Claudio Nicoletti de Fraga
Instituto de Pesquisas Jardim Botânico do Rio de Janeiro, Programa Zona Costeira/
Curadoria de Coleções Vivas, Rua Jardim Botânico 1008, 22470-051, Jardim Botânico,
Rio de Janeiro-RJ, Brazil. cnfraga@jbrj.gov.br

 
 

RESUMO. Bulbophyllum boudetiana Fraga (Orchidaceae), uma nova espécie do Espírito Santo, que cresce em moitas (ilhas) de vegetação saxícola em afloramento rochoso (inselbergs) na Mata Atlântica, é descrita, ilustrada e comparada com espécie relacionada. Esta nova espécie está relacionada com o Bulbophyllum kautskyi do qual se difere por suas flores amarelas salpicadas de creme, rizoma abreviado, pseudobulbos agregados e ovóides, pétalas em forma de escama, labelo carnoso e disco ligeiramente sulcado e ciliado na base.

Palavras-chave: Mata Atlântica, Brasil, Bulbophyllum, Espírito Santo, Orchidaceae.

A Mata Atlântica localizada costa leste brasileira se estende por mais de 3000 km como uma faixa quase contínua formada por uma cadeia de montanha paralela ao oceano Atlântico, isolada da floresta pluvial da bacia amazônica por vastas extensões de cerrado e caatinga, é caracterizada por alta percentagem de endemismo (Mori et al., 1981). A elevada riqueza de espécies encontrada nas moitas (ilhas) de vegetação de menor porte e na maior parte das outras comunidades de plantas em afloramentos rochosos do sudeste brasileiro é excepcional quando comparada com outras áreas tropicais. Afloramentos rochosos, normalmente, não são muito atraentes para a agricultura: eles são frequentemente preservados do impacto da ocupação humana mentendo sua característica de refúgio (Porembski et al., 1998). Como resultado de trabalho de campo em vários afloramentos rochosos em Espírito Santo, eu encontrei uma nova espécie de orquídea em Pedra Branca que é aqui descrita e ilustrada.
Atualmente, 1100 espécies em Bulbophyllum Thouars, com distribuição pantropical, são reconhecidas (Dressler, 1993). Na última revisão do gênero no Brasil foi feita por Cogniaux (1902), 42 espécies eram registradas; segundo Pabst e Dungs (1975, 1977), este número subiu para 54. Desde então, 3 species foram descritas em recentes publicações de Borba et al. (1998), Fraga (1999), and Brito (2000), perfazendo um total de 57 espécies.

Bulbophyllum boudetiana Fraga, Novon 14 (1) :40-42.2004
TYPE: Brazil. Espírito Santo: Serra, Pedra Branca, elev. 300 m, 11 July 2000 (fl), C. N. Fraga
636 (holotype, MBML; isotype, RB). Figure 1.

Haec species Bulbophyllo kautsky similis, sed pseudobulbis aggregatis et ovoideis, petalis squamiformibus, labello crasse carnoso et ciliato cum marginibus non revolutis differt.

Planta epífita, de crescimento escandente, com até 4 cm de altura. Muitas raízes fasciculadas, teretes, glabras, surgindo próxima das margens do pseudobulbo com 0.5 mm diam.
Rizomas abreviados com 2 mm diam. e entrenós de 2–3 mm de comprimento. Pseudobulbos agregados, eretos, ovóides, tetragonais, unifoliados, amarelos com 6–8 x 3 5–8 mm. Folhas verdes, séssiles, oblongas ou elíptico-oblongas, ereto-patentes, coriáceas, obtusa-atenuadas junto à base, ápice agudo-apiculado, com 18–32 x 6–8 mm. Inflorescência normalmente pendente, emergindo da base do pseudobulbo, com até 25 cm de comprimento, produzindo de 10 a 15 flores, variando do verde até o amarelo; pedúnculo terete e alongado com 11–13 cm de comprimento, com 4 a 5 brácteas descoradas, estéreis, pequenas, comprimidas, tubulares e espaçadas; ráquis sub-terete, ereta ou flexível, com 10–12 cm de comprimento; brácteas florais de 3–4 x 1–2 mm, ovato-triangulares, amplexicaules, agudo-acuminadas, normalmente distendidas, amarelas ou verdes quando jovens e paleáceas na antese. Flores se abrindo em sucessão, ocasionalmente com 2 flores abertas simultaneamente, amarelas salpicadas de creme; ovário com pedicelo de até 1.5 mm, ligeiramente ob-cônico, sulcado, um tanto torcido e curvado, creme; sépala dorsal amarelada com pintas marrom-acastanhadas, com 3.5–4.5 x 2–3 mm, ovado-lanceolada, glabra, côncova, acuminada, com três veios; sépalas laterais com 5–6.5 x 2.5–3.5 mm de diâmetro na parte basal, livres, glabras, triangulo-ovadas, distintamente acuminadas, oblíquas, curvadas, com três veios, amarelas em direção ao ápex com pontos cremes em direção à base; pétalas pequenas, 0.4–0.6 x 1.5–2 mm, cobertas de escamas, glabras, comprimidas contra a coluna, amarelas em direção ao ápice e translúcidas em direção à base; labelo com 4.5–5.5 x 2–3 mm, de até 2 mm de largura quando distendido, articulado com o pé da coluna, espessamente carnoso, ovado-ligulado na parte de cima, disco ligeiramente sulcado e

 


Figure 1. Bulbophyllum boudetiana Fraga

A. Hábito e inflorescência. —B. Flor. —C. Ovário, pétalas, labelo e vista lateral da coluna com sépalas removidas. —D. Sépala dorsal, vista de cima. —E. Pétala, vista de cima. —F. Sépala lateral, vista de cima. —G. Labelo, visto de cima. —H. Labelo, vista lateral, —I. Ovário e coluna, vistos de baixo. —J. Antera, vista lateral. —K. Antera, vista de baixo —L. Polínia.
Desenho a partir do holótipo (C. N. Fraga 636), por C. N. Fraga.


 
ciliado na base, geniculado quando visto lateralmente, abaxialmente provido de uma calosidade amorfa ou quilha, base geniculada, ápice aguçado; coluna branca salpigada de marrom-acastanhado na face abaxial com1–1.5 x 0.5–0.7 mm, espessa, provida de 2 braços rudimentares no ápice e dois pequenos dentes falcados nas margens abaxiais, prolongando-se 3.5–4 mm no comprimento, pé curvado, antera apical, versátil, papilosa, de 1 x 1 mm, dois pares de polínias, brancas.

Etimologia. O nome desta nova espécie homenageia Helio de Queiroz Boudet Fernandes, diretor do Museu Mello Leitão Biological e curador do Herbário MBML em Santa Teresa, Espírito Santo.
No campo, Bulbophyllum boudetiana é reconhecido por suas flores amarelas salpicadas de creme, rizomas abreviados, 2–3 mm, entre pseudobulbos agregados e ovóides, pétalas cobertas com escamas, labelo espessamente carnoso e disco ligeiramente sulcado e ciliado na base com margens não-revolutas;
Bulbophyllum kautskyi Toscano tem flores púrpura-escuras, geralmente com pintas marrons e amarelas na base, rizomas lenhosos com diversas articulações, 15–20 mm entre pseudobulbos cônicos ou estreitamente ovóides, pétalas agudas, labelo carnoso e disco ligeiramente sulcado e glabro com margens revolutas.
A nova espécie é conhecida apenas para a localidade-tipo mas pode-se esperar que seja encontrada em moitas de vegetação saxícola adjacentes em afloramentos rochosos na Mata Atlântica do Espírito Santo.

  Agradecimentos. Agradecimento a Michel Frey pela diagnosis latina e Helio de Queiroz Boudet Fernandes por sua assistência durante o trabalho de campo. Agradeço também a Antonio Toscano de Brito por seus comentários e ajuda com a literatura. .
 

 

Literatura Citada

-Borba, E. L., J. Semir & F. Barros. 1998. Bulbophyllum involutum Borba, Semir & F. Barros     (Orchidaceae), Uma nova espécie dos campos rupestres brasileiros - Novon 8: 225–229.
-Brito, A. L. V. T. 2000. Duas novas espécies de Orchidacea do Brasill. Lindleyana 15(3): 184–188.
-Cogniaux, A. 1902. Orchidaceae. Pp. 1–664 in C. F. P. Martius, A. G. Eichler & I. Urban (editors),     Flora Brasiliensis, vol. 3, part 5. München, Wien, Leipzig.
-Dressler, R. L. 1993. Phylogeny and Classification of the Orchid Family. Cambridge Univ. Press,     Cambridge.
-Fraga, C. N. 1999. Bulbophyllum gomesii Fraga (Orchidaceae), uma nova espécie da floresta atlântica     do Espírito Santo, Brasil. Bradea 8(24): 135–138.
-Mori, S. A., B. M. Boom & G. T. Prance. 1981. Distribution patterns and conservation of eastern     Brazilian coastal forest tree species. Brittonia 33: 357–370.
-Pabst, G. F. J. & F. Dungs. 1975. Orchidaceae Brasilienses, Vol. I. Kurt Schmersow, Hildesheim.
----- &---- . 1977. Orchidaceae Brasiliensis, Vol. II. Kurt Schmersow, Hildesheim.
-Porembski, S., G. Martinelli, R. Ohlemuller & W. Barthlott. 1998. Diversity and ecology of saxicolous     vegetation mats on the inselbergs in the Brazilian Atlantic rainforest. Diversity and Distributions 4:     107–119.

Glossário:
Abaxial: que se encontra do lado oposto ou afastado do eixo;
Escandente: que se apóia em suporte para subir (diz-se de um caule ou planta gripante);
Inflorescência: conjunto de flores ou qualquer sistema de ramificação que termine em flores e se caracteriza pela presença do pedúnculo;
Glabro: desprovido de pelo ou penugem;
Paleáceo: que é relativo, tem a consistência de palha ou semelhança;
Pecíolo: segmento da folha que a prende ao ramo;
Pedículo: qualquer haste pequena que sustenta um órgão vegetal, que não seja pedicelo, pedúnculo ou pecíolo;
Pedicelo ou Pedúnculo: Haste que sustenta a inflorescência ou a flor de uma inflorescência simples e, posteriormente o fruto;
Ráquis ou raque: eixo da inflorescência , acima do pedúnculo que sustenta as flores ou frutos;
Rizoma: caule rico em reservas, comum nas orquídeas, caracterizado pela presença de gemas, capazes de lançar novos pseudobulbos (sendo seu ponto de união) e raízes;
Saxícola: Vegetação composta de plantas de sol - heliófitas - de menor porte (herbáceas e arbustos) que vivem ou se desenvolvem sobre ou entre rochas e pedras;
Séssil: o que é diretamente inserido na parte principal, não apresentando suporte ou haste de sustenção especialmente a folha ou a flor que não apresenta pecíolo, pedúnculo ou pedículo;
Terete: Folha ou caule cilíndrico, roliço ou quase;
Unifoliado ou monifoliado: que possui apenas uma folha.
Fonte: Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, Editora Objetiva. 1a. Edição. 2001.



Fotos: Claudio Nicoletti



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