos?


Lou: Sob certas condições, eles causam danos.
Em algumas áreas, espécies de Cyrtopodium têm seus brotos, suas florações e conseqüentemente, suas reproduções naturais por semente, quase completamente interrompidas devido à queima de novas hastes florais. Neste caso, a espécie mais afetada é o Cyrtopodium eugenii Rchb. f. cuja floração coincide com a ocorrência dos primeiros incêndios do planalto, nos meses de maio e junho.
Este assunto foi abordado no meu livro sobre Cyrtopodium.

ON: Você gostaria de acrescentar alguma coisa sobre o livro?

Lou: Ciente de que a cultura de um povo se mede por seus livros e suas bibliotecas, neste contexto e no âmbito da flora brasileira de orquideas, o livro "Orquídeas do Planalto Central Brasileiro" é uma contribuição no estudo da flora de orquídeas do Planalto Central Brasileiro e, em especial, daquelas de hábito terrestrre e paludícola pouco conhecidas e estudadas.
A flora de orquídeas da região é muito pouco conhecida e estudada, tornando assim a minha obra inédita, um legado para as gerações futuras.
É um livro que pode ser usado como fácil e prático guia de identificação de grande parte das espécies daquela região, notadamente do planalto goiano.

 

Phragmipedium vittatum


 
Todas as fotos pertencem a Lou Menezes - ©Lou Menezes
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