João A. N. Batista & Luciano B. Bianchetti

Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, Parque Estação Biológica, C.P. 02372, Brasília, DF 70770-901, Brasil; E.mail: janb@cenargen.embrapa.br; bianchet@cenargen.embrapa.br.

Trabalho publicado originalmente na Brittonia, revista de botânica sistemática do Jardim Botânico de Nova Iorque, volume 56, número 3, páginas 260 a 274, em agosto de 2004.





Brittonia, vol 56 (3) - 260.274, 2004


Fig. 1
Cyrtopodium brunneum

A. Habito durante a antese.
B. Flor, vista frontal.
C. Flor, vista lateral.
D. Calo.
E. Perianto.
a-e. Variações na morfologia do labelo, cada labelo proveniente de um exemplar diferente da mesma população.

A-D desenhados a partir de Batista 1242,
E & a-e desenhados a partir de Batista 208 por Simone C. Souza e Silva.


RESUMO.
Cyrtopodium brunneum, C. lamellaticallosum e C. poecilum var. roseum, duas novas espécies e uma nova variedade de orquídeas do cerrado e campos rupestres do centro-oeste e sudeste do Brasil são descritas e ilustradas. Embora a descrição do Cyrtopodium gonzalezii indique tratar-se de uma espécie distinta, o holótipo é indubitavelmente um exemplar de C. brandonianum. Esta espécie é descrita aqui como C. brunneum e C. gonzalezii é considerado como sinônimo do C. brandonianum.

Palavras chave: Orchidaceae, Cyrtopodium, cerrado, Brasil.

Cyrtopodium é um gênero Neotropical com cerca de 42 espécies distribuídas do sul da Flórida ao norte da Argentina. O centro de diversidade do gênero é o Cerrado brasileiro, onde ocorrem ao menos 25 espécies. Nos últimos anos, espécies novas foram descritas para o gênero (Bianchetti & Batista, 2000; Menezes, 2000; Batista & Bianchetti, 2001), e a maioria ocorrendo no Brasil central. Baseados na exploração da região e no exame de material herborizado, duas novas espécies (C. brunneum e C. lamellaticallosum) e uma nova variedade (C. poecilum var. roseum) foram descobertos e são descritos abaixo.
Tradicionalmente, a taxonomia de Cyrtopodium foi baseada quase completamente nos caracteres reprodutivos, sendo a parte vegetativa, as folhas em particular, negligenciada. Isso se deve ao fato de que os estudos botânicos foram realizados principalmente a partir de exemplares herborizados (secos) e coletados durante o período de floração quando a maioria das espécies de Cyrtopodium não apresenta folhas completamente desenvolvidas. O exame de plantas vivas ao longo de todo o seu ciclo de desenvolvimento nos permitiu a caracterização da parte vegetativa da maioria das espécies e, em muitos casos, a parte vegetativa é suficientemente distinta para permitir a identificação das espécies. Baseado nesta caracterização, o holótipo do C. gonzalezii L.C.Menezes é indubitavelmente um exemplar de C. brandonianum Barb.Rodr., embora a descrição indique que se trata de uma espécie nova. Esta nova espécie é descrita aqui como C. brunneum.

 

Tipo: BRASIL. Distrito Federal, Brasília, Plano Piloto, final da Asa Norte, área entre o Parque Ecológico Norte e o Parque Nacional de Brasília, área do futuro setor Noroeste, 8 Set. 2001 (fl), J.A.N. Batista 1242 (HOLÓTIPO: CEN; ISÓTIPOS: AMES, BHCB, CEPEC, HB, HUEFS, K, MBM, MO, NY, R, RB, SP, UB, UEC).

Cyrtopodium gonzalezii L.C.Menezes in Boletim CAOB 6(1): 9. 1995. pro parte incluindo a descrição, excluindo o tipo.

Cyrtopodio tristi Rchb. f. & Warm. similis sed inflorescentia semper simplici, floribus minoribus, sepalis oblongo-lanceolatis vel paulo lanceolato-ovatis, labelli lobis lateralibus falcatis differt; etiam C. dusenii Schltr. similis sed foliis sub anthesi redactis, inflorescentia semper simplici, floribus majoribus, sepalis et petalis atrobrunneis differt.

Erva terrestre. Pseudobulbos completamente enterrados, pequenos, ovais, desprovidos de folhas a partir do segundo ano, externamente brancos, (3)4-6(7) x (1)1.5-2.5 cm. Raízes numerosas, esbranquiçadas, glabras. Folhas na antese 3-6, pouco desenvolvidas, 7-15 cm compr., quando completamente desenvolvidas 5-8, patentes, coriáceas, lanceoladas, as 1-2 basais, em forma de bainhas, as 4-7 apicais, 13-33 x 1-2.6 cm, articuladas, articulação 1-2 cm da superfície do solo, ápice acuminado. Inflorescência lateral, ereta, racemosa, laxa, 26-56 cm, marrom-claro a marrom-escuro; pedúnculo 11-26 cm com 2 brácteas em forma de bainhas, fortemente adpressas, 1.7-3.5 cm compr.; raquis 12-26 cm compr.; brácteas florais oblongo-lanceoladas, mais curtas do que o ovário e pedicelo, 10-30 x 5-9 mm, agudas a acuminadas, margens onduladas, involutas, verde-amarronzado; ovário e pedicelo 1.4-3.9 cm compr., marrom-escuro. Flores 9-15(20), pequenas, com perfume adocicado. Sépalas oblongo-lanceoladas a ligeiramente lanceolado-ovadas, ápice apiculado, margem ondulada, marrom-claro a escuro ou marrom-esverdeadas, base mais clara, freqüentemente com pintas marrom escuro; sépala dorsal (8)11-13(15) x 4-5(6) mm; sépalas laterais ligeiramente oblíquas, (8)11-13(15) x 4-6(7) mm. Pétalas largo-elípticas a largo-lanceoladas, ápice obtuso a rotundado, discretamente apiculado, côncavo, margens ligeiramente onduladas, (8)9-12(13) x 6-8 mm, metade inferior esverdeada a marrom claro, ocasionalmente com pequenas pintas marrons, metade superior marrom escuro. Labelo 3-lobulado, (7)9-11(12) mm compr., quando distendido 10-12(14) mm entre os ápices dos lobos laterais; base curto-unguiculada, 1 mm compr., amarelada; lobos laterais eretos, paralelos, oblongo-falcados, (3)4-5(6) x 2-3(4) mm, ápice obtuso, base não constricta, margens inteiras, lisas, avermelhado a vermelho-arroxeado; calo verrucoso, ligeiramente sulcado, disposto da base do lobo central ao pé da coluna, branco, ocasionalmente branco-avermelhado; istmo separando o lobos laterais do lobo central geralmente proeminente, algumas vezes alongado, 1-2(3) mm compr.; lobo central variável, de obcordado a obovado-oblongo a um tanto obreniforme, 5-7 x (5)6-8(10) mm, ápice com uma dobra proeminente, retuso quando comprimido, margem lisa, no ápice ocasionalmente verrucoso, amarelo tornando-se mais claro com o envelhecimento, com margens vermelhas a vermelho-arroxeado, ocasionalmente com algumas pintas vermelhas na base. Coluna ereta, discretamente arqueada, trigona, 6-7(8) mm compr., base amarela, parte mediana branco-avermelhada e em direção ao ápice verde-arroxeado; pé da coluna (2.5)3-4 mm compr., base amarela, parte mediana branca com numerosos pontos vermelhos que confluem em direção ao ápice. Antera ca. 2-2.5 mm compr., 1.5 mm largura, amarelada, ápice verde; políneas duas, cerosas, sulcadas, ca. 1 mm compr., 0.5-0.6 mm largura, amarelas; estipe triangular, hialina, ca. 1 mm compr., 1 mm largura na base. Fruto deflexo, verde, oblongo a elongado, sulcado, quando novo ca. 6-8.5 x 1-1.5 cm, incluindo o pedicelo.

Etimologia: O nome faz referência à cor marrom-escuro das sépalas e pétalas.

Espécimes adicionais examinados. BRASIL. Distrito Federal: Brasília, Vila Maury, 6 Set. 1960 (fl.), Andrade 412 & Emmerich 404 (HB, R); Brasília, Lago Norte, 8 Out. 1990 (fl.), Batista 122 (CEN), 1 Out. 1991 (fl.), Batista 208 (CEN), 7 Set. 1992 (fl.), Batista 325 (CEN); Guará, Reserva Ecológica do Guará, 13 Set. 1992 (fl.), Batista 330 (CEN); Brasília, área entre o Parque Ecológico Norte e o Parque Nacional de Brasília, 7 Out. 1994 (fl.), Batista 421 (CEN), 11 Dez. 1994 (veg.), Batista 434 (CEN); Brasília, Lago Norte, 17 Feb. 1995 (veg.), Batista 521 (CEN), QL 15, próximo ao Clube do Congresso, 17 Feb. 1995 (veg.), Batista 523 (CEN); Núcleo Bandeirante, Santuário Ecológico do Riacho Fundo, 14 Set. 1995 (fl.), Batista & Bianchetti 576 (CEN); Brasília, área entre o Parque Ecológico Norte e o Parque Nacional de Brasília, 28 Set. 1998 (fl.), Batista 792 (CEN, HB, MBM, SP), 30 Dez. 2000 (veg.), Batista 1112 (CEN); Brasília, área entre o Lago Norte e a EPIA, 6 Jan. 2001 (veg.), Batista 1126 (CEN); Brasília, Lago Sul, condomínio Prive Morada Sul II, após a QI-28, próximo a barragem do Paranoá, fl. cult. 22 Set. 2001, Batista et al. 1184 (CEN); Gama, BR-060, próximo ao posto tributário do GDF e o acesso para Santo Antônio do Descoberto, 2 Out. 2001 (fl.), Batista & Oliveira-Neto 1252 (CEN); Brasília, Plano Piloto, Asa Norte, 7 Out. 2001 (fl.), Batista 1254 (CEN); Brasília, Setor de Mansões do Lago Norte, 17 Set. 1990 (fl.), Bianchetti & Batista 953 (CEN), trecho 2, 20 Out. 1991 (fl.), Bianchetti & Batista 1176 (CEN), próximo a MI-7, 6 Out. 1991 (fl.), Bianchetti & Batista 1168 (CEN); Guará, Reserva Ecológica do Guará, 26 Ago. 1990 (fl.), Bianchetti & Batista 950 (CEN); Brasília, Plano Piloto, 10 Nov. 1961 (fl.), Heringer 8756 (HB, UB); Brasília, Estação Florestal Cabeça de Veado, 8 Out. 1965 (fl.), Heringer 10616 (HB, UB); Santa Maria, 28 Out. 1972 (fl.), Heringer 12206 (HB, UB); ca. 20 km S de Brasília, na rodovia para Goiânia, próximo ao Rio Melchior, 1125 m, 25 Set. 1965 (fl.), Irwin et al. 8652 (UB); Brasília, confluência do Rio Torto com o lago Paranoá, 975 m, 9 Out. 1965 (fl.), Irwin et al. 9086 (HB); Guará, Reserva Ecológica do Guará, 15o50’S-47o57”W, 1050 m, 20 Set. 1994 (fl.), Oliveira 2 (UB). Goiás: Chapada dos Veadeiros, ca. 26 km N de Alto Paraíso, GO-118, 11 Out. 1999 (fl.), Batista 945 (CEN); ca. 8 km de Niquelândia, Companhia de Níquel Tocantins, 14o23’48”S-48o25’59”W, 17 Set. 1996 (fl.), Fonseca et al. 1154 (IBGE); Município de Mineiros, BR-364, próximo ao Córrego Alegre, 20 Set. 1974 (fl.), Hatschbach & Kummrow 35014 (MBM); Goiânia, 30 Nov. 1963 (fl.), Heringer 9289 (HB); Município de Luziânia, 16 Set. 1974 (fl.), Heringer 13971 (HB, UB); 12 km NW de Veadeiros, na estrada para Cavalcante, 1200 m, 21 Out. 1965 (fl.), Irwin et al. 9444 (HB, UB); Aparecida de Goiânia/Hidrolândia, 10 Ago. 2002 (fl.), Pastore 32 (CEN). Mato Grosso: 84 km de Alto Araguaia, em direção à Rondonópolis, BR-364, Set.-Nov. 1983 (fl.), Hutchison 8550 (UEC). Minas Gerais: Uberlândia, Estação Ecológica do Panga, 24 Set. 1992 (fl.), Araújo et al. 276 (HUFU); Morro Pelado, próximo de Campanha, Ago. 1896 (fl.), Brandão in CGGMG 1719 (R) (misturado com C. cristatum); Município de Carmo do Rio Claro, Serra da Tormenta, 3 Nov. 1990 (fl.), Campos s.n. (CEN, HRCB); Serra do Cipó, 23 Ago. 1958 (fl.), Heringer 6438 (HB) (misturado com C. parviflorum); Felixlândia, bacia de Três Marias, 23 Ago. 1958 (fl.), Heringer 6438 (UB), 2 Out. 1959 (fl.), Heringer 6438 (UB), margens do Rio Paraopeba, 11 Out. 1959 (fl.), Heringer 6438 (UB); Santana do Riacho, km 107 na estrada de Belo Horizonte a Conceição do Mato Dentro, 4 Out. 1981 (fl.), Pirani et al. in CFSC 7472 (SP, SPF).

Pabst foi provavelmente o primeiro orquidólogo a examinar material do C. brunneum, mas equivocou-se na identificação, determinando-o primeiro como C. falcilobum Hoehne & Schltr. (agora considerado um sinônimo do C. parviflorum Lindl.) e depois como C. poecilum Rchb.f. & Warm. f. minor Hoehne (agora considerado um sinônimo do C. fowliei L.C.Menezes). Aparentemente, Pabst também foi o primeiro taxonomista a suspeitar que o C. brunneum poderia representar uma espécie nova. Nos seus arquivos pessoais, no Herbário Bradeanum, há uma ficha com um desenho do C. brunneum identificado, de um lado, como C. aff. parviflorum e, no topo, como Cyrtopodium heringeri; mas ele nunca publicou uma descrição válida da espécie. Mais recentemente, Menezes descreveu esta espécie como Cyrtopodium gonzalezii L.C.Menezes (Menezes, 1995), mas inadvertidamente designou um holótipo que indubitavelmente pertence à outra espécie já descrita, ou seja, trata-se de um exemplar de Cyrtopodium brandonianum Barb.Rodr. Essa situação deixa a nova espécie ainda não validamente descrita.
O holótipo do C. gonzalezii, localizado na Universidade de Brasília, é um exemplar único e estéril. Entretanto, baseado no exame das suas características vegetativas este exemplar indubitavelmente corresponde ao C. brandonianum. Primeiro, o holótipo do C. gonzalezii possui pseudobulbos pequenos, estreitos, enterrados e folhas lineares, eretas, muito estreitas. Quando comparamos o holótipo com as 25 espécies de Cyrtopodium conhecidas do bioma, a característica morfológica dos pseudobulbos (pseudobulbos enterrados) exclui, para efeito de comparação, várias espécies que possuem pseudobulbos expostos, como C. aliciae Linden & Rolfe, C. cardiochilum Lindl., C. cipoense L.C.Menezes, C. cristatum Lindl., C. eugenii Rchb.f., C. hatschbachii Pabst, C. lissochiloides Hoehne & Schltr., C. palmifrons Rchb.f. & Warm., C. paludicolum Hoehne, C. parviflorum Lindl., C. saintlegerianum Rchb.f., C. virescens Rchb.f. & Warm., e C. vernum Rchb.f. & Warm.
Segundo, de acordo com o protólogo do C. gonzalezii (Menezes, 1995) e com a própria Menezes (L.C. Menezes, com. pessoal), o holótipo foi coletado na “península do Lago Norte”, um bairro de Brasília onde nós coletamos intensivamente durante os últimos 12 anos. São conhecidas seis espécies de Cyrtopodium para o Lago Norte: C. blanchetii Rchb.f., C. brandonianum Barb.Rodr., C. brunneum, C. caiapoense L.C.Menezes, C. poecilum Rchb.f. & Warm. e C. virescens Rchb.f. & Warm. Este dado exclui da comparação aquelas espécies que não ocorrem no Distrito Federal, como o C. braemii L.C. Menezes e C. dusenii Schltr., ou aqueles que ocorrem em Brasília, mas não naquela localidade em particular, como o C. fowliei L.C.Menezes, C. latifolium Bianchetti & J.A.N.Bat., C. pallidum Rchb.f. & Warm., C. triste Rchb.f. & Warm. e C. linearifolium J.A.N.Bat. & Bianchetti. Adicionalmente, os pseudobulbos do C. braemii, C. fowliei e C. latifolium são externamente arroxeados, enquanto os do holótipo do C. gonzalezii são esbranquiçados.
Para efeito de comparação, a caracterização da parte vegetativa das espécies de Cyrtopodium de ocorrência no Lago Norte, incluindo o holótipo do C. gonzalezii, é mostrada na tabela 1. Devido à similaridade com o C. brunneum, o C. triste também foi incluído na comparação.

Tabela I
Características vegetativas de sete espécies terrestres
de Cyrtopodium conhecidas do Lago Norte, Brasília, Brasil.

 
C.
brunneum
C.
triste

C.
brandonianum

C. gonzalezii (holótipo)
C.
poecilum
C.
banchetii
C.
caiapoense
Pseudobulbos
Comprimento (cm)
(4)5-8.8(7.5)
(3)4-6
3.5-5.5(6.5)
3.5-4
(5)6-8(11.5)
(4.5)5-8(8.5)
7.5-8
Largura (cm)
(1.4)1.7-2.3(2.8)
1-2.3
0.8-1.5(2)
1.2-1.3
1.5-2.8
1.5-2.5(3.5)
0.8-1.2
Posição
enterrados
enterrados
enterrados
enterrados
enterrados
enterrados
enterrados
Cor
brancos
brancos
brancos
brancos
arroxeados
brancos
brancos
Folhas 
Número
(4)5-7(8)
(3)4-5(6)
(3)4-5(7)
5
(3)5-6
(3)4-5(6)
(6)8-10
Comprimento (cm)
(6)16-25(33)
(5)12-21(31)
 
 
 
 
 
Largura (cm)
(0.6)1.1-2.1(2.6)
(0.8)1.1-1.6(2.0)
(0.7)1-1.5(2.1)
0.5-0.9
(1.3)2.5-3.5(5.1)
(1.3)2-2.9(3.4)
1.2-2.7
Razão compr/largura a
(8.1)9.5-15.5(17.2)
12.9-15.5(21.9)
(31.2)37-42(60)
55
(12.7)16.5-18.5(30)
(11.6)18.5-25(33.2)
15.3-18.5(21.6)
Razão compr/largura b
(6.7)8.5-16.7(22)
(7.2)10-21(29.3)
(15)30-58(76)
55
(7.6)11.3-20.8(30.6)
(8.8)14-30(47.2)
10-22(31.7)
Forma
lanceoladas
linear-lanceoladas
lineares
lineares
lanceoladas
lanceoladas
lanceoladas
Posição
patentes
patentes
eretas
eretas
patentes
eretas
eretas
Articulação
presente
presente
presente
presente
presente
presente
presente
Comprimento (cm)
(0.5)1-2(3)
(0.5)1-2(2.5)
(2.5)4-6(10.5)
4-4.5
(2.5)3.5-6.5(8)
(3)4.5-6.5(8)
2-3.5(6)
a - média por planta
b - média por folha


Todas as medidas foram realizadas a partir de exemplares vivos em condições de campo, exceto para os pseudobulbos dos espécimes herborizados e o holótipo do C. gonzalezii, que foram obtidas de exemplares secos. Para se obter uma comparação mais precisa, na análise foram considerados apenas indivíduos adultos e apenas folhas maduras, completamente desenvolvidas. O comprimento das folhas foi medido a partir da superfície do solo, correspondendo aproximadamente do ápice dos pseudobulbos ao ápice das folhas.


Fig. 7. Cyrtopodium poecilum. Folhas completamente desenvolvidas. Planta em vegetação natural de campo sujo
Cyrtopodium poecilum (Fig. 7) e C. blanchetii (Fig. 8) possuem folhas muito mais largas do que o C. gonzalezii.

Fig. 8. Cyrtopodium blanchetii. Planta com folhas completamente desenvolvida e frutos.

 


Fig. 9. Cyrtopodium poecilum. Pseudobulbos.

Fig. 10. Cyrtopodium blanchetii. Pseudobulbos.

Fig. 11. Cyrtopodium caiapoense. Parte vegetativa.

Os pseudobulbos do C. poecilum são externamente arroxeados (Fig. 9) e, portanto, distintos de todas as demais espécies comparadas; os pseudobulbos do C. blanchetii são maiores (Fig. 10) que os do C. gonzalezii.
Cyrtopodium caiapoense
possui folhas em maior número (Fig. 11), e os pseudobulbos geralmente mais compridos que C. gonzalezii, enquanto que C. brunneum e C. triste possuem folhas mais curtas e geralmente mais largas. Ou seja, a parte vegetativa de nenhuma das cinco espécies anteriores é compatível com o holótipo do C. gonzalezii (Tabela 1).
Comparando especificamente C. brunneum e C. gonzalezii, o valor médio da razão entre o comprimento e a largura das folhas foi de 9.5-15.5 para o C. brunneum, e 55 para o C. gonzalezii (Tabela 1). Adicionalmente, as folhas do C. brunneum são tipicamente patentes (Figs. 4-5), enquanto que no C. gonzalezii são eretas.


Fig. 5a. Cyrtopodium brunneum. Planta desenterrada (em Janeiro) mostrando as folhas completamente desenvolvidas e os pseudobulbos. Vista lateral.

Fig. 4. C. brunneum. Folhas completamente desenvolvidas, em dezembro, cerca de 2 meses após a floração. A vegetação circundante foi removida a fim de expor as plantas.

Fig. 5b. Cyrtopodium brunneum. Planta desenterrada (em Janeiro) mostrando as folhas completamente desenvolvidas e os pseudobulbos. Vista frontal

Os pseudobulbos do C. brunneum são geralmente um pouco maiores do que os do C. gonzalezii. Outra diferença é a posição da articulação das folhas em relação ao ápice dos pseudobulbos (correspondente à superfície do solo para as espécies de pseudobulbos enterrados), que é bem mais curta no C. brunneum do que no C. gonzalezii.

Fig. 12. Cyrtopodium brandonianum. Planta com folha desenvolvidas.
Das espécies apresentadas na tabela 1, a única que apresenta características compatíveis com o holótipo do C. gonzalezii é o C. brandonianum (Figs. 12-13).

Fig. 13. Cyrtopodium brandonianum. Pseudobulbos.


Para analisar essa semelhança com maiores detalhes, uma plotagem do comprimento x largura das folhas de exemplares do C. brunneum, do holótipo do C. gonzalezii e de C. brandonianum é apresentada na figura 14. Estes resultados mostram que as características vegetativas do holótipo do C. gonzalezii são distintas dos C. brunneum, C. triste, C. poecilum, C. blanchetii e C. caiapoense, mas caem dentro da faixa de variabilidade do C. brandonianum.


Fig. 14. Gráfico do comprimento x largura de folhas maduras e folhas jovens (incompletamente desenvolvidas) do C. brunneum, C. brandonianum e o holótipo do C. gonzalezii. As medidas do holótipo do C. gonzalezii são as mesmas tanto para as folhas maduras como para as folhas jovens.

Quanto comparado ao C. brandonianum, os valores um pouco mais baixos para o C. gonzalezii, particularmente em relação à largura das folhas, pode ser explicado pelo fato das medidas terem sido realizadas a partir de um exemplar seco, onde as folhas podem ter encolhido durante o processo de secagem. Essa secagem e encolhimento dificultam a expansão completa das folhas durante a análise. O número e tamanho dos pseudobulbos indicam que o material tipo do C. gonzalezii é quase certamente um individuo adulto, mas com folhas imaturas. Para examinar em maior detalhes esta possibilidade, o comprimento e largura de folhas imaturas do C. brunneum e C. brandonianum foram plotados junto com os dados do holótipo do C. gonzalezii (Fig. 14). Novamente, e com uma coincidência ainda maior, as medidas das folhas do holótipo do C. gonzalezii caem na faixa do C. brandonianum. Em concordância com estes resultados, a data de coleta do material tipo do C. gonzalezii é indicada, na etiqueta do holótipo, para o início de novembro. Comparado com a maioria das espécies de Cyrtopodium no Brasil central, que florescem no final da estação seca e no começo da estação chuvosa (setembro a novembro), C. brandonianum floresce principalmente durante o auge das chuvas (dezembro e janeiro). Entretanto, em comum com a maioria das espécies, o desenvolvimento vegetativo do C. brandonianum começa no início da estação chuvosa, geralmente em outubro, de modo que em novembro (data de coleta do holótipo do C. gonzalezii) as plantas já iniciaram o crescimento vegetativo, mas têm folhas não completamente desenvolvidas.
Ainda, para efeito de comparação, das espécies restantes que apresentam características de comportamento terrestre e pseudobulbos enterrados, apenas duas possuem folhas lineares, longas e estreitas, como o holótipo do C. gonzalezii. A primeira, C. linearifolium, ocorre em solo escuro, areno-argiloso, associado à vegetação de campo rupestre encontrada em altitudes maiores, possui folhas não articuladas e, no Distrito Federal é conhecida apenas dos campos limpos de altitude da Chapada da Contagem. A segunda, C. pallidum, é conhecida de várias localidades do Distrito Federal, mas é típica de solos escuros, areno-argilosos encontrados em locais mais úmidos (próximo de matas de galeria), geralmente associados com pequenos montes de terra conhecidos como murundus, e não ocorre em latossolo vermelho escuro encontrado no ‘Lago Norte’.
Em suma, nós concluímos que o exemplar tipo C. gonzalezii representa um indivíduo do C. brandonianum com folhas não completamente desenvolvidas.
Uma análise crítica da descrição do C. gonzalezii (Menezes, 1995) revelou uma mistura de características, com a parte vegetativa correspondendo ao C. brandonianum e as partes reprodutivas ao C. brunneum. Menezes (1995) tinha a intenção de descrever uma espécie nova e, de fato, as figuras das flores na descrição original são do C. brunneum. Todavia, de acordo com o Código Internacional de Nomenclatura Botânica (Greuter et al., 2000), o tipo nomenclatural (typus) é o elemento ao qual o nome de um táxon está permanentemente atrelado, seja como um nome correto ou um sinônimo. Uma vez que, como indicado acima, o holótipo do C. gonzalezii corresponde ao C. brandonianum, nós propomos a sinonimização do C. gonzalezii sob C. brandonianum, apresentada abaixo no final dos comentários sobre a espécie.

Cyrtopodium brunneum
é encontrado preferencialmente em vegetação de campo limpo e campo sujo (Fig. 2), em solo argiloso, profundo, avermelhado (latossolo vermelho-escuro), sob pleno sol, protegido apenas pela vegetação herbácea circundante. Este tipo de solo pode apresentar-se superficialmente úmido por períodos breves, durante as chuvas, porém não possui a capacidade de reter água por períodos longos e seca completamente durante a estação seca. Cyrtopodium poecilum Rchb.f. & Warm., C. brandonianum Barb.Rodr., C. triste Rchb.f. & Warm., C. blanchetii Rchb.f. e C. caiapoense L.C.Menezes ocorrem no mesmo habitat e são freqüentemente encontrados juntos com C. brunneum.



Fig. 2 - Cyrtopodium brunneum.
Habitat durante a floração. Cerrado queimado na localidade de coleta do material tipo, cerca de 2 semanas após o fogo, com a vegetação começando a brotar no começo de setembro.

Menos freqüentemente, C. brunneum é também encontrado em solo raso, arenoso-argiloso, pedregoso, onde cresce próximo aos C. vernum Rchb.f. & Warm e C. cristatum Lindl. Ocasionalmente, a espécie ocorre em cerrado mais fechado, sob sombra parcial. Em todos estes habitats, os pseudobulbos do C. brunneum encontram-se completamente enterrados no solo, mas algumas vezes o ápice pode se apresentar exposto.
A floração do C. brunneum se estende do final da estação seca ao começo da estação chuvosa, do final de agosto a novembro, mas concentra-se entre setembro a outubro. Essa floração coincide com as florações dos C. poecilum, C. blanchetii, C. caiapoense, C. cristatum e C. vernum, enquanto que as florações de C. triste (final de outubro ao começo de dezembro) e de C. brandonianum (principalmente de dezembro a janeiro) são mais tardias.

Fig. 3. Cyrtopodium brunneum. Inflorescência. Note as folhas pouco desenvolvidas durante a floração.
De maneira similar a outras espécies terrestres de Cyrtopodium, a floração é estimulada por fogo e, entre as espécies com pseudobulbos pequenos e enterrados, C. brunneum é geralmente o primeiro a florescer após uma queimada. A inflorescência aparece alguns dias após o fogo e as plantas estão em plena floração 2-3 semanas depois (Fig. 3).
A observação de plantas floridas da espécie em locais não queimados é provavelmente muito rara e pouco freqüente; nunca observamos plantas florescendo em áreas não queimadas. Plantas cultivadas podem florescer sem fogo, mas com uma freqüência muito baixa e somente quando submetidas a stress hídrico.
As flores possuem um odor adocicado e discreto.
A formação de frutos é baixa sob condições naturais, mas a remoção do polinário é um tanto freqüente, indicando que a deposição no estigma pode ser um fator limitante, ao invés da ausência de polinizadores.
A espécie mais próxima do C. brunneum é, aparentemente, o C. triste. No aspecto vegetativo, C. brunneum e C. triste são muito parecidos e de difícil discriminação (difíceis de separar).
As principais diferenças vegetativas entre as duas espécies são apresentadas na tabela 1. Adicionalmente, espécimes de C. brunneum apresentam folhas geralmente mais delgadas, flexíveis e menos coriáceas (raramente quebram quando dobradas); parte basal lateralmente comprimida (conduplicadas); geralmente tornam-se verde claro e depois amarelas antes de caírem e tendem a cair mais cedo do que as folhas C. triste. Por outro lado, espécimes de C. triste apresentam folhas, geralmente, ligeiramente mais rígidas e coriáceas, de tal modo que geralmente quebram-se quando dobradas; parte basal mais plana do que no C. brunneum; e mudam pouco de cor durante o envelhecimento, passando de verde para marrom-palha.
O desenvolvimento das folhas do C. brunneum é também dependente de condições ambientais. Plantas crescendo à sombra, em cerrado típico, em solo argiloso e profundo, geralmente apresentam o desenvolvimento máximo das folhas, tanto em comprimento quanto em largura. Plantas crescendo em encostas rochosas, em pleno sol, em solo arenoso, raso e pobre em nutrientes, são bem menores e semelhantes ao C. triste quanto ao comprimento das folhas, mas não em largura (exemplares pouco desenvolvidos de C. triste possuem folhas muito estreitas). O desenvolvimento das folhas durante a antese é incipiente e tornam-se maduras apenas 1-2 meses após a floração.
Como quase todas as espécies de Cyrtopodium do Brasil central, C. brunneum cresce durante o período chuvoso e torna-se dormente durante a estação seca, quando perde as folhas. As plantas comumente aparecem em grupos, com exemplares (de três a mais de 15) crescendo próximos um do outro (Fig. 15).
Cyrtopodium brunneum
e C. triste também são parecidos em termos de coloração das flores. Ambas as espécies possuem sépalas e pétalas marrom escuro e o labelo amarelo-avermelhado.

Fig. 15. Cyrtopodium brunneum. Grupo de plantas, pouco após a floração com os frutos em desenvolvimento inicial.

Fig. 16 - C. triste. Flor.
Todavia, C. triste freqüentemente apresenta a inflorescência ramificada com até três ramificações laterais, flores maiores e o labelo com os lobos laterais largamente obovados (Fig. 16).
No aspecto geral, C. brunneum também é similar ao C. dusenii Schltr. Entretanto, as folhas do C. dusenii são bem desenvolvidas durante a antese, a inflorescência é geralmente ramificada, com (0)1-2(3) ramificações laterais e as flores menores e completamente amarelas com pintas marrons. Cyrtopodium brunneum também tem sido confundido com o C. parviflorum, que apresenta flores com a coloração parecida e os lobos laterais do labelo falcados (Fig. 17).

Fig. 17 - C. parviflorum. Flor.
Todavia, C. parviflorum possui pseudobulbos maiores e expostos (7-20 cm de comprimento), folhas não articuladas, inflorescência mais alta e freqüentemente ramificada, (0.6-1.2 m de altura e (0)2-4 ramificações laterais), flores ligeiramente maiores e os lobos laterais do labelo mais longos (8-10 mm de comprimento). Adicionalmente, C. parviflorum ocorre em locais úmidos e quando encontrado em locais mais secos, geralmente são solos arenosos sob vegetação de campo rupestre, não sendo nunca encontrado em latossolo vermelho-argiloso em vegetação de cerrado típico.
A cor das flores do C. brunneum é relativamente constante (Figs. 6a-b), especialmente quando comparado com outras espécies como C. braemii L.C.Menezes e C. pallidum Rchb.f. & Warm., que são altamente variáveis no padrão de coloração. Todavia, C. brunneum é extremamente variável quanto à morfologia do labelo (Fig. 1, E. a-e), particularmente do lobo mediano e, provavelmente, trata-se de uma das espécies mais variáveis no gênero para esta característica.
Até onde foi possível averiguar, C. brunneum foi coletado pela primeira vez durante os trabalhos da Comissão Geológica e Geográfica de Minas Gerais, em Campanha, no sul do estado, em 1896 e posteriormente por Ezechias Heringer em 1958.
Cyrtopodium brunneum não é uma espécie incomum;entretanto, os pseudobulbos enterrados
Fig. 6a - C. brunneum. Flor
Fig. 6b - -C. brunneum. Flor
e plantas pequenas crescendo encobertas pela cobertura graminosa, tornam a localização dos indivíduos, no campo, uma tarefa difícil. As plantas são mais facilmente localizadas quando em floração em áreas anteriormente queimadas. A distribuição conhecida da espécie inclui os estados de Goiás, Mato Grosso, Minas Gerais e o Distrito Federal, que compreendem as porções central, centro-oeste e sudeste do Cerrado brasileiro. Baseado nessa distribuição é esperado que a espécie também ocorra na região de cerrado do Tocantins e oeste da Bahia.



Cyrtopodium brandonianum Barb.Rodr., Gen. Sp. Orchid. 1: 132. 1877. Typus: BRASIL. Minas Geraes, Capivary, Barbosa Rodrigues s.n. (Nenhum material original é conhecido. Tipificado por Cribb & Toscano de Brito, 1996: 1: 30. Ilustração original de Barbosa Rodrigues reproduzida por Sprunger, 1996: 1: 332).

Cyrtopodium gonzalezii L.C.Menezes in Boletim CAOB 6(1): 9. 1995. Typus: BRASIL. Distrito Federal, península do Lago Norte, 9 Nov. 1994, L. C. Menezes UB-54 (HOLOTYPUS: UB).



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