Cattleyella Van den Berg & M. W. Chase, Boletim CAOB 52 – 99:101



A subtribo Laeliinae foi proposta por Bentham (1881), remodelada por Pfitzer (1889), e continha, no sistema de Dressler (1993), 45 gêneros. Embora outro sistema proposto (Szlachetko, 1995) tenha dividido a subtribo em três subtribos (Laeliinae, Epidendrinae e Ponerinae), estudos moleculares recentes (van den Berg et al., 2000; van den Berg et al., 2002) confirmaram a inclusão da maioria dos gêneros do sistema de Dressler (1993). Foram excluídos apenas Dilomilis e Helleriella para Pleurothallidinae e Ponera e Isochilus para Ponerinae (que têm, com base em DNA, uma composição bastante distinta da proposta por Szlachetko). Além disso, dados moleculares mostram que Arpophyllum e Meiracyllium (membros de outras subtribos no sistema de Dressler) também são parte de Laeliinae. Dentro da subtribo a variação de DNA é pequena, o que dificulta agrupamentos detalhados, mas são aparentes alguns grupos principais de gêneros. Estudos recentes ainda não publicados com três regiões de DNA distintas (ITS, trnL-F e matK) sugerem a seguinte estrutura de gêneros dentro da subtribo:
a) Grupo de Pseudolaelia: este inclui principalmente gêneros brasileiros, geralmente com uma coluna curta e larga, pequenos lobos laterais e nectários na base do labelo: Isabelia (incluindo Neolauchea e Sophronitella), Pseudolaelia, Constantia, Leptotes e Loefgrenianthus. Embora não tenha sido seqüenciado, provavelmente aqui entraria também o gênero Pygmaeorchis.
b) Grupo de Encyclia: Encyclia, Artorima, Alamania, Prosthechea, Euchile, Oestlundia.
c) Grupo de Broughtonia: esta é uma pequena coleção de gêneros geralmente caribenhos: Broughtonia (inclui Cattleyopsis e Laeliopsis), Psychilis, Tetramicra, Quisqueya e provavelmente Dinema e Nidema.
d) Grupo de Scaphyglottis: estes gêneros normalmente apresentam um pé-de-coluna (mas nem todos): Scaphyglottis (inclui Hexisea, Tetragamestus, Reichenbachanthus), Dimerandra, Jacquiniella e Acrorchis.
e) Grupo de Domingoa: Domingoa (inclui Nageliella), Pinelianthe (inclui Homalopetalum).
f) Grupo de Laelia: apenas o gênero Laelia (inclui apenas as espécies mexicanas e também Schomburgkia)
g) Grupo de Epidendrum: Epidendrum, Oerstedella, Barkeria, Orleanesia e Caularthron.
h) Grupo de Cattleya: Cattleya, Brassavola, Sophronitis, Rhyncholaelia, Guarianthe e provavelmente Meiracyllium (e finalmente o novo gênero que é descrito neste artigo).


As primeiras linhagens evolutivas no grupo de Cattleya foram Meiracyllium, Rhyncholaelia e Guarianthe, o que sugere uma distribuição original no México e América Central, e depois se espalhando para a América do Sul. Estudos moleculares das espécies brasileiras anteriormente colocadas em Laelia mostram que estas formam um grupo juntamente com Sophronitis, e podem aí ser colocadas (outros autores preferiram dividí-las em diversos gêneros pequenos). Estudos no gênero Cattleya demonstram que existem outros grupos anteriormente incluídos em Cattleya que se posicionaram em posição separada deste gênero. Um destes grupos tem apenas quatro espécies e foi separado como Guarianthe (o grupo de C. skinneri, Dressler & Higgins, 2003), que apresenta morfologia floral levemente distinta, e distribuição geográfica na América Central, enquanto o restante do gênero é essencialmente sul-americano. Outras duas espécies que não se encaixam bem são C. araguaiensis e Cattleya maxima. Enquanto a última tem morfologia similar ao grupo de C. labiata e ainda se encontra em estudo, Cattleya araguaiensis apresenta uma morfologia única. Ao descrever esta espécie, Pabst (1967) optou por colocá-la em Cattleya devido à existência de quatro polínias. Entretanto detalhes da coluna, especialmente duas aurículas unciformes apontadas para cima, e também o formato da antera, não são encontrados em nenhum gênero do grupo de Cattleya. Seus caracteres vegetativos, por outro lado, sugerem neotenia (quando o indivíduo atinge a fase reprodutiva apesar de haver um retardamento no desenvolvimento da parte vegetativa) pois os pequenos indivíduos desta espécie poderiam ser facilmente confundidos com indivíduos jovens de Cattleya, Guarianthe ou Sophronitis s.l.. Assim sendo, decidimos por separar esta espécie em um gênero novo devido ao seu isolamento morfológico e evolutivo. O labelo de C. araguaiensis não é tão trilobado como as espécies de Cattleya do grupo bifoliado e apresenta uma margem lisa sem ondulações, lembrando mais o labelo de Guarianthe do que das espécies de Cattleya unifoliadas. Pabst (1967) descreveu C. araguaiensis do município de Pium, norte da Ilha do Bananal, hoje no estado do Tocantins, mas esta espécie também tem sido coletada em uma área razoavelmente grande no sul do Pará.

Cattleyella Van den Berg & M. W. Chase Boletim CAOB 52 – 99:101

Plantae epiphyticae pseudobulbis cylindricis internodiis tribus amplitudine dissimilibus, folium unum anguste ellipticum, inflorescentia uniflora vel raro biflora cum spatha. Sepala petalaque similia ex bruneo viridiflava. Labellum fere indivisum lobis lateralibus columnam involventis et lobis terminalibus ad marginem integris. Columna cum auriculis duobus unciformibus, anthera galeata. Pollinia 4 caudiculata.

Typus:
Cattleyella araguaiensis (Pabst) Van den Berg & M. W. Chase (Cattleya araguaiensis Pabst)

Descrição:
Plantas epífitas, pseudobulbos aproximadamente cilíndricos, geralmente com três entrenós de tamanhos diferentes, uma folha estreitamente elíptica. Inflorescência uniflora ou raramente biflora, dotada de espata. Sépalas e pétalas similares, verde-amareladas matizados de marrom. Labelo pouco dividido com lobos laterais envolvendo a coluna e lobo terminal de borda lisa. Coluna com duas aurículas unciformes. Antera galeiforme. Polínias 4, com caudículos.

Cattleyella araguaiensis (Pabst) Van den Berg & M. W. Chase
Boletim CAOB 52 – 99:101
Basiônimo: Cattleya araguaiensis Pabst in Orquídea 29: 9 (1967).

Cattleyella araguaiensis f. alba (L. C. Menezes) Van den Berg & M. W. Chase.
Boletim CAOB 52 – 99:101
Basiônimo: Cattleya araguaiensis var. alba L. C. Menezes in Schlechteriana 2: 75 (1991).
A combinação infraspecífica foi originalmente descrita com o status de variedade, mas corretamente realocada para forma por Christenson (1996), e assim mantida em Cattleyella.


Literatura Citada:

BENTHAM, G. 1881. Notes on orchideae. The Journal of the Linnean Society 18: 281-360.

CHRISTENSON, E. A. 1996. Notes on Neotropical Orchidaceae II. Lindleyana 11: 12-26.

DRESSLER, R. L. 1993. Phylogeny and classification of the orchid family. Dioscorides Press, Portland.

DRESSLER, R. L. e HIGGINS, W. E. 2003. Guarianthe, a generic name for the “Cattleya skinneri" complex. Lankesteriana 7: 44-46.

PABST, G. F. J. 1967. Additamenta ad orchidologiam brasiliensem – VIII. Orquídea 29: 5-22.

PFITZER, E. 1889. Orchidaceae. Páginas 52-222 in ENGLER, A. e PRANTL, K. (eds.) Die Natürlichen Pflanzenfamilien Ergänzungsheft.

SZLACHETKO, D. L. 1995. Systema Orchidalium. Fragmenta Floristica et Geobotanica Suppl. 3: 1-152.

VAN DEN BERG, C.; HIGGINS, W. E.; DRESSLER, R. L.; WHITTEN, W. M.; SOTO ARENAS, M. A.; CULHAM, A.; CHASE, M. W. 2000. A phylogenetic analysis of Laeliinae (Orchidaceae) based on sequence data from internal transcribed spacers (ITS) of nuclear ribosomal DNA. Lindleyana 15: 96-114.

VAN DEN BERG, C.; HIGGINS, W. E.; DRESSLER, R. L., WHITTEN, M. W., CULHAM, A., CHASE, M. W. 2002. Molecular systematics of the Laeliinae. Páginas 170-176 in CLARK, J.; ELLIOTT, W. M.; TINGLEY, G.; BIRO, J. Proceedings of the 16th World Orchid Conference (Vancouver). Vancouver Orchid Society, Vancouver.


* Dr. Cássio van den Berg
Professor Titular, Depto. de Ciências Biológicas, Universidade Estadual de Feira de Santana
BR116 km3, 44031-460 - Feira de Santana, BA, Brasil
e-mail: vcassio@gmx.de

** Dr. Mark W. Chase
Jodrell Laboratory, Royal Botanic Gardens,
Kew, Richmond, Surrey TW9 3DS, England


Os editores do Boletim CAOB (na página 2, do número 53), em razão da publicação feita no número 52, sobre a nova combinação nomenclatural Cattleyella, informam abaixo os seus sinônimos, o último deles descrito na revista Richardiana Vol. IV (2), de abril de 2004. Isso se deve ao fato da precedência da publicação brasileira.

Cattleyella araguaiensis (Pabst) Van den Berg & W. M. Chase
sinonímia: Cattleya araguaiensis Pabst
Brassocattleya araguaiensis (Pabst) H. G. Jones
Schluckebieria araguaiensis (Pabst) Braem

Foto: Marco Campacci

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