uma espécie de Orchidaceae descrita para o Espírito Santo, Brasil, em Richardiana VI(I) Janvier 2006
(adaptação do original de Michel Frey)

Palavras-chave : Brasil, Espírito Santo, Mata Atlântica, Myoxanthus, M. lonchophyllus, M. punctatus, M. seidelii, Orchidaceae.

Resumo
O artigo descreveu Myoxanthus conceiçoensis M. Frey & N. Sanson, uma espécie oriunda do Espírito Santo, Brasil, relacionada com as espécies M. lonchophyllus (Barbosa Rodrigues) Luer, M. punctatus (Barbosa Rodrigues) Luer, M. seidelii (Pabst) Luer com quais é comparada. São incluídas informações sobre sua ecologia e distribuição geográfica.

Introdução
O gênero Myoxanthus Poeppig & Endlicher teve uma história movimentada. Logo após seu estabelecimento, em 1835, para a espécie Myoxanthus monophyllus (Colômbia, Equador, Peru), este último táxon foi, quase que imediatamente, transferido por Lindley para o gênero Pleurothallis R. Brown. Mais tarde, Karsten descreveu uma espécie sob o nome de Duboisia reymondi (Colômbia, Equador, Venezuela), hoje Myoxanthus reymondii. Seis anos depois, Reichenbach a transferiu também para o gênero Pleurothallis. Em 1882, Barbosa Rodrigues descreveu sob uma espécie sob nome de Chaetocephala punctata (hoje em dia, Myoxanthus punctatus) que foi, por sua vez, transferido por Cogniaux para Pleurothallis.
Na verdade, foi Carl Luer que, em 1982, dentro de sua monumental obra sobre Pleurothallidinae, ressuscitou o gênero agrupando 38 espécies conhecidas até aquela data, às quais se juntou uma dezena de espécies mais recentemente descobertas. São habitantes típicos de floresta tropical densa, com uma distribuição geográfica bipolar, estando a maior parte das espécies encontradas entre a Bolívia e o México com uma pequena extensão em direção à Venezuela e às Guianas, enquanto um grupo pequeno (8 espécies) é brasileiro. No Espírito Santo, polo de diversidade biológica, há, atualmente, 5 espécies registradas, entre elas, Myoxanthus ruschii C.N. de Fraga & L.J.C. Kollmann, descrita em 2003.
A descoberta de uma nova espécie não é, deste modo, uma coisa totalmente improvável e esta apresentada aqui foi descoberta por Nelson Sanson, um amador muito observador e competente de Conceição do Castelo que percorre incansavelmente aquelas poucas florestas que resistem dentro do seu município, situado na parte relativamente baixa das montanhas do Espírito Santo. Esta espécie se distingue das outras, antes de tudo, por seu tamanho pequeno e nesta característica se compara ao Myoxanthus ruschii, mas se distingue sobretudo das outras espécies conhecidas do gênero pelo colorido violeta de suas flores, enquanto que a cor castanha, na falta do branco, parece ser a regra do gênero.


Planta herbacea, epiphyta, in genere parva, Myoxanthus lonchophyllus, punctatus vel seidelii affinis sed manifeste minor, folia maxime 10 cm longa cum marginibus nervo medianoque atropurpureis, floribus fasciculatis succedaneis nutantibus et lilaceis, labello 5,5 mm longo, 2 mm lato, antice canaliculato, postice cum marginibus recurvatis,saccum sphaericum atropurpureum nitensque formantibus, columna 3,5 mm longa, recta, pede mentum 1,5 mm formante, rosacea 5-plo roseolineataque.

Tipo : Brasil, Espírito Santo, Conceição do Castelo, Cachoeira da Fumaça, latitude 20° 22’ 40’’ S, longitude 41° 15’ 00’’ W, altitude 620 m, junho 2003 (flores), Nelson Sanson s.n. ex M. Frey 531 (Holótipo: MBML, Isótipo : M. Frey 531 : LY, mesma planta).

Descrição
Planta herbácea, epífita de floresta, ereta, com altura de 15-18 (20) cm. Rizoma cilíndrico, diâmetro de 3 mm, ligeiramente rampante (3-6 mm entre ramicaules), recoberta de bainhas híspidas ; raízes marrom-amareladas, até 10 cm de comprimento, com, aproximadamente, 1 mm de espessura; ramicaules eretos, 4-8 cm de altura, 1,2 mm de espessura, 4-articulados, recobertos de bainhas imbricadas guarnecidas de tricomas marrons ; folha ereta, coriácea, com 7-10 cm de comprimento, largura de 9-10 mm, espessura de 2 mm, estreitamente lanceolada, base cuneiforme, extremidade aguda, verde oliva com margens e nervuras central purpúreas, glabra, margens lisas ; inflorescência emergindo de uma espata mínima, composta de flores fasciculadas sucessivas, geralmente uma, às vezes, 2 ao mesmo tempo ; bráctea muito pequena, pedúnculo de 12-15 mm de comprimento, filiforme, pendente, glabro, ligeiramente purpúreo; pedicelo com 2 mm de comprimento; ovário com comprimento de 3 mm e diâmetro de 0,6-0,8 mm ; flor nutante, cor geral rosa lilás; sépala dorsal com comprimento de 8 mm, largura de 3 mm, obovalada, convexa, de extremidade obtusa, glabra, margens lisas e ligeiramente recurvadas, rosa claro translúcidas com 5 linhas longitudinais púrpuro-escuras ; sépalas laterais soldadas até 2/3, com comprimento de 8 mm, largura de 3 mm, ovais, convexas, extremidade retangular e apiculada, glabras, margens lisas, mesma cor da dorsal ; pétalas com comprimento de 8,5-9 mm, com largura de 1 mm, filiformes et retas, com a base um pouco alargada e a extremidade espessa, rosa-claro translúcida com 3 linhas longitudinais em púrpura escuro e margens recurvadas em direção ao meio, extremidade rosa- violeta ; labelo com comprimento de 5,5 mm, largura de 2 mm, a princípio caniculado, depois as margens se recurvam para formar uma bolsa esférica brilhante púrpura-escura, embaixo rosado com linhas púrpuro-escuras ; coluna com 3,5 mm de comprimento, 1,5 mm de largura, reta, o pé formando um mento de 1,5 mm, as laterais formando asas pouco salientes, rosas-claro e estriadas de 5 linhas rosas mais escuras; antera amarelo-enxofre. Ver desenhos 1 e fotografia.


Fig. 1 : Myoxanthus conceiçoensis M. Frey & N. Sanson
A : planta – B & C : flor – D : segmentos florais – E : coluna e labelo
F : labelo– G : entera - H : polínias
desenho de Josiene Rossini a partir do tipo

Etimologia
O nome específico é uma homenagem ao Município de Conceição do Castelo, onde a planta foi descoberta e também cidade natal de Nelson Sanson.

Habitat e distribuição geográfica
Myoxanthus conceiçoensis foi encontrada no ano de 2003, por Nelson Sanson, morador de Conceição do Castelo e atento conhecedor das orquídeas da região, numa pequena área remanescente de floresta tropical densa, em uma das relíquias de Mata Atlântica que ainda resistem na região, às margens do Rio São João de Viçosa, no local conhecido como Cachoeira da Fumaça. A planta se mantinha no tronco de uma arvore a uma altura de aproximadamente 3 metros do solo. Há informações de que ela seja também conhecida no norte do estado do Espírito Santo (Pedro Canário) e mais perto da capital, Vitória. O Herbário do Museu de Biologia Mello Leitão em Santa Teresa guarda em seu acervo a exsicata de uma planta coletada no ano de 1986, por Hélio Q. B. Fernandes, na Fazenda São Joaquim no citado município. Na oportunidade, não foi totalmente identificada e que agora é considerada Myoxanthus conceiçoensis. Essa planta é rara na região. As condições climáticas do lugar são: medianamente quente, devido à altitude de 620 m, úmido sem excesso, bastante sombreado. Sua floração principal ocorre em junho, ou seja, princípio do inverno, mas parece ser capaz de florir de tempos em tempos, fora deste período.

Discussão
As espécies com as quais se justifica uma comparação são Myoxanthus lonchophyllus, Myoxanthus punctatus e Myoxanthus seidelii. Myoxanthus conceiçoensis se distingue das espécies citadas por seu porte pequeno raramente ultrapassando 18 cm, enquanto que as três primeiras são grandes (altura das plantas adultas: 25 à 40 cm). As folhas de M. seidelii são resistentes e coriáceas, com uma largura que atinge 2,5cm e não são arroxeadas, enquanto que das do M. conceiçoensis raramente atinge 1 cm, além de serem verdes com margens e nervura central arroxeadas. Suas flores apresentam as sépalas e pétalas na cor rosa claro, quase translúcidas, com 3 linhas de pontos roxo-escuro transmitindo a impressão de cor lilás.
A extremidade do labelo forma uma bola hemisférica lisa e brilhante, roxa escura, o que diferencia esta planta definitivamente das espécies vizinhas onde o labelo é mais ou menos verrugoso como no Myoxanthus lonchophyllus (Barbosa Rodrigues) Luer (labelo com ápice « hispid-papillose » seg. Luer), no Myoxanthus punctatus (Barbosa Rodrigues) Luer (labelo verrugoso seg. Luer) ou no Myoxanthus seidelii (Pabst) Luer (labelo com ápice “spiculato-verrucose” seg. Luer). As demais espécies do gênero encontradas no Brasil austro-oriental têm flores geralmente de cor marrom, algumas com um pouco de amarelo ou de verde. As flores de M. lonchophyllus são marrom-amareladas pintalgada de púrpura. As de M. punctatus são verde-garrafa com pintalgado púrpura e um labelo púrpura claro na base e púrpura escuro em sua extremidade. Uma variedade bastante dispersa é mais marrom. As flores de M. seidelii são verdes e marrons, com pétalas brancas amareladas e o labelo é amarelo-alaranjado. Além disto, as flores das três espécies em comparação são grandes [sépalas 9-10 mm × 4-5 (7) mm enquanto que as desta espécie medem 8 × 3 mm].

Bibliografia utilizada pelos autores
- Barbosa Rodrigues, J., 1996. Iconographie des orchidées du Brésil, Vol I, pp 188 & 189, Friedrich Reinhardt Verlag, Basle.
- de Fraga, C.N. & L.J.-C. Kollmann, 2003. Myoxanthus ruschii (Orchidaceae) uma nova espécie da Mata Atlântica, Espírito Santo, Novon : A Journal for Botanical Nomenclature :Vol 13, N° 1, pp 49-51.
- Luer, C.A., 1992, 1997. Icones Pleurothallidinarum : Vol IX, Systematics of Myoxanthus, pp 52 & 53 , 74 & 75, Vol XV, Systematics of Trichosalpinx, pp 132,134 & 135, Missouri Botanical Garden.

Agradecimentos dos autores
A Nelson Sanson que descobriu essa planta no ano de 2003 e que, desde então, a cultiva cuidadosamente, permitindo que fossem observações em excelentes condições.
A Carl Luer que, pelos avisos e conselhos preciosos, ajudou muito confirmar a novidade desta planta.
A Claudio Nicoletti de Fraga e Ludovic J. Charles Kollmann que, tendo conhecido a exsicata do Museu de Biologia Melo Leitão, incentivou a descrição desta espécie.
A Josiene Rossini por ter feito um desenho de ótima qualidade, mesmo em condições um tanto desfavoráveis.

Agradecimento de Brazilian Orchids & Orchid News
A Guy Chiron, editor da revista Richardiana, por cedido gentilmente os arquivos e fotos para este trabalho, assim como a autorização para a sua reprodução.


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