Sou paulista da capital e moro no Rio a cerca de 17 anos. Vim fazer uma obra aqui e acabei ficando, não consegui mais voltar. Tenho 51 anos e desde garoto sempre estive envolvido com as coisas da natureza.
Apesar de ter estudado psicologia com a intenção de me especializar em psicanálise, acabei sendo paisagista. Sinto que deveria ter cursado biologia, mas agora é tarde demais.
Hoje faço jardins e me especializei na construção de recintos para animais, especialmente aves. Por mais de 35 anos mantive um criadouro de aves, primeiro em São Paulo e depois na fazenda, que chegou a ser muito grande e importante. Dediquei-me muito a isso. Há cerca de 10 anos acabei com a coleção, soltei a maioria das aves de maneira apropriada nos seus habitats naturais e as que não puderam ser soltas, eu as doei para amigos que sei que cuidam bem delas.
Resolvi então que passaria a fazer tudo o que eu não tinha podido fazer antes por falta de tempo, pois passava todo o meu tempo vago na fazenda cuidado das aves. Ledo engano... O vazio causado pela ausência das aves, o não ter pelo que estudar, aprender e pesquisar, me tornaram presa fácil para o vírus da orquidofilia e, um belo dia, acabei novamente colecionando alguma coisa e entrando no corre-corre infindável causado por se ter um hobby absorvente e intrigante.

Por que começou a cultivar orquídeas? Qual foi o momento mágico da atração?
Quando eu tinha cerca de 10 anos, fiz algumas visitas à chácara e orquidário do Ângelo Rinaldi. Ele era amigo do meu avô materno. Ao perceber o meu interesse pelas orquídeas, ele me deu algumas plantas como incentivo. De fato eu as cultivei. Construí algumas pequenas bancadas em baixo de árvores no quintal de casa e as mantive ali, posso dizer que com sucesso. Lembro-me de ter comprado uma touceira de Oncidium altissimum (Oncidium baueri) a qual, quando floriu, deu cachos tão longos que eu os amarrei juntos em forma de uma grande coroa. Lá fui eu levando pela rua aquele imenso vaso para a exposição de orquídeas do Shopping Iguatemi, perto de casa, vaso esse que acabou ganhando menção honrosa. Aos 12 anos, já iniciando na criação de aves, abandonei as orquídeas completamente, as quais foram parar nas árvores de casa e nas da casa da minha avó. Um belo dia, voltando do centro da cidade, em uma sexta feira do mês de abril de 2003, ao passar pela Rua Jardim Botânico, dou de cara com o banner da exposição que ocorria dentro do parque. Já estava quase fechando, mas resolvi entrar mesmo assim. Não pensei, pelo menos conscientemente, em comprar algum vaso de orquídea, ainda mais eu estava de motocicleta e portanto não podia carregar, mas, ao me deparar com os quiosques de venda cheios de belas flores, acabei comprando duas.


Cattleya Portia coerulea
Lembro que me encantei com uma Cattleya Portia coerulea (hoje com o nome de ‘Prima’, de primeira, e também com uma Blc. Oconee ‘Mendenhall’, ambas por serem diferentes da maioria dos híbridos expostos .ali e por terem personalidade própria. A Oconee estava de “amostra” para a venda de seedlings, o que me obrigou a voltar ao Jardim Botânico no domingo para pegá-la na hora

Blc. Oconee ‘Mendenhall’,
do desmonte da exposição. Acho que quem me vendeu ela foi o Roland Brooks, sempre muito gentil e atencioso. No domingo fui de carro e acabei trazendo algumas outras aquisições, como uma Bc Pastoral ‘Innocence’ e outros híbridos, que acabaram por formar o embrião da minha coleção atual.

Além deste, houve algum outro fator de influência (pessoa ou fato) na sua relação com as orquídeas?

No início, os meus amigos antigos e pessoas do meu relacionamento pessoal me ajudaram muto e tiveram a paciência para responder as minhas infindáveis perguntas sobre o tema. No Rio, o jardim do Dr. Etienne Bèraut, em São Conrado, o qual ajudei a fazer por mais de 20 anos, me mostrou muito do aspecto vegetativo de orquídeas botânicas, pois lá existe uma imensa coleção de belas e raras orquídeas, crescendo de forma natural nas árvores, plantadas por ele ao longo de 60 anos até o seu falecimento. Esse jardim tem hoje mais de 80 anos! Em São Paulo, tive muita ajuda do Samuel de Mello que era o meu fornecedor de plantas e amigo e também recorri ao Gerson Calore, a quem vi crescer na casa do meu amigo Sinésio, sempre envolvido em semear orquídeas quando isso era coisa rara. Ainda garoto, ele chegou a construir em casa uma capela de fluxo laminar de madeira, lembro-me bem disso. Tinha também aquela caixa com luvas internas para se enfiar os braços. Ali estava o embrião da Biorchids. Finalmente me associei à OrquidaRio, onde fiz muitos amigos que me deram muitas dicas boas. As listas de discussão da Internet resolveram o que faltava. Na parte científica, os meus mestres foram o Rolf Grantsau, ornitólogo e naturalista e o Paulo Rotter, mamólogo. Pessoas seríssimas e cientistas da velha guarda, eles me ensinaram que ciência não é aventura e que ser cientista de campo não é ser um Indiana Jones.
O método científico é aquele trabalho que pode ser reproduzido na sua totalidade por outra pessoa ou instituição, de maneira exata e idêntica ao original. É muito importante portanto, ao se compilar dados sobre as orquídeas, em fazê-lo sempre pensando que uma outra pessoa poderá algum dia usufruí-los, além de você.


Há quantos anos você cultiva orquídeas?
Há 4 anos.


Quantas plantas você possui, aproximadamente?
Cerca de 900 plantas, quase todas adultas.


Quanto tempo, por dia, você gasta cuidando de suas orquídeas?

Isso é relativo. Vou ao orquidário uma vez por semana pois ele fica em Guaratiba, que é distante, eventualmente mais de uma vez. O que eu faço é trazer para casa todas as orquídeas em botão ou floridas para fotografá-las e também as que necessitam replante e eu as replanto aqui na minha casa mesmo, na varanda do meu apartamento, onde fiz um local apropriado para isso. Dessa maneira, eu cuido delas nos intervalos do trabalho, na hora do almoço, no fim da tarde e nos finais de semana quando não vou ao orquidário. Por questões de trabalho vou muito a Guaratiba pois lá estão a maioria das chácaras que vendem planta, então sempre dou uma passada rápida no orquidário. Lá tem uma caseira que rega e o Nei, sócio da OrquidaRio, me ajuda na manutenção, indo lá também uma vez por semana.

Você tem preferência por híbridos ou por espécies? Por que?
Assim como com as aves e tudo mais, eu nunca consegui concentrar a minha atenção em um grupo específico. Tenho um pouco de tudo, mas procuro sempre ter apenas o que há de melhor dentro de cada grupo. O fator limitante é apenas o clima. Infelizmente o meu orquidário está situado em um local quente demais para as orquídeas em geral e espero, um dia, poder mudá-lo para um local mais próximo e com temperatura mais amena. Procuro ter bons híbridos e boas espécies, mas tenho uma especial predileção pelas cattleyas em geral, tanto espécie quanto híbridos de cattleya.

Qual o seu critério para a formação de sua coleção, como você faz as suas escolhas?
Sempre procuro peneirar e peneirar ao máximo tudo o que adquiro. Antes de visitar um orquidário eu procuro ver o site desse orquidário, procuro saber o que eles têm lá de melhor na coleção e tento de alguma maneira adquirir um exemplar ou um corte dessa planta, mesmo que isso demore bastante. Eu não compro uma orquídea inferior se eu sei que existe uma melhor. Prefiro esperar uma boa ocasião. Vou dar aqui um exemplo: em visita a um orquidário em 2005, eu vi lá uma Cattleya trianaei amesiana que achei espetacular. Eu tenho uma que é bonita, mas não é muito boa então gostaria de ter outra melhor. O problema é que aquela que vi era uma planta pequena que não dava corte, nem estava à venda. Depois dessa visita em que eu vi essa planta, muitas pessoas me acenaram com boas Cattleya trianaei amesiana, mas não tão boas quanto aquela. Não comprei. Mesmo que leve anos, vou esperar pelo corte daquela que achei ser a melhor que eu já vi. O mesmo se dá com os híbridos. Só serve ele, aquele meristema que eu gostei e conheço e não um self dele ou um cruzamento dele.
É muito importante a escolha dos orquidários fornecedores, pois só os orquidários sérios possuem plantas de qualidade ou têm a preocupação em etiquetar corretamente as plantas que vendem. Um outro foco de interesse que tenho na aquisição de orquídeas, são as orquídeas clássicas, aquelas que possuem uma história por trás, os clones antigos. Sempre me interessei pelo histórico das orquídeas antigas, pois pesquisando-as eu descobri a história da orquidofilia.
Uma coisa muito importante é comprar sempre pouco. Plantas boas são caras e comprar muitas plantas caras não há quem agüente. Quando vejo pessoas saírem de exposições e visitas a orquidários cheias de vasos no carro, a maioria de plantas inexpressivas, e eu com apenas um ou nenhum vaso na mão, penso que cuidar de uma planta ruim dá o mesmo trabalho que cuidar de uma planta boa, mas os frutos disso são muito diferentes. Comprar pouco e bem é o meu lema.

Você tem uma planta muito boa. Slc Ayrton Senna, de um vermelho muito intenso e uma ótima forma. Você a adquiriu ainda seedling ou já comprou a planta adulta? Se seedling, quantos você adquiriu desta planta?
Em uma visita ao Salão das Walkerianas dos Wenzel, que ocorre simultaneamente com a exposição de orquídeas de Rio Claro, isso em junho de 2004, vi ali um espetáculo esplendoroso que era a exposição conjunta de, pelo menos, umas 30
Slc Ayrton Senna pré-selecionadas, uma de cada cor, em cima de uma espécie de podium. Segundo o César Wenzel, as melhores seriam meristemadas e receberiam o nome clonal de uma pista de corrida onde o Ayrton Senna correu. Ele tinha à venda seedlings desse cruzamento (Golden Acclaim x California Apricot) que ainda não haviam florido e tinha também algumas já floridas, mas não tão boas quanto àquelas que estavam naquele podium. É claro que eu me interessei por algumas dali, das pré-selecionadas, mas que infelizmente não estavam à venda. Para se obter as melhores é fácil, basta esperar alguns anos e comprar os meristemas delas, mas tinha lá algumas realmente belas que eu gostaria de já começar a apreciá-las desde aquele momento. O que eu fiz foi ficar na cidade mais um dia, eu estava mesmo de férias por uma semana e podia fazer isso.
Na segunda feira pela manhã fui ao Wenzel, dessa vez fora daquela confusão de exposição e com muito jeito e insistência descobri que uma lindíssima amarela de nome clonal ‘Hockenhein’ estava com uma parte do rizoma caindo para fora do vaso. Ali dava um corte. Acabei conseguindo esse corte. De lambuja vi essa linda vermelha ainda sem nome, que também dava um corte e por sorte consegui obtê-lo. Dei à essa vermelha o óbvio nome clonal de ‘Red’, pois ela não foi selecionada para ter um nome de pista de corrida.


Slc Ayrton Senna ‘Hockenhein’

Slc Ayrton Senna ‘Red’
Havia por lá muitas vermelhas bonitas. O que não se esperava era a quantidade de flores que ela daria. Esse híbrido dá flor praticamente o ano todo, com o pico de floração em junho e julho. Talvez o César um dia a queira meristemar, quem sabe...
Entre as suas plantas, existe alguma que seja a preferida?
Uma eu não diria, mas algumas, sim. Em matéria de espécie eu tenho uma Cattleya trianaei caerulea pincelada que é realmente muito boa.
É um cruzamento de ‘Luna de Fusa’ com ‘Ikirá’. Ela já se tornou uma grande touceira e pede divisão. Pretendo meristemá-la, é uma flor já pronta.

Cattleya trianaei caerulea pincelada

Cattleya percivaliana ‘Carla Porto’
A outra espécie preferida é a Cattleya percivaliana ‘Carla Porto’. Eu não conheço outro clone de percivaliana tão bom.
Quanto aos híbridos, o meu preferido é sem sombra de dúvida a Lc Sheila Lauterbach FCC/AOS. Eu diria que essa é uma das flores mais belas do mundo. Pena que em foto ela nunca sai bem e só mesmo ao vivo é que se pode admirar a sua beleza na totalidade. O perolado das pétalas e sépalas, o veludo do labelo...

Lc Sheila Lauterbach FCC/AOS
A Blc Chia Lin ‘New City’ AM/AOS também é uma parada, que ainda exala um fantástico e penetrante perfume, uma mistura de doce com madeira. Um híbrido enorme e espetacular.
No que se refere às orquídeas botânicas, tenho um Dendrochilum wenzelii que é, com certeza, o meu xodó. Uma bola de folhas fininhas com lindíssimas flores vermelhas. É uma planta bem grande.

Blc Chia Lin ‘New City’ AM/AOS
 
Dendrochilum wenzelii
Quais são as condições climáticas encontradas em seu ambiente de cultivo?
O meu orquidário infelizmente se encontra ao nível do mar e em uma região do Rio que é relativamente quente. Ele está instalado em um terreno onde eu cultivo algumas plantas ornamentais que uso nos projetos de paisagismo que faço. O local está voltado para esse tipo de cultivo, isto é, folhagens ornamentais. No entanto, o terreno está localizado próximo a algumas florestas que refrescam e trazem umidade de uma montanha próxima. O local é muito arejado, com brisas fortes circulando o tempo todo. Tudo isso ajuda, mas está lonje de ser aquele local ideal, como em uma área de montanha, por exemplo, onde a bruma fria fustiga as árvores e as rochas, baixando a temperatura à noite e regando com o sereno tudo à sua volta. Esse sim seria um local ideal para um orquidário, um local como o Alto da Boa Vista, por exemplo. Lá, até as calçadas são cheias de musgo e ao mesmo tempo a luz solar é bastante intensa, dando ao dia o calor necessário.
No meu orquidário, orquídeas como Sophronitis, Lycaste, alguns Paphiopedilum e outras orquídeas de frio, não vão bem. Já os seus híbridos se desenvolvem sem problemas, desde que eu encontre dentro da estufa o nicho adequado.


Qual a freqüência de rega e adubação?
A rega não possui uma freqüência regular, pois isso depende das condições climáticas do momento. O meu orquidário é coberto de plástico agrícola por sobre o sombrite, de maneira que a água da chuva não atinge os vasos (na verdade são cachepots de madeira). A caseira que rega já aprendeu a avaliar o momento certo de molhar. Eu, é claro, estou sempre fiscalizando isso quando lá vou. Pego os cachepots na mão, sinto o peso, encosto a mão por fora para sentir a temperatura, enfio o dedo no substrato, etc. Coisa rápida e automática, quase um cacoete, que faço quando ando ao longo das bancadas. Toda a adubação é feita uma vez por semana, geralmente usando um adubo foliar da Peters, com micronutrientes de formulação 20-20-20. Também uso o nitrogenado 30-10-10, principalmente nos seedlings dos meus cruzamentos que são poucos e o 10-30-20 que começo a usar um pouco antes da primavera, que é a época que eu tenho mais plantas floridas. Mesmo assim, devido à mistura dos vasos entre si e à falta de especialização na cultura, muitas orquídeas florescem sem receber o adubo floral antes da floração. É impossível adubar cada uma de acordo com as suas necessidades particulares. Espero poder no futuro construir um orquidário maior e mais espaçoso, para que eu possa de certa maneira setorizar as orquídeas de acordo com o grupo a que pertencem e às suas necessidades básicas.

Você teria alguma dica de cultivo sua que quisesse compartilhar conosco?
Eu fiz com o meu orquidário, tudo o que eu dizia antes às pessoas para elas não fazerem. No caso eram criadores de aves começando a criação. Isto é, eu gastei tempo e dinheiro na busca de plantas, que é mais prazeroso e não investi nas instalações do orquidário, que é fundamental. Hoje o orquidário está pequeno, amontoado e precisando de manutenção.

A minha intenção na verdade é me mudar dali, mas sabe como é, tudo é muito caro hoje em dia. Portanto a principal dica é: não faça o que eu fiz, invista primeiro no orquidário e depois na aquisição de plantas, senão você poderá acabar em uma situação complicada, em uma sinuca, isso se um acidente na estrutura não acabar com tudo o que está dentro.
Eu passei por diversas fases de cultivo até achar
aquela que considero ideal para as minhas condições particulares. Inicialmente eu usava o cultivo clássico de vaso de barro com substrato de fibra de xaxim e drenagem de cacos de telha. Depois do arroxo na proibição do uso do xaxim comecei a procurar um substrato alternativo. Coincidentemente fiz uma importação de sphagnum do Chile e passei a usá-lo com resultados excelentes. O sphagnum, ao mesmo tempo em que mantém a umidade, é arejado e não abafa nem dá podridão nas raízes. Antes, se eu molhasse demais, as raízes apodreciam e se eu molhasse de menos as orquídeas se desidratavam. Lembre que eu não tenho uma alta umidade ambiente que permita que as orquídeas fiquem longos períodos sem rega. Para dar mais “vida” ao sphagnum e fazê-lo render mais, além de deixá-lo mais “aberto”, eu acrescento, na razão aproximada de um terço, uma mistura que compro da Aranda e que lá é usada como substrato para paphios. É uma mistura de casca de pinus, côco desfibrado, carvão, brita, sei lá o que exatamente. Só sei que o resultado é bastante bom. Partindo do princípio que é mais fácil molhar do que secar, eu optei pelo uso de cachepots de madeira, todos pendurados, de maneira que a secagem do substrato é relativamente rápida, ficando apenas aquele friozinho que se sente quando se toca nele com a mão por fora. Ainda tenho algumas plantas no cultivo antigo de xaxim e que estão sendo gradativamente transferidas ao tipo de cultivo atual. Algumas orquídeas como as catasetíneas, as Laelia pumila, fidelensis, as orquídeas botânicas, as cattleyas bifoliadas em geral e os híbridos de Sophronitis dão um salto imediato de tamanho ao serem plantados no sphagnum. Cattleyas enjoadas como a Cattleya velutina por exemplo, quando passadas para o sphagnum emitem bulbos o dobro do tamanho dos anteriores. Uma avaliação no meu entender errada sobre a relação da emissão de raízes e a qualidade do substrato está no fato de que as pessoas acham que se uma orquídea está emitindo um monte de raízes para fora do vaso, isso significa que ela está gostando do substrato, que está forte e saudável. Eu já vejo aquela planta como um indivíduo descontente com o ambiente em que está e que passa a emitir raízes em busca de um outro local para se “mudar”, para sair dali. Talvez enraizar em algum substrato melhor, conduzir o rizoma para fora dali, deixar lá uma traseira que depois será abandonada, sabe lá, mas se você olhar dentro do vaso verá que lá quase não existem raízes. Todas as raízes estão para fora buscando algo novo. Como acredito que nas orquídeas as raízes são tudo, acho importante o cultivador examinar as raízes que estão dentro do vaso, quando a planta passa a emitir raiz para fora, às vezes até cavoucando um pouco no substrato, para ver se elas também cresceram lá dentro. Prefiro ver as orquídeas com as suas raízes bem desenvolvidas, mas dentro do contêiner em que elas estão.
Para as Cattleya walkeriana que gostam de casca de peroba, eu as planto na casca e coloco a casca inclinada dentro de um cachepot e preencho a parte interna do cachepot na parte da frente da placa com sphagnum. O rizoma da walkeriana fica fora do sphagnum, sobre a placa, pois elas não querem tanta umidade, mas as raízes crescem para baixo em direção ao sphagnum ou ao redor do cachepot e entram nele novamente, de maneira que embora a planta esteja no seco, as raízes estão com as pontas no úmido, sugando a energia vital da água.
Atualmente instalei no orquidário uma máquina que  produz neblina. É uma espécie de ventilador conjugado a um aspersor movido a centrífuga e os resultados são muito promissores. Passei a ter que regar menos e as walkerianas e as vandas adoraram. Instalei-as mais próximas do aspersor,
tomando cuidado para evitar que a umidade da neblina não atinja as folhas das vandas, só as raízes. Cada vez mais vejo uma grande afinidade no cultivo de Vanda e Cattleya walkeriana.

Existe alguma história ou caso interessante ligado à sua relação com as orquídeas?
Eu cultivo orquídeas há pouco tempo então os casos ainda não aconteceram, mas as pessoas que eu conheci, principalmente os orquidófilos veteranos, são eles próprios pessoas tão interessantes que cada um deles daria um caso desses. Eu tive um encontro casual com um grande produtor de São Paulo, o Sebastião Nagase, conceituado criador de belos híbridos de Dendrobium nobile e de Miltoniopsis. Dizem que nessa plantas, ele é o melhor do mundo! Em uma mesa de bar, num informal encontro entre orquidófilos e ele controu sobre as suas viagens ao Mato Grosso e Tocantins observando Cattleya nobilior, contou que o povo local tem o costume de amarrá-las com a raiz nua em cordas de barbante e as usam como decoração de terreiros, acredito eu à maneira das bandeirinhas de papel pintadas por Volpi em seus quadros e usadas aqui na época de São João. Contou que as plantas sobrevivem bem assim e que até dão flor, o que é um belo espetáculo de se ver. Todo aquele fio, engalanado com as lindas Cattleya nobilior floridas. A certa altura os ânimos se acalmaram e eu tive a chance de lhe perguntar sobre a filosofia que norteava as suas hibridações, quais eram as diretrizes básicas que o orientavam nisso. Ele entendeu na hora a minha pergunta e intenção e me respondeu que ele seguia por dois caminhos paralelos: um deles era fazer as hibridações que consistiam no óbvio, hibridações feitas por caminhos conhecidos e que teriam um grande índice de aproveitamento do seu resultado. Esses seriam os híbridos que dariam à ele o sustento da empresa; falando-se mais simplesmente, o “arroz com feijão” da produção. Um cliente encomendava um número xis de híbridos de Dendrobium nobile vermelhos e ele entregava. Por outro lado, para a sua companhia sobreviver, ele tinha que inovar, inventar. É aí, acredito, que reside o seu gênio. Enquanto que muitos hibridadores inovam pouco, inventam apenas novas cores e novas variações na forma básica das flores, ele tem o costume de fazer o que chamou de “hibridações de alto risco”. Das cruzas mais improváveis e mais absurdas é que saem as verdadeiras belezas e novidades inesperadas. De duas flores completamente diferentes e ao que se pensa, totalmente incompatíveis, pode ser gerado algo de beleza indescritível. Este tipo de cruzamento é caro, o investimento é alto e o resultado tem aproveitamento baixíssimo. Mesmo assim, agora com o advento da meristemagem, esse “cruzamento louco” passou a receber a atenção dos hibridadores de ponta. Segundo o Sr. Nagase, ele chega a produzir até 5.000 seedlings em cada um desses cruzamentos, mas a média é 2.000 e ele tem que esperar que todos os seedlings floresçam no seu orquidário, para que se ele tiver sorte, dentre todos esses exemplares, saia uma planta com flores fantásticas. Muitas vezes a aparência das plantas descartadas é tão ruim, que elas nem podem ser vendidas, mesmo em supermercados, tem-se então que destruí-las. Uma entre cinco mil, no entanto, sai tão linda, tão perfeita e tão diferente do que se conhece, que ela segue então para o Japão para lá ser meristemada, produzida aos milhares e vendida para todo o mundo. Penso eu que o Dendrobium Stardust seja um bom exemplo do que ele se refere, embora não seja criação dele. Essa nova flor, essa nova descoberta, representa um novo caminho a se explorar e seguir nas hibridações. Ao mesmo tempo em que é um avanço para a orquidofilia mundial, é também uma garantia de futuro para a empresa da qual ele é dono. Sem esse tipo de hibridação de alto risco, ele caiaria na mesmice e seria engolido pelos concorrentes maiores mas com menos talento.


Diz-se que a orquidofilia é uma manifestação branda de loucura. Você já fez alguma loucura orquidófila?

Bom, de tanto dar cabeçadas em ponta de cachepot pendurado, resolvi um dia levar comigo ao orquidário o capacete da minha moto. Escolhi um capacete leve, sem aquela parte que cobre o maxilar. Agora, quando tenho que percorrer o corredor à procura de alguma orquídea perdida, sempre visto o capacete. Fico imaginando o que pensam as pessoas de fora, da rua, quando me vêem lá dentro arrancando matinho de vaso e usando um capacete de moto... Reconheço no entanto que fiz uma verdadeira loucura orquidófila, quando em todo final de mês as contas não querem fechar devido aos gastos que fiz comprando orquídeas. Não sou rico, não tenho produção própria de orquídeas que sustentem com trocas as novas aquisições e tudo o que adquiro sai mesmo dos meus ganhos com o trabalho de paisagismo. Todo mês juro que não vou comprar mais nada, mas sempre acabo adquirindo alguma planta ou pagando um cheque pré-datado resultante do parcelamento da compra de uma planta. Isso para mim é uma espécie de loucura, de vício, sem falar na despesa constante de manutenção do orquidário. As belas flores que adornam a minha sala e os amigos que fiz, compensam no entanto a justeza no orçamento doméstico ou o conserto do carro postergado ou a viagem que não deu para fazer. Na verdade, cada vez mais eu não quero viajar, pois não quero perder a floração de nenhuma das minhas orquídeas.
Está aí outra forma branda de loucura a que você se refere.

Fotos: Carlos Keller

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