José Alberto de Senna

Químico Industrial, graduado pela Universidade Federal Fluminense, atua como diretor de uma empresa fabricante de produtos químicos.
Filiado a diversas sociedades orquidófilas, tais como OrquidaRIO, ACW (Associação Cattleya Walkeriana), AOS (American Orchids Society), OSSEA (Orchids Society SouthEast Asia) é um exímio cultivador de Vandaceas (*).
Suas plantas vêm recebendo primeiro lugar nas exposições de que participa, desde 2002.






 
ON: Por que começou a cultivar orquídeas? Qual foi o momento mágico da atração?

Senna: Sempre gostei de plantas, visitava o Jardim Botânico com freqüência, mas somente quando construí minha casa, em Angra dos Reis, é que eu comecei a me interessar pelo cultivo.
O fato de me sentir muito bem quando estou em florestas ou mesmo em pequenos parques me influenciou bastante, além da Nelli, minha esposa, que gosta muito de plantas e "aturou" 30 orquídeas em cima de sua mesa de jantar, no nosso apartamento, durante cinco meses.
  Ascocentrum guaraii




 
ON: Há quantos anos você cultiva orquídeas?

Senna: Cultivo orquídeas desde 1995. Iniciei na sala de jantar do meu apartamento.


ON: Quantas plantas você possui, aproximadamente?

Senna: Possuo aproximadamente 500 plantas. Em sua maioria Vandaceas.
V. Claudia Pedrahita

 
ON: Por que Vandaceas?

Senna: Primeiro, porque eu gosto muito de Vandaceas, mas também porque as condições climáticas onde eu cultivo são bastante adequadas para essas plantas. Isso foi um fator muito importante na escolha das orquídeas que eu deveria cultivar.

 
Vanda tesselata
Ascda Doroth Bennett
Vanda sanderiana

 
Rynchostylis retusa

  Robiquetia pantherina  
ON: Existe alguma que seja a preferida? Você tem preferência por híbridos ou espécies?

Senna: Não tenho uma planta preferida, entretanto confesso que dou mais atenção a determinadas plantas da minha coleção: Vanda, Renanthera, Arachnis, Ascocentrum "espécies". São como a naturezas as criou. Sem interferência do homem.
Além disso, são plantas difíceis de conseguir aqui no Brasil. Mas, em geral, prefiro os híbridos até porque, como disse, é muito difícil conseguir Vandas espécies aqui no Brasil.
  Ascocentrum guaraii

 
ON: Você cultiva todas as suas plantas em Angra dos Reis?

Senna: Tenho plantas em três locais diferentes: no Rio, em Angra dos Reis e em Niterói. Aqui no Rio, na Barra da Tijuca, eu cultivo algumas orquídeas, principalmente Phalaenopsis, em uma varanda de meu apartamento que é voltada para o oeste. Tenho bancadas de alumínio e coloco os vasos em cima de bandejas com pedras e água para aumentar a umidade relativa ao redor da planta. Escolhi cultivar este gênero porque minha condição de luz não é muito boa, mas para phalaenopsis serve. As outras plantas, eu trago de Angra dos Reis quando estão floridas.

ON: Quais são as condições climáticas encontradas em Angra dos Reis?

Senna: Em Angra dos Reis, eu cultivo Vandacea e Cattleya, espécies e híbridos. Todas as plantas são cultivadas ao nível do mar, em clima semi-tropical, com muito boa luz e umidade ambiente.
Minha casa está mais próxima das montanhas do que do mar (Pico do Frade) e é protegida dos ventos pelas montanhas, que fornecem ótimas condições de umidade. A única desvantagem é a constante preocupação com os fungos principalmente com Colletotricum responsáveis pela Antracnose.
Apenas como curiosidade, Chiang Mai, cidade no norte da Tailândia, é considerada como o local ótimo para o cultivo de Vandáceas, tendo quase que as mesmas condições climáticas de Angra dos Reis. A diferença é que Chiang Mai está a 300 m de altitude, portanto com temperatura mais amena do que em Angra.

  Blc Hawaiian SatifactionAscda Ng Hee Deng " Fuchs Sunset"
  V. denisonianaBlc. Chunyea
  ON: E em Niterói?

Senna: Lá eu tenho poucas plantas junto com meu amigo Nelson Bittencourt, que cuida delas. Tenho, principalmente, algumas Catleyas híbridas, que não gostam de tanta umidade como as de Angra dos Reis. Como a estrutura é coberta e bem mais alta, eu trago as vandas e ascocendas muito grandes, que já não cabem no orquidário de Angra. A estufa, que está a 100 m do nível do mar, é uma área de 240 m² coberta na sua parte central com sombrite 70% e plástico por cima. A iluminação solar é ótima, principalmente em relação ao número de horas com luz por dia. Boa ventilação natura,l sem necessidade de ventilação forçada devido a sua altura de 4,5 m e ausência de obstáculos ao vento. As plantas são cultivadas em bancadas, com exceção das Vandas e Renantheras. Não participo do cultivo diário, somente faço uma visita semanal para troca de idéias sobre cultivo e verificar os resultados.
  V. " Best in Show " ON: Suas plantas são sempre apreciadas pela qualidade do cultivo e vêm recebendo primeiro lugar nas exposições desde 2002, qual é o segredo ?

Senna: A maior dica é se dedicar a conhecer bem a orquídea que você gosta e quer cultivar. Procure informações sobre seu habitat, compare com as condições ambientais no seu local de cultivo, leia livros e artigos sobre a planta de outros cultivadores. Eu dedico bastante tempo à leitura de livros e revistas sobre orquídea além de ser associado a diversas sociedades como: OrquidaRIO, ACW (Associação Cattleya Walkeriana), AOS (American Orchids Society), OSSEA (Orchids Society SouthEast Asia).

 
ON: Além desta, você teria alguma outra dica de cultivo que quisesse compartilhar conosco?

Senna: Não sei se é uma dica, mas nos meses mais quentes, se possível, regue as plantas (Vandaceas) depois das 10 h e até, no máximo, às 14 h. Esse é o período do dia em que a umidade relativa é mais baixa e a temperatura mais alta.
Em geral, as Vandas perdem água para o ambiente quando a umidade relativa baixa dos 45 - 40%. Regando no período mais seco, as plantas não se desidratam tão facilmente e você refresca o ambiente pela evaporação da água de rega no solo.
Importante: a planta deve estar seca antes do anoitecer, portanto não a regue muito tarde. Nos meses mais frios pode-se fazer o mesmo, mas somente em dias de sol quando a evaporação é mais alta.
Eu utilizo uma mangueira com um bico de vazão regulável sempre molhando de baixo para cima (mais raiz do que folha). Regulando a vazão posso ter gotas muito pequenas formando quase uma névoa ou um jato muito forte que ajuda a limpar o interior dos cachepots.

 
V. Wirat Pink

  Ascda Yip Sun Wah  x   V. Gordon Dillon ON: Mas não é só isto... Vvocê tem um outro segredo sobre rega de Vandaceas.

Senna: As Vandaceas devem ser regadas até que suas raízes fiquem totalmente verdes. Esfregue suavemente a parte branca com os dedos para aquecê-la e, aos poucos, ela deve começar a absorver a água e se tornar verde. É importante não deixar nenhuma parte branca.
Outro modo é mergulhar a raiz em água a 30 /35° C. A imersão em água morna também é aconselhável quando a raiz, por falta de regas, tornar-se semelhante à cortiça não absorvendo a água.

  ON: Você se tornou um especialista em Vandaceas, o que mais você poderia nos dizer sobre seu cultivo?

Senna: Pontos importante no cultivo das Vandaceas são : luz, umidade, temperatura, nutrição e OBSERVAÇÃO. Na minha opinião, observar é muito importante, pois planta lhe fornece todos os sinais do bom ou do cultivo
 
desequilibrado.
Observe nas folhas e raízes: cor, textura, tamanho, vincos, rigidez, ponta das raízes, ramificação de raízes. Nas flores: número, tamanho, durabilidade.
Quanto às condições de cultivo, procurei copiar os melhores cultivadores, principalmente da Tailândia, onde nos dias de hoje são produzidas as melhores plantas.
Tanto em Angra dos Reis como em Niterói, as Vandas e Ascocendas são, em sua grande maioria, cultivadas suspensas em arames finos de aço, com as raízes soltas. Adotei esse tipo de cultivo quando comecei a ter problemas em Angra dos Reis com a limpeza interna dos cachepot. Com o tempo o crescimento das raízes e a deterioração da madeira, vieram as pestes nas raízes e fungos na madeira. A saída que encontrei foi pendurar as plantas em arames com as raízes nuas. Um artigo do Dr. Grove, na revista Orchids da AOS, confirmou que minha decisão estava certa. Já mudei 90% das plantas para o cultivo em arame suspenso.
Vanda cristata
 

ON: Existe alguma história ou caso interessante ligado à sua relação com as orquídeas?

Senna: Como eu tinha problemas constantes de fungos nas minhas Vandaceas, tendo por isso perdido duas plantas que eu gostava muito, decidi começar a estudar um pouco da "doença em plantas". Comprei vários livros no Brasil e no exterior e, em 2001, decidi cursar "Manejo de Doença em Planta", na Universidade de Lavras (curso a distancia - duração de um ano).
Voltar quase aos 60 anos ao banco da universidade, é somente em razão de uma relação muito intensa com as orquídeas.


ON: Diz-se que a orquidofilia é uma manifestação branda de loucura. Você já fez alguma loucura orquidófila?

Senna: Uma vez voltando de uma viagem a trabalho, tive que fazer uma escala de 10 horas em Paris. Fui para um hotel no aeroporto e, por intuição, decidi ir ao orquidário Vacheron Lecoufle. Peguei o trem (uma hora e meia de viagem, só ida), mas não pensava em comprar planta, seria somente uma visita e bate papo. Para minha surpresa encontrei a ultima Renanthera storei (três polegadas) à venda. Eu estava procurando essa planta há muito tempo, sem sucesso. É claro que comprei a planta.
Só um louco deixa de passear pelas ruas de Paris para passar mais de três horas num trem para ver orquídeas.


ON: Obrigado.


  (*) Vandaceas: Grupo de orquídeas monopodiais que crescem, na maioria das vezes, sem substrato e que envolve diversos gêneros: Vanda, Ascocentrum, Rhynchostylis, Neofinetia, Aerides, Renanthera e todos os seus híbridos, além de Phalaenopsis, que necessita de substrato. 


  Fotos: José Alberto de Senna



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