Entre os dias 16 e 21 de maio de 2004 foi realizado o “IOCC II” no Marie Selby Botanical Gardens, em Sarasota, Flórida, EUA. Éramos ao todo 115 participantes. Mais da metade dos participantes era formada por americanos, seguidos em número por australianos, latino-americanos, europeus, asiáticos e um africano. O Brasil, e principalmente o Rio de Janeiro, esteve bem representado: entre os 17 latino-americanos presentes, 7 eram brasileiros, sendo que destes, 5 eram cariocas e 2 paulistas.
A programação dividiu-se entre “workshops” antes e depois do congresso, apresentações orais e de posters, excursões, reuniões do “Orchid Specialist Group” e um fórum de discussão sobre CITES.
 
As apresentações estavam agrupadas por temas: ameaças específicas para as orquídeas, experiências integradas para a conservação, educação ambiental, estudos de casos em conservação, fungos de micorriza, estudos de população e regeneração populacional.
Sendo Conservação o tema principal, alguns dos ecossistemas mais ricos em orquídeas, e os mais ameaçados, estiveram algumas vezes no centro das discussões.
Falou-se sobre a nossa Mata Atlântica, sobre o Equador, o Peru, a Colômbia, Panamá e Madagascar. A Mata Atlântica, aliás, foi foco de muito interesse já no primeiro dia do congresso. O ecólogo Dr. Stuart Pimm, especialista em biodiversidade de pássaros, foi convidado para dar a palestra inaugural e nos perguntou se sabíamos onde esta a maior diversidade de orquídeas – porque ele acredita que é aí onde devemos concentrar os nossos esforços para conservação. Segundo o Dr. Pimm, e baseando-se na biodiversidade de pássaros, o ecossistema mais importante para ser conservado, nas Américas, é a Mata Atlântica do Estado do Rio de Janeiro. Na mesma manhã o Dr. Richad (Dick) Warren, parceiro de David Miller em Macaé de Cima, RJ, trouxe a Mata Atlântica novamente à berlinda. Dick mostrou o resultado do levantamento de orquídeas que estão fazendo na Serra dos Órgãos e enfatizou o déficit de orquídeas encontrado no lado anticlinal (virado para o interior do continente) da serra, que há séculos vem sendo usado para a agricultura ou pecuária.
  Além disto, os posters apresentados por Melissa Bocayuva (Levantamento das Orquídeas do Pq. Ecológico Municipal da Prainha, Rio de Janeiro), Pedro Constantino (Estratégias de conservação de Laelia lobata) ,
 
 
 
Eduardo Saddi (Levantamento das Orquídeas da Reserva de Rio das Pedras,Mangaratiba, RJ) e Carlo Alberto Zaldini, M. Bocayuva e E. Saddi (Orquídeas do Pq. Municipal de Marapendi, Rio de Janeiro) chamaram a atenção sobre outros aspectos da nossa rica flora e sobre a necessidade de conservá-la.
Durante o congresso ficou muito evidente a grande diferença no estágio de conservação e nos esforços necessários para a conservação das diferentes regiões. Na América do Norte temperada e na Austrália temperada, onde o número de espécies não é grande, populações de algumas espécies de orquídeas já foram mapeadas detalhadamente e, às vezes, plantas individuais vem sendo acompanhados há vários anos. Nestas regiões, da-se maior ênfase atualmente conscientização dos habitantes locais e à educação ambiental de turistas e crianças. Em alguns locais existem projetos de reintrodução de espécies nativas. O grupo australiano, que há 3 anos atrás foi o anfitrião do IOCC I, foi o que apresentou a estratégia mais integrada de conservação. Lá, além dos pesquisadores terem um grande conhecimento científico sobre suas orquídeas terrestres e o ambiente onde elas vivem, existe também um importante trabalho desenvolvido com as autoridades responsáveis e as comunidades locais.
Já na América tropical e em Madagascar, por outro lado, onde a biodiversidade é alta, muitas vezes ainda falta o conhecimento básico sobre a flora de regiões que devem, e ainda podem, ser conservadas. Em todas as apresentações relacionadas às regiões ricas em orquídeas ficou evidente a urgência tanto de ações eficazes para proteção dos ecossistemas ameaçados quanto a grande necessidade de formar pesquisadores locais capazes de levantar as informações sobre a taxonomia e ecologia das várias espécies. Pesquisadores estrangeiros, que há décadas vem trabalhando com a taxonomia da flora tropical tem, cada vez mais, esbarrado em problemas burocráticos (isto ficou muito claro no fórum de discussão sobre o CITES) e estão conscientes da urgência em formar pesquisadores locais.
Nas regiões tropicais o trabalho de conservação consiste em uma série de grandes desafios, entre os quais podemos ressaltar:
1) a flora é muito rica e ainda deve ser levantada;
2) o número que pesquisadores locais é baixo;
3) a pressão populacional sobre os recursos ambientais é enorme;
4) alternativas locais de desenvolvimento sustentável tem que ser desenvolvidas e divulgadas.
Alguns exemplos de projetos com resultados já palpáveis, tanto no Equador, quanto no Nepal e em Madagascar mostraram que existe possibilidade de alternativas auto-sustentáveis para as populações locais. Tive oportunidade de participar dos “workshops” sobre “Propagação de Micorrizas” e “Propagação de Orquídeas Terrestres” – os dois tratando das técnicas difíceis, mas não muito sofisticadas, de germinação da orquídea em um meio de cultivo onde esta crescendo a micorriza. Isto tem significado um maior sucesso na reintrodução de orquídeas nos ambientes naturais.
Tanto na Austrália quanto nos EUA, a maioria dos estudos, até agora, tem sido com orquídeas terrestres.
O último ponto que quero ressaltar é a escassez de recursos disponível para projetos de conservação de orquídeas. Embora as orquídeas inspirem paixões no mundo inteiro, poucas sociedades parecem estar mobilizadas para levantar fundos para financiar projetos de conservação.
Em todos os trabalhos apresentados, apenas a San Diego County Orchid Society apareceu como sociedade financiadora de projetos.
Muito ainda tem que ser feito, também nesta frente.


 
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