Uma espécie recentemente descoberta para o Espírito Santo, Brasil.




Palavras-chave: Brasil, Espírito Santo, Mata Atlântica, Orchidaceae, Pseudolaelia.




Este artigo descreve Pseudolaelia pavopolitana M. Frey, uma espécie oriunda das montanhas do norte do Espírito Santo, Brasil, a menor do gênero e que se diferencia bastante das espécies vizinhas, em particular da Pseudolaelia dutrae Ruschi, também encontrada nestas mesmas montanhas. Apresentamos uma comparação desta espécie com a última e também as informações sobre sua ecologia e distribuição geográfica. Este artigo foi publicado na revista Richardiana Vol V (4), de setembro 2005 nas páginas 203 a 209.


Introdução
Diversas espécies novas foram descritas recentemente para o gênero Pseudolaelia Pôrto & Brade. Elas todas foram encontradas no Espírito Santo, este pequeno estado do sudeste brasileiro que se estende desde o nível do mar até as mais altas montanhas da região (perto de 3.000 m de altitude) e apresenta, por este fato, uma reconhecida biodiversidade. A parca distribuição (até hoje) de todas estas espécies confirma a elevada taxa de endemismo sublinhada por Porembski et al. (1998). A espécie aqui apresentada é um bom exemplo uma vez que ela só foi encontrada em dois inselbergs nas proximidades de Vila Pavão, pequena cidade que lhe deu o nome. O presente trabalho descreve esta espécie, compara-a com a espécie encontrada sobre os mesmos inselbergs e fornecer informações sobre sua ecologia e sua distribuição geográfica.

Pseudolaelia pavopolitana M. Frey
Richardiana Vol V (4) Septembre 2005 - 203:209

Planta herbacea, lithophila, in genere minima, sciaphila, in scopulis lichenibus tectis versus meridiem orientatis incola, pseudobulbis distantibus, inflorescencia raro paniculata, floribus cum sepalis petalisque viridibus, labello trilobato roseo et in medio candido, labelli lobis lateralibus apicem versus contortis.

TIPO : Brasil, Espírito Santo, Vila Pavão, Morro do Cruzeiro, 18° 39’ S, 40° 33’ W, alt. 350 m aproximadamente, coletada em 2004 (com flores) por M. Frey & L.C.F. Perim, M. Frey 672 (holótipo : MBML, n°24007) ; isótipo (LY) coletado em maio 2005 (com flores) por M. Frey & L.C.F. Perim, M. Frey 851.

Descrição
Rizoma de 2,5 a 3 mm de diâmetro, com 2 cm de distância entre os pseudobulbos, revestido de bainhas escariosas, aplicadas, imbricadas, violáceas, 5 a 6 entrenós, pouco ramificado; raízes numerosas, esbranquiçadas, nascendo em todos os pontos do rizoma, simples, com até 15 cm de comprimento; pseudobulbos ovóides, eretos, 2 cm de altura e 1 cm de largura, um pouco achatados lateralmente, 4-5 entrenós, recobertos de bainhas escariosas no primeiro ano, em seguida desnudos, violáceos e multisulcados, com duração de 5-6 anos; folhas de 2-3, com até 8 cm de comprimento e 5 mm de largura, dísticas, nascendo no ápice do pseudobulbo, lineares, com base cingindo a inflorescência, extremidade aguda, dobradas longitudinalmente sobre a nervura central, bastante recurvadas, verde-escuras, glabras, margens lisas, nervura central translúcida; inflorescência podendo atingir 25 cm de comprimento, em geral simples, raramente ramificada, nascendo entre as folhas no ápice do pseudobulbo, até 8 (10) flores se abrindo sucessivamente; pedúnculo de até 15 cm, ereto, cilíndrico, diâmetro de 0,6-0,8 mm, púrpura bastante escuro, revestidos de 6-8 bainhas escariosas, inicialmente imbricadas, depois mais espaçadas, comprimento decrescente de 20 mm a 6 mm; ráquis até 10 cm de comprimento, um pouco arqueado, cilíndrico, diâmetro de 0,4-0,5 mm, púrpura intenso; brácteas estendidas, triangulares agudas, 3 mm de comprimento, marrom claro; pedicelo estendido, com até 15 mm com o ovário, diâmetro de 0,3 mm, ocre claro, ovário de 5 mm × 0,5 mm, verde; flor no tamanho de 16 mm, largura de 20 mm e profundidade de 8-10 mm, bem aberta, horizontal ou ligeiramente nutante; sépalas com 10 mm de comprimento, 3 mm de largura, linear-ovais, extremidade aguda, verde claro ligeiramente amarelada, sépala dorsal um pouco côncava, as laterais estendidas, glabras, margens lisas, 3 nervuras bem visíveis; pétalas com 10 × 1 mm, linear-oblongas, extremidade obtusa, estendidas, verde-claras ligeiramente amareladas, glabras, margens lisas; labelo com 8-9 × 4 mm, trilobado, colado à coluna até a metade desta, formando na parte de trás, com as sépalas laterais, um nectário hemisférico verde, com, aproximadamente 1,5mm de diâmetro, colado ao ovário, os lobos laterais envolvendo um pouco a coluna, com o comprimento de 2,5-3 mm, largura de 0,4 mm, lineares com extremidade aguda retorcida, depois formando um istmo de aproximadamente 1mm de comprimento, dividido em dois calos paralelos semi-cilíndrico, ligeiramente rosas, se desenvolvendo em um lobo trapezoidal alongado de extremidade arredondada, o centro formado de 5-7 calos ligeiramente divergentes, hirsutos, branco um pouco amarelado e a periferia, rosa, fortemente ondulada, com largura de 1 mm aproximadamente; coluna de 2,5 × 1 mm, direita, verde, dilatando em duas asas terminais de margem esbranquiçada que envolvem a antera, terminal, estigma ventral; 8 polínias, amarelo ouro, sub-iguais; cápsulas com 15 mm de comprimento, elipsóides, terminando por uma ‘’tromba’’ cilíndrica que carrega os restos da flor, verdes, as linhas da deiscência vem visíveis em relevo. Ver figura 1 e fotografias.

        Fig. 1, 1a e 1b: Pseudolaelia pavopolitana M. Frey e detalhes
A: planta– B: flor aberta– C: vista lateral da flor – D: antera e polínias– E: cápsula
desenho: Marcio Lacerda obtido através do tipo


Etimologia: Seu nome se refere à cidade de Vila Pavão (norte do Espírito Santo) em cujo município a planta foi descoberta.

Habitat e Distribuição geográfica
Pseudolaelia pavopolitana cresce numa área de aproximadamente 100 m² no lado exposto ao sul da Pedra do Cruzeiro, um inselberg granítico dos arredores de Vila Pavão, uma cidade do Norte do Espírito Santo. Ela cresce numa falésia bastante vertical coberta de líquens aos quais suas raízes se agarram. Devido à posição, as plantas raramente vêem o sol, só brevemente durante o pico do verão. No mesmo afloramento granítico, outras espécies são encontradas tais como Pseudolaelia dutrae Ruschi (em abundância) e Encyclia spiritusanctensis Menezes, consorciadas às Bromeliaceae (Dyckia sp, Alcantarea sp), Velloziaceae (Nanuza plicata J.B. Smith & Ayensu, Vellozia sp) e cactus. A Pseudolaelia pavopolitana também foi encontrada em outros morros nos arredores de Vila Pavão. Um amador da Vila Pavão, Neimar Magewiski, nos apresentou uma planta da mesma espécie, coletada no inselberg vizinho, Pedra da Prancha.

Discussão

Esta Pseudolaelia se distingue por ser a de menor tamanho entre as menores espécies conhecidas até agora (P. citrina Pabst e P. maquijiensis M. Frey). Mas ela difere das espécies do gênero conhecidas por muitas particularidades. Primeiramente, por seu habitat, em uma falésia posicionada em direção ao sul não recebendo praticamente nunca o sol. Também diferencia-se das Pseudolaelia de flores amarelas ou verde-amarelas (P. canaanensis, P. citrina e P. maquijiensis) e das Pseudolaelia de flores rosa e branco (P. brejetubensis, P. cipoensis, P. corcovadensis, P freyi, P. geraensis, P. irwiniana, P. vellozicola e P. x perimii) por ter flores tricolores (pétalas e sépalas verdes-amarelas, labelo rosa e branco). Se quisermos encontrar, de qualquer maneira, um ponto em comum com uma espécie já escrita, nos poderíamos salientar os lobos laterais do labelo muito estreitos e terminando em ponta aguda e enrolada, particularidade que a Pseudolaelia pavopolitana tem em comum com a Pseudolaelia dutrae Ruschi, que, aliás, é bem diferente sob todos os aspectos! Podemos também salientar que o nectário prolonga o labelo para trás e o que acontece também com a P. brejetubensis M. Frey sendo ainda mais desenvolvido.

Bibliografia
Chiron, G. & V.P. Castro Neto, 2004. Une nouvelle espèce de Pseudolaelia (Orchidaceae ; Laeliinae ) d’Espirito Santo, Richardiana IV(4) : 155-162.
Frey, M.,2003. Pseudolaelia brejetubensis M. Frey (Orchidaceae) uma nova espécie do Espírito Santo, Brasil, Bradea,9(8) 33-36.
Frey, M., 2005. Pseudolaelia maquijiensis M. Frey, une nouvelle espèce d’Orchidaceae de l’Espirito Santo, Brésil, Richardiana V(1) : 39-45.
Frey, M., 2005. Pseudolaelia ×perimii M. Frey, (Orchidaceae) un hybride naturel nouveau de l’Espirito Santo, Brésil, Richardiana V(3) 158-164.
Pabst, G.F.J. & F. Dungs, 1975. Orchidaceae brasilienses, vol 1, K Schmersow, Hildesheim.
Porembski, S., G. Martinelli, R. Ohlemüller & W. Barthlott, 1998. Diversity and ecology of saxicolous vegetation mats on inselbergs in the Brazilian Atlantic rainforest, Diversity and distribution, 4 : 107-119.
Withner, C. L., 1993. The Cattleyas and their relatives,vol III, 105-109, Timber Press, Portland, USA.

Agradecimentos
Ao Luiz Carlos Feitosa Perim, que descobriu a planta aqui descrita e de permanente parceria na organização de nossas expedições.
Ao Neimar Magewiski que conhece muito bem a flora das orquídeas de Vila Pavão.
Ao Izaias Tressmann, que como proprietário da Pedra do Cruzeiro, tem a responsabilidade da preservação do habitat.


Fotografias: Michel Frey
Desenhos em preto e branco: Márcio Lacerda, Vitória


 


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