Francisco Miranda

Problemas de identificação em espécies brasileiras de Cattleya



O gênero Cattleya, em senso estrito e não abrangendo as recentes inclusões de outros gêneros, tem sido um dos mais reproduzidos e hibridados desde o início da propagação artificial. Apesar de esse tipo de propagação ser uma das mais eficientes maneiras de tentar assegurar a preservação e futura existência das espécies, uma série de problemas tem aparecido por causa dela. Basicamente, esses problemas são:
  1. O não conhecimento das espécies em si e seus limites de variabilidade natural têm causado, mais de uma vez, inadvertida criação de linhagens híbridas. Com isso, mais do que nunca tal saber é a chave para que consigamos preservar as entidades de acordo com seus limites naturais. O fato de a hibridação natural ocorrer e ser uma das responsáveis pela especiação, além da questão de que a longo prazo as populações tendem a se retrogredir e serem absorvidas, não pode ser usado como desculpa para o cruzamento de espécies que ocorrem juntas para a produção de populações híbridas artificiais.
  2. Uma segunda questão séria é o que chamo de "síndrome da etiqueta". O que acontece aqui é que são usadas muitas vezes plantas completamente erradas, e a única confirmação que o cultivador buscou é a transmitida na etiqueta. Assim, se estiver escrito Cattleya loddigesii, então se trata de C. loddigesii, independentemente do parecer de quem conhece a espécie. Essas atitudes — "o que está escrito na etiqueta é o que está certo" ou "comprei essa planta com esse nome" - são totalmente inaceitáveis se quisermos tentar garantir a preservação das espécies com razoável certeza.
  3. Outro problema, e este infelizmente sem solução, é que muitos produtores que sabem que estão cultivando um híbrido insistem em vender as plantas como se fossem de espécie enquanto os clientes aceitarem. Essas plantas geralmente crescem bem por causa do vigor híbrido e muitas vezes têm flores superiores às das espécies, surgindo daí o apelo para sua produção.
Em muitos casos o problema é mais sério, pois as características das plantas e flores claramente indicam hibridação, mas torna-se impossível determinar um ou mais dos componentes do híbrido, visto que muitas vezes elas não são híbridos primários, mas sim mais complexos. Nesse caso, somos freqüentemente arguidos da seguinte forma: "Se é um híbrido, qual é a outra planta usada?" A resposta é quase sempre muito simples: "Não sei o que é, mas sei o que não é!". Tais situações ficam às vezes difíceis, porque o cultivador rebate de acordo com a "síndrome da etiqueta", dizendo que prefere acreditar no que lá está escrito.
Enfim, hoje ainda podemos separar esses híbridos, porém se as próximas gerações de cultivadores não tiverem tal conhecimento a preservação em cultivo de muitas espécies estará irremediavelmente perdida. Exemplos estão nas fotos e nos comentários sobre elas.