(continuação)


 

ON: Vocês publicaram a revisão de Habenaria - A Review of Habenaria (Orchidaceae) in Pabst and Dungs's Orchidaceae Brasilienses] - em Lindleyana 17(2), em 2002. Um trabalho muito interessante que se torna mais importante se pensarmos na escassez de literatura. Vocês poderiam falar um pouco sobre o desenvolvimento e método daquele trabalho?

JOÃO: Na verdade, este trabalho não é uma revisão de Habenaria. A ultima revisão das espécies brasileiras de Habenaria foi feita pelo saudoso taxonomista F.C. Hoehne em 1940 e a primeira, e única, revisão do gênero em nível mundial foi feita por um taxonomista alemão chamado Kraenzlin, no final do século passado, e encontra-se bastante desatualizada e incompleta. No trabalho publicado na Lindleyana fazemos correções e atualizações na identificação das espécies de Habenaria apresentadas no Orchidaceae Brasilienses de Pabst & Dungs. O trabalho teve como objetivo permitir a identificação atualizada das Habenaria brasileiras e deve ser usado em conjunto com aquela obra. Devido à importância florística, uma revisão de Habenaria é um trabalho extremamente necessário, mas que devido à magnitude e complexidade do gênero ainda deverá requerer muitos anos de estudo e trabalho. No momento, estamos finalizando uma sinopse das espécies americanas, com cerca de 650 nomes e 260 espécies válidas, e que deverá subsidiar uma monografia futura das espécies de Habenaria do continente americano.
Como no momento é praticamente impossível abordar todas as espécies de Habenaria em uma única monografia, uma alternativa consiste em ir monografando o gênero por partes, através de seções. Entretanto, com algumas poucas exceções, a relação entre as espécies ainda não é bem conhecida e os agrupamentos existentes são claramente artificiais. Um dos poucos grupos razoavelmente bem resolvidos é a seção Macroceratitae, do qual preparamos uma revisão para as espécies Brasileiras e que deve ser publicado em 2005. Além da seção Macroceratitae também estamos trabalhando mais intensamente com outros três grupos, mas devido à falta de tempo, não temos previsão para concluir estes trabalhos.

 

Cyrtopodium linearifolium
ON: Vocês não se limitaram à este grupo, vocês realizaram trabalhos também com o Cyrtopodium tanto é que descreveram duas novas espécies:
Cyrtopodium latifolium
e Cyrtopodium linearifolium.
Estas plantas já eram conhecidas ou vocês as trouxeram não só à luz da ciência mas também ao conhecimento delas em si?

Cyrtopodium latifolium
 
LUCIANO: Cyrtopodium é um dos gêneros em que trabalhamos com mais afinco. A nossa região é propícia para o gênero e existem, no DF, pelo menos 18 espécies. É natural que, depois de algum tempo de estudo, os interessados acumulem informações pertinentes às espécies em relação ao ambiente, partes vegetativas e reprodutivas, época de floração, etc, de tal forma que cada espécie fique muito bem caracterizada.
Então, se ao examinarmos qualquer material relativo ao gênero e, se as informações que estão na nossa frente não coincidem com a caracterização pré-estabelecida, esse fato passa a ser um bom indicativo de uma possível “novidade”. Entretanto, não basta ser apenas uma novidade para o interessado e sim uma novidade para a ciência, para que seja descrita como espécie nova. Por esse motivo, o trabalho de qualquer taxonomista deve ser, acima de tudo, criterioso. Deve-se ter um bom entendimento do gênero como um todo e bibliografia atualizada para que seja efetuada uma boa revisão, antes de pensarmos em publicar uma espécie nova. Existem várias fontes para se detectar “novidades”, entre elas: sociedades de orquidófilos, expedições no campo e exame de materiais de herbário. Muitos botânicos e estudantes de botânica têm a prática de coletar tudo que encontram, mesmo que não identifiquem corretamente o que estão coletando. Nesse sentido, muitos materiais de herbário representam espécies novas que nunca foram descritas.
 
Em 1990, em uma de nossas saídas de campo vimos, pela primeira vez, o Cyrtopodium latifolium. Mais tarde, durante a revisão de bibliografia e de materiais de herbário, percebemos que a mesma espécie havia sido coletada por Hoehne, em Mato Grosso, em 1908. Porém Hoehne se equivocou identificando-a como C. vernum e não percebeu que se tratava de uma espécie nova. Do mesmo modo, em 1999, vimos pela primeira vez o C. linearifolium. Mais tarde detectamos que Irwin & Soderstrom já haviam coletado a mesma planta em 1964, em Jataí. Portanto, aí estão dois exemplos de plantas que já eram, de certo modo, conhecidas por alguns, mas não para a ciência.
JOÃO: Em relação a Cyrtopodium estamos trabalhando na descrição de novos táxons e numa revisão do gênero.

Cyrtopodium latifolium
 
Em colaboração com o pesquisador venezuelano Gustavo Romero, atual curador do Oakes Ames Orchid Herbarium, preparamos um “checklist” do gênero, e que deverá ser submetido para publicação no segundo semestre de 2004. Até o momento já descrevemos as duas espécies citadas e há mais alguns táxons em processo de descrição. Pelos nossos dados são hoje conhecidos 28 táxons de Cyrtopodium no Cerrado, 36 no Brasil e o total de 45 no gênero, todos restritos ao continente americano. Tanto C. latifolium como C. linearifolium já haviam sido coletados por outros coletores antes de nós. Cyrtopodium latifolium, por exemplo, foi coletado pela primeira vez em 1908 por Hoehne em Mato Grosso e C. linearifolium por H.S. Irwin em 1964. Entretanto, nos dois casos os materiais coletados foram identificados erradamente e confundidos com outras espécies já conhecidas, o que impediu na ocasião o seu reconhecimento como espécies novas. Do mesmo modo, Cyrtopodium fowliei, descrito em 1995, foi coletado pela primeira vez entre 1835 e 1839. Até onde foi possível verificar, todas as espécies novas de Cyrtopodium descritas nos últimos anos para o Brasil já haviam sido coletadas anteriormente, ou seja, em nenhum dos casos o material tipo corresponde à primeira coleta conhecida da espécie.


Cyrtopodium blanchetii

Cyrtopodium poecilum

 
Cyrtopodium latifolium (habitat)
ON: Qual a característica do habitat destas espécies?

LUCIANO: C. latifolium vegeta em campo sujo, em solos profundos. C. linearifolium vegeta em campo limpo, em solo raso, pedregoso.



 
ON: Para terminar, quais as novidades que podemos esperar para breve em termos de novas espécies e suas publicações?

JOÃO: Pelo menos três, cujas fotografias estamos apresentando aqui: Habenaria pabstii, Bulbophyllum ciluliae e Cyrtopodium lamellaticallosum, que serão publicadas até o final do ano pois já foram aceitas nas revistas especializadas.
 

Habenaria pabstii

Bulbophyllum ciluliae-inflorescência

Bulbophyllum ciluliae-flor

   
Cyrtopodium lamellaticallosum

  Comentários sobre as fotos

 Habenaria distans
Conhecida do Brasil por apenas três coletas.
A única população conhecida para a espécie no DF, mostrada na foto, já não existe mais devido a extração de calcário no local.

 Bulbophyllum celuliae
Espécie nova em processo de descrição. Ocorre na região nuclear do bioma cerrado. Estas são as primeiras imagens divulgadas da espécie.

 

Cyrtopodium latifolium
Espécie nova descrita em 2000.
Conhecida somente do Distrito Federal e de duas coletas realizadas no começo no século passado em Mato Grosso.
Estas são as primeiras imagens divulgadas da espécie.


 
Habenaria pabstii
Espécie nova descrita no final do ano passado.
A espécie é de ocorrência restrita a região nuclear do bioma cerrado.
As flores estão as maiores no gênero.

 Habenaria pungens
Esta espécie difere da grande maioria das outras espécies no gênero pelas flores não ressupinadas.
Até onde sabemos, esta é a primeira vez que fotos desta espécie são divulgadas a um publico maior.

 

Cyrtopodium linearifolium
Espécie nova descrita em 2001 e anteriormente confundida com o C. dusenii. Até o momento, conhecida apenas de Goiás e do Distrito Federal.
As flores estão entre as menores no gênero.

 


  Notostheles acianthiformis
Espécie terrestre extremamente rara, conhecida apenas de algumas poucas coletas de Minas Gerais, Goiás e DF.
Esta é possivelmente a primeira vez que fotos desta espécie são divulgadas a um publico maior.
[Sinonyms: Pelexia acianthiformis Rchb. f. & Warm. and Stenorrhynchos acianthiformis (Rchb. f. & Warm.) Cogn.]

 Lyroglossa bradei
Espécie terrestre que cresce em cerrados secos. As flores têm um forte perfume cítrico.
Até onde sabemos, esta é a primeira vez que fotos desta espécie são divulgadas a um publico maior.

 Sarcoglottis uliginosa
Espécie terrestre de brejos e campos úmidos.

 Habenaria leucosantha
Espécie terrestre de brejos e campos úmidos.
Às vezes aparece em grande número, formando conjuntos floridos de rara beleza.

 Habenaria lavrensis
Espécie terrestre de campos secos.
O nome da espécie é uma referência a cidade de Lavras, onde foi coletada pela primeira vez.

 Cyrtopodium lamellaticallosum
Espécie nova em processo de descrição, descoberta através do exame de material herborizado.
Ocorre em campos rupestres na parte central de Minas Gerais.
Esta é a primeira imagem divulgada da espécie.


  Fotos: João A. N. Batista


 
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