por Maria do Rosário de Almeida Braga


 
Vanilla planifolia é uma espécie de orquídea com hábito de trepadeira, nativa do México.
Dos frutos secos de V. planifolia extrai-se a vanilina, responsável pelo tão conhecido sabor e aroma de “baunilha”.
A espécie é uma das cerca de 100 espécies do gênero Vanilla (subfamília Epidendroideae, tribo Vanillinae), que tem distribuição pan-tropical.
Para o Brasil estão listadas 31 espécies, nenhuma delas explorada
comercialmente (Pabst & Dungs, 1975). Embora V. planifolia seja a principal espécie produtora de vanilina, V. tahitiensis e V. pompona também são cultivadas para este fim (Sheehan & Farace, 2003).
 
Em recente visita ao México tive oportunidade de visitar a cidade de Papantla, no estado de Vera Cruz, àcerca de 3 horas de carro da capital, México D.F.
Papantla, à cerca de 60m de altitude, está no centro da região mexicana produtora de Vanilla, composta por mais quatro ou cinco municípios vizinhos. Lá, a temperatura anual oscila entre 20°C e 40°C e a pluviosidade anual é de 1600mm, com as chuvas concentrando-se no verão.
A Vanilla planifolia até hoje germina facilmente entre a vegetação local (S.N. Corona, com. pes.).
Desde as primeiras referências literárias do séc. XVI sobre os costumes Aztecas e as plantas que eram utilizadas na Mesoamérica quando os espanhóis chegaram, fala-se do uso de “tlilxochitl” (flor preta) como um dos aromatizantes adicionados à bebida, que era feita a partir do cacao (Coe & Coe, 2000).
Na verdade, “flor preta” é como os Totonacs chamavam o fruto da Vanilla, que depois de seco assume uma tonalidade escura.
Os Totonacs, que já habitavam a região antes mesmo do domínio Azteca (1.200-1.500dC), vêm praticando agricultura há vários séculos. Além deles outros povos agricultores já habitaram a região. A 20km da cidade de Papantla esta localizado o sítio arqueológico “El Tajin”, construído entre 300 e 1100dC, pelos Huastecs.
 
O “Templo dos Nichos”, decorado com 365 nichos, cada um representando um dia do ciclo agrícola, é uma evidência da importância da agricultura para aquelas culturas.
Entre as imagens esculpidas nas paredes do templo, uma faz referência ao ritual de culto ao cacao.
Hoje sabe-se que a prática da agricultura começou por volta do ano 1000aC, na região de Vera Cruz (Wilkerson, 1980) e a Vanilla planifolia está há muitos séculos entre os produtos cultivados.
 
 
Além do seu uso na culinária, os frutos de Vanilla são também utilizados localmente na confecção de artigos de artesanato. Até há alguns anos atrás estes artesanatos eram bastante populares nas ruas de Papantla, mas fortes inundações nos últimos anos provocaram uma queda acentuada na produção local. Muito do que é produzido atualmente é exportado. Só os frutos que não passam no teste de qualidade são utilizados para o artesanato, que ainda pode ser encontrado nos pontos turísticos.
 
Hoje o México não ocupa mais a posição de maior produtor e não muitas famílias vivem exclusivamente do cultivo de Vanilla.
Durante minha visita tive a sorte de ter sido muito bem recebida por uma família que vem cultivando, beneficiando e exportando “vainilla” há várias gerações.
Os “pés” de V. planifolia crescem amarrados a estacas, protegidos do sol direto pela meia-sombra de bananeiras ou outras árvores da região.
A floração acontece entre abril e maio e, para aumentar a eficiência, hoje as flores são manualmente auto-fecundadas.
 
Em geral, de 12 flores fecundadas / inflorescência, selecionam-se apenas seis cápsulas para que se desenvolvam melhor. As cápsulas crescem até um comprimento de 18 a 22 cm e são colhidas em dezembro, no início do inverno mexicano.
A partir daí inicia-se o período de beneficiamento, que se prolongará por três meses, quando milhares de cápsulas são espalhadas diariamente ao ar livre, para secarem ao sol e têm que ser recolhidas todas as tardes.
Durante as noites as cápsulas ficam abafadas por cobertores e são armazenadas em grandes caixotes de madeira.
Após este período as cápsulas são manualmente selecionadas e minuciosamente limpas.
  De sete quilos de cápsulas colhidas, após a secagem obtêm-se um quilo de cápsulas secas, que serão empacotadas e estarão prontas para serem exportadas.
 
 
Uma pequena parte é eventualmente vendida no mercado interno como cápsulas inteiras .
O preço da Vanilla no mercado internacional varia muito, de acordo com a oferta e a qualidade do produto. Em 2003 e 2004 tem oscilado entre US$ 95 e US$ 475 o quilo.
 
 

Os produtores mexicanos fertilizam o solo, onde está plantada a V. planifolia, apenas com adubo orgânico. O inseticida mais utilizado contra as eventuais pragas é uma mistura de extrato de papaia e sabão. Bactérias podem necrosar parte do tecido e são consideradas como sendo o maior perigo para o cultivo.
O aroma doce de “vainilla” impregna o ar da região, mesmo fora do período de beneficiamento.
Em Papantla, as orquídeas proporcionam mais do que lindas flores que encantam os olhos. A Vanilla planifolia tem sido a principal fonte de renda de várias famílias há muitas gerações e proporciona ao mundo o agradável sabor de baunilha.

Referências:

- Pabst, G. and F. Dungs. 1975. Orchidaceae Brasiliensis. Vol.1. Hildesheim, Brücke Verlag. 408pp.
- Sheehan, T.J. and N. Farace. 2003. Vanilla: the most versatile orchid. Orchids, 72 (12): 936-939.
- Coe, S. D. and M. D. Coe. The True History of Chocolate. 2000. 2ed. London, Thames & Hudson Ltd. 280pp.
- Wilkerson. J. K. 1980. Man’s Eighty Centuries in Veracruz. National Geographic, 158 (2): 203-231.


Fotos: Maria do Rosário de Almeida Braga



 

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