Artigo originalmente publicado em Richardiana Vol IV(4) -2004 - 156:162
Espécie recentemente descrita para o estado do Espírito Santo (Brasil)





Palavras-chave:
Brasil, Espírito Santo, Mata Atlântica,
Orchidaceae
, Pseudolaelia, P. dutrae, P. freyi.


Uma Nova espécie de Pseudolaelia (Orchidaceae: Laeliinae) do Espírito Santo

Resumo
Este artigo descreveu, sob o nome de Pseudolaelia freyi, uma nova espécie que ocorre nas montanhas do Espírito Santo, Brasil, relacionada com P. dutrae Ruschi com qual é comparada. Foram apresentadas informações sobre sua ecologia e distribuição geográfica.

Withner (1993) enumerava e apresentava sete espécies dentro do gênero Pseudolaelia Porto & Brade; posteriormente, Barros (1994) transferiu para este gênero Renata canaanensis Ruschi, sob o nome de P. canaanensis (Ruschi) Barros; muito recentemente, uma nova espécie, P. brejetubensis M. Frey, foi descrita (Frey, 2003). Todas estas espécies estão restritas aos estados do estado brasileiro: elas são encontradas, principalmente nos estados do Espírito Santo e de Minas Gerais, e, em menor escala, nos estados do Rio de Janeiro e da Bahia (Pabst & Dungs, 1975). O relevo destas regiões é caracterizado, freqüentemente, por apresentar inselbergs graníticos, inseridos dentro da Mata Atlântica, distribuidos de maneira irregular e dotados de uma vegetação de características xerófitas e de alto endemismo (Porembski et al., 1998). Um exemplo deste endemismo para o gênero Pseudolaelia pode ser dado pela P. citrina Pabst, só encontrada, até os nossos dias, na face norte de um des inselbergs, a uma altitude de 1 200 m, nas imediações de Imbiruçu, Mutum, Minas Gerais, próximo da divisa com o estado do Espírito Santo.
É sobre um destes inselbergs que Michel Frey, explorador infatigável das altitudes deste estado, descobriu em 2001, uma planta que, após análise, concluiu-se se tratar de uma espécie nova Pseudolaelia. O presente trabalho descreveu e a comparou com a espécie mais próxima, P. dutrae e fornecer informações sobre sua ecologia e sua distribuição geográfica.

Pseudolaelia freyi Chiron & V.P. Castro
Ricardiana Vol IV(4) -2004 - 156:162
Planta herbacea Pseudolaelia dutrae Ruschi affinis, sed omnino minor, pseudobulbis brevioribus tenuioribusque, foliis angustioribus, inflorescencia nunquam majore quam 70 cm nec paniculata, floribus usque ad 20 (25) mm diametiente, saepe albidis, labelli lobis lateralibus usque ad 2mm latis et columnam involventibus, lobo mediano sulphureo suffuso, cum margine rosea angusta.

Tipo : Brasil, Espírito Santo, Brejetuba, Monte Feio, 20° 10’ 35’’ à 20° 11’ 15’’ S, 41° 16’ 45’’ à 41° 17’ 15’’ W, altitude 1 100-1 400 m, juin 2004, M. Frey & L.C. Perim 702 (holótipo : MBML, n°22467).
Isótipos : M. Frey & L.C. Perim 704 (LY) et M. Frey & L.C. Perim 706 (MBML, n°22468). espécimes de flores rosas foram também depositadas : M. Frey & L.C. Perim 703 & 707 (MBML, n°22469 & 22470), M. Frey & L.C. Perim 705 (LY) ; todas coletadas em junho de 2004 no mesmo local.

Descrição
Epífita vegetando sobre Nanuza plicata L.B. Smith & Ayensu (Velloziaceae) ou sobre outras Vellozia Vandelli encontradas ; planta ereta, de 30-70 cm de altura. Rizoma semi-rampante, ondulado, rígido, 5-6(7) mm de diâmetro, pseudobulbos (3)5(7) cm distantes, 6-10 entrenós, recobertos de bainhas escariosas, apressas, de curta duração. Raízes finas, aproximadamente 1 mm de diâmetro, brancas, nascendo em número de 2 ou 3 em cada entrenó do rizoma. Pseudobulbos fusiformes, (5)7(8) cm de altura, 15-20(25) mm de diâmetro, compostos de 6 entrenós, ligeiramente achatados, revestidos de bainhas fugazes, verdes, lisas, em seguida multisulcadas. Folhas 4-5(6), inseridas na parte apical do pseudobulbo, dísticas, estendidas, chegando 18 cm de comprimento sobre 1,5 cm de largura, a base envolvendo o pedúnculo, linear-lanceoladas, coriáceas, de ápice agudo e ligeiramente assimétricas, 7-9 nervuras translúcidas, a mediana ultrapassando o lado abaxial, um pouco dobradas no comprimento, glabras, a margem membranosas e finamente dentadas. Inflorescência com pedúnculo podendo atingir 60 cm de altura, 2,5 mm de diâmetro na base, púrpura, com seção ligeiramente achatada, revestidas de 9-10 bainhas imbricadas, escariosas, apressas, aguda no ápice, ligeiramente carenadas para o alto; raque com até 6 cm de altura e 1,5 mm de diâmetro, às vezes com uma ramificação, excepcionalmente com duas, freqüentemente um pouco tardia, carregando até 15 flores no eixo principal, e 5-6(8) sobre cada ramificação. Brácteas florais triângulo-agudas, com 2,5 mm de comprimento, marrons, eretas. Ovário pedicelado com até 20 mm de comprimento (ovário 8 mm), diâmetro 0,6 mm, sub-perpendiculares ao eixo, branco rosa tornando-se verde púrpura ao nível do ovário. Flores bem abertas, estendidas ou ligeiramente nutantes. Sépalas branco-cremes no interior, geralmente um pouco rosadas no exterior, chegando a 18 mm de comprimento por 4 mm de largura, glabras, com margens lisas, a dorsal ob-oval alongada, recurvada, com 5-7 nervuras, as laterais ab-longas, ligeiramente falciformes, côncavas, sub-retangular-apiculadas no ápice. Pétalas 18-20 mm de comprimento por 3 mm de largura , linear-oblongas, claramente falciformes, um pouco recurvadas no ápice, sub-retas, glabras, com margens lisas, com 3 nervuras um pouco verdes. Labelo podendo atingir 17 mm de comprimento por 11 mm de largura a nível dos lobos laterais estendidos, e de 10 mm a nível do lobo mediano, soldado à coluna até a metade desta última, trilobado, composto de um ungüículo soldado à coluna , com 3 mm de comprimento; dois lobos laterais lineares com bordas paralelas , 5-7 mm de tamanho e 1,2-2,0 mm de largura, fazendo um ângulo de 45° com o eixo, encurvados, envolvendo a coluna, branco-creme, com extremidade aguda, um pouco dentada e marcada com uma linha violeta; e finalmente um lobo mediano com um istmo comprido, amarelo enxofre claro, se abrindo em trapézio para frente por 4 mm, com bordas recurvadas, coberto com dois calos paralelos, de seção semi-cilíndrica, glabras, depois se alargando em forma trapezoidal invertida, trunco-retusos no ápice, igualmente amarelo-enxofre claro, os calos do ungüículo se transformando em 9 linhas mais ou menos divergentes, serrilhadas, com uma margem membranosa, um pouco ondulada e fortemente crispada, dando a impressão de uma margem serrilhada, com mácula violeta na cavidade mediana e, sobre certos espécimes, uma faixa estreita violeta mais ou menos descontínua no interior de um círculo branco. Coluna com 6 mm de comprimento, 1 mm de largura na base e se alargando até 2 mm, verde, se abrindo em duas asas arredondadas para baixo e em ponta aguda para frente, de uma parte e de outra do estigma; este último em forma de V aberto, para frente, verde com borda púrpura ; antera púrpura escura, muito ligeiramente bigibosa ; 8 políneas, amarelo-ouro, discóides, achatadas, sub-iguais. Ver fotografias.

Etimologia
Em homenagem a Michel Frey, descobridor desta planta e especialista no gênero Pseudolaelia.


detalhe

Habitat e distribuição geográfica
P. freyi é encontrada em uma área de aproximadamente 20 ha sobre o inselberg de Monte Feio (Brejetuba, Espírito Santo) assim como sobre uma superfície um pouco maior do inselberg vizinho. Ela ocorre de forma simpátrica com P. canaanensis (Ruschi) Barros e P. brejetubensis M. Frey, que não são encontradas nas proximidades imediatas. Acredita-se que ocorra exclusivamente sobre Velloziaceae, numerosas nestes inselbergs, é interessante observer que parece ter uma preferência pela a espécies Nanuza plicata. Ela evita todas as zonas eutrofisadas e, particularmente, aquelas onde se desenvolvem as Poaceaes e, mais ainda, onde se encontra a vegetação lenhosa. Floração de abril a julho.


Discussão
Esta espécie é próxima de P. dutrae Ruschi mais se distingue facilmente pelo porte mais modesto (30-70 cm versus 50-120 cm), seu rizoma alongado (3-7 cm versus 8 cm), suas inflorescências raramente ramificadas (aliás com uma, excepcionalmente duas, ramificações tendo geralmente um desenvolvimento mais tardio do que a haste principal) e claramente menos floridas (máximo de 25 flores versus 120), e por seu labelo caracterizado pela cor amarelo enxofre (versus branco puro) do ungüículo, a pequena superfície de vestígios violeta na extremidade, seu calo dividido em cristas na metade de seu comprimento (versus a extremidade) e seus lobos laterais mais largos e mais curtos (cerca 6 - 1,8 mm versus 9 - 1 mm, ou seja uma relação de forma de 3,3 versus 9), lingüiformes e recurvadas em torno da coluna (versus triângulo-afilados, estendidos, amassados no ápice). Observemos, finalmente, que P. freyi cresce a 1 100-1 400 m de altitude e P. dutrae a 400-700 m.

Plantas bastante semelhantes à P. freyi mas produzindo flores rosas são encontradas em menor proporção, mas bastante significativas entre as plantas de flores brancas. Elas florescem na época e nosso primeiro reflexo foi de considerar como uma espécie de cor variável ainda que majoritariamente branca. Um exame posterior, mais minucioso, revelou certas diferenças de detalhe entre os tipos de planta que dão a impressão de formar duas populações distintas. Mas, para confirmar deste último hipótese e estabelecer uma certeza na existência de dois grupos disjuntos de plantas, é necessário um estudo morfológico extensivo baseados em um grande número de espécimes, forçosamente transferido para a próxima floração. Enquanto esperamos, é mais prudente considerar as plantas de flores rosas como uma simples variedade da P. freyi.

Bibliografia
- Barros, F., 1994. Novas combinações, novas ocorrências e notas sobre espécies pouco conhecidas para as orquideas do Brasil. Acta Botanica Brasilica 8(1):11-17.
- Frey, M., 2003. Pseudolaelia brejetubensis M. Frey (Orchidaceae), uma nova espécie do Espírito Santo, Brasil. Bradea 9(8):33-36.

Foto: Michel Frey
Ilustração: Luca Fontani

 

 


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