Relatório de 18a. Conferência Mundial de Orquídeas– Dijon França
por Robert Hamilton
Publicado na edição de junho 2005 do Odontoglossum Alliance Newsletter

No final de 2003, um colega me perguntou se eu estava disposto a apresentar uma palestra sobre odontoglossums na 18ª. Conferência Mundial de Orquídeas, em Dijon, na França. Alguns meses mais tarde, recebi um convite oficial dos organizadores da Conferência. Depois de refletir, eu aceitei. Minha última viagem para a França tinha sido feita em l969, um presente que eu mesmo me dei como prêmio pela minha graduação. Uma segunda razão para aceitar fazer esta palestra era que eu havia me tornado um apaixonado em promulgar a idéia de que alguns híbridos de orquídeas contêm verdadeiros tesouros genéticos. Este pool de genes é tão ameaçado de extinção quanto as orquídeas selvagens. Isto é especialmente verdadeiro para híbridos do Odontoglossum por causa de suas delicadas exigências culturais.

A correspondência e as instruções dos organizadores da WOC continham instruções claras e concisas. Uma das exigências era uma apresentação em 20 minutos e mais 10 minutos para perguntas, usando o software de PowerPoint de Microsoft. Assim, eu teria que criar minha primeira apresentação de orquídeas no PowerPoint. Isto me trouxe um pouco de apreensão, provocando a máxima de um colega de orquídeas de o "poder (power) corrompe” e "PowerPoint corrompe absolutamente".

Para começar, eu precisava digitalizar meus slides. O escaner que possuía era um Canon de mesa, de preço médio e não adequado para o trabalho com slide. Investigando opções como, por exemplo, um serviço comercial de digitalização, a compra de um escaner de filme ou simplesmente melhorar minha unidade de mesa, eu optei pelo melhoramento de meu escaner de mesa. Após alguma pesquisa, eu comprei um ScanMaker i900 da Microtek, que havia se tornado um produto popular, estando à venda, na maioria das lojas, com um prazo de algumas semanas para entrega. Quando chegou, eu gastei dois dias tentando fazê-lo trabalhar. Com ajuda “on-line” da Microtek consegui determinar que ele estava com defeito. Eu devo acrescentar que a companhia foi eficiente em diagnosticar o problema. Eu o devolvi ao vendedor e ele foi substituído. Eu uso a B&H Photo, em Nova Iorque para tais ordens e gostaria de acrescentar um comentário: eles têm sido excelentes vendedores por anos. A substituição foi feita algumas semanas mais tarde. Porque eu sou um procrastinador crônico, eu agora estava atrasado.

Apesar de conduzir a pesquisa no Departamento de Engenharia Elétrica e Ciências Informáticas da UC, eu não sou particularmente versado em ler manuais ou usar computadores. Felizmente, este escaner provou ser de fácil uso. Produz excelentes imagens digitalizadas que são melhores do que os escaners de slide de médio preço. Felizmente, também achei o PowerPoint um programa relativamente fácil de ser usado.

Para a organização da viagem, eu procurei os hotéis sugeridos pela conferência, mas optei por um hotel recomendado pelo irmão de um amigo. Ele é um instrutor da arte em Utrecht, na Holanda e excursionou com seus estudantes por Dijon. Recomendou o hotel du Sauvage, situado no centro antigo de Dijon. 55 euros por noite por um quarto duplo era um bom preço.
Minha irmã, que viveu 12 anos em Genebra, Suíça, recomendou que nós voássemos Lufthansa para Munique, com conexão para Genebra e ir de carro até Dijon, evitando assim a aterrissagem em Paris. Isto acabou por se tornar um grande plano. Em uma viagem transatlântica precedente eu havia usado a United Airlines. O assento era muito apertado, a alimentação e serviços eram terríveis. Foi um vôo torturante até a Inglaterra.

Lufthansa foi uma grande escolha e o vôo foi espetacular. Com a paixão dos alemães pelo horário, a parada em Munique foi de exatamente 45 minutos e o vôo para Genebra levou um pouco mais do que uma hora! Meu colega, John Leathers e eu ficamos por dois dias em Genebra antes de nos dirigirmos para Dijon. Eu planejei nossa chegada para sábado, dois dias antes de minha palestra e alguns dias depois da abertura da conferência.

A viagem de Genebra para Dijon foi agradável e pitoresca. As estradas na França são incríveis - muito melhores do que as estradas de terceiro-mundo, agora comuns na Califórnia. Nós estávamos em Dijon em menos de duas horas. O hotel era absolutamente charmoso, uma casa da do século XV com pátio interno privado. Nos deram um quarto grande, no alto de uma escada em espiral. Nós desfizemos nossa bagagem e nos dirigimos para WOC 2005 em busca de nossos amigos.

A WOC 2005 foi organizada em conjunto com a Florissimo. Originalmente, a WOC foi planejada para Paris, mas depois se transferiu para Dijon. O salão de exposição foi descrito no folheto da WOC 2005 como "palatal". Eu suponho que haja uma edição com tradução porque a palavra inglesa correta é "armazém" - não havia nada "palatal" no salão de exposição. Depois de procurarmos, encontramos o caminho certo da entrada, nos registramos e nos instalamos. Logo antes de entrarmos na exposição, encontramos dois de nossos favoritos cultivadores de Odontoglossum: Anna Chai e Pui Chin. Eles chegaram dois dias antes e estavam entediados. Eles estavam fugindo para Paris e isto não era de bom agouro.

A área da exposição era imensa. O primeiro sentido despertado, entretanto, era não visual, mas nasal. O odor era similar a algum tipo de spray para insetos. Acontece que eles usaram algum tipo de asfalto para escorar cascalhos no lugar. Não era um cheiro agradável.

Os salões de exposição tinham bom número de estandes grandes que eram, em sua maioria, bem instalados. A maioria esmagadora era de material de meristema, ou seja dendrobiums, phalaenopsis, etc.; não o tipo das plantas que atraem cultivadores especializados. O tempo todo eu visitei as exposições, os salões estavam superlotados e era difícil ter uma boa visão. Havia estandes notáveis como o Robert Fuch Orchids e Eric Young Foundation. Embora o EYOF mostrasse alguns cymbidiums muito bons, os seus odontoglossums não estavam à altura do que eu esperava . Com a aposentadoria de Alan Moon e a morte do Prof. Dom Wimber, melhores odontoglossum talvez sejam um passado na EYOF. A hibridação brilhante de Moon com o conhecimento do números de cromossomos de Don Wimber foi-se.

Em função da WOC 2005 ter ocorrido simultaneamente com Florissimo, a duração da exposição foi de 10 dias. É um período mais longo do que a maioria de WOC. Além disto, CITES na França torna virtualmente impossível expor plantas no vaso. Dez dias são uma duração longa para as hastes cortadas.

Eu não levei nenhuma planta para França e nem comprei quando estava lá, assim eu não tive nenhuma experiência pessoal com CITES na WOC 2005. Eu posso relatar o que eu ouvi. Muitos vendedores ficaram sem plantas durante toda a exposição, suas plantas foram retidas pelos inspetores, os certificados julgados "impróprios". CITES foi feito claramente de maneira a causar dano econômico a alguns vendedores, particularmente aqueles que negociam com espécie. Um vendedor do Peru teve seus frascos, propositalmente despedaçados e "despejados" no estacionamento quando devolvidos  pelos inspetores no final da exposição.

Havia, claramente, uma "agenda" para estas ações. CITES está se tornando político. Em minha opinião, os produtores comerciais de orquídeas de meristema e planta de vaso estavam encantados. É embaraçoso estar no lugar que é opressivo para pequenos vendedores e economicamente prejudicial. Os inspetores reforçam a idéia de que o CITES não sabe diferenciar alhos de bugalhos em se tratando de orquídeas. Lamentavelmente, nossas organizações orquidófilas foram ineficientes para adicionar sanidade nas várias modificações do CITES. Alguns jardins botânicos são provocadores das modificações draconianas do CITES.

Em minha palestra, eu cito o CITES como um dos antagonistas na ameaça dos híbridos de odontoglossums. Eu usei a frase: "- Uma cortina do ferro desceu sobre o mundo das orquídeas".
O desfecho do CITES , como praticado na França para este evento, é que muitos vendedores não participarão, uma outra vez, de uma conferência na França e logo, nenhum vendedor, nenhum cultivador! Isto é mais do que atirar no próprio pé, é explodir ambas as pernas, acima dos joelhos!

Além das orquídeas, a área das vendas tinha outros artigos para jardim e para planta, miudezas e uma comida excelente. Ninguém podem negar os franceses são grandes gastrônomos. Havia diversos vendedores que vendiam excelentes seleções de temperos.

As palestras foram distribuídas ao longo de quatro dias, com três delas ocorrendo simultaneamente. Havia muitas apresentações excelentes. Incluindo os pôsteres e balcões de informações, foram aproximadamente 98 apresentações. Eu considerei muitos pôsteres fascinantes, com pesquisa de elevado padrão.

Minha palestra começou com um ar inesperadamente cômico. O apresentador antes de mim deixou o seu slide show do PowerPoint no modo automático. Quando eu conectei minha unidade de memória no laptop, ele forneceu meu passaporte, documentos do aluguel do carro, passagens aéreas, etc. Eu tinha digitalizado tudo, na última hora, por precaução, no caso de eu perder minha carteira ou o passaporte. Na tentativa de controlar, eu apertei ALT-CTRL-DELETE para voltar à área de trabalho. Pobre de mim, apareceu uma área de trabalho e ela era completamente estranha para mim, e estava em francês (lembra da máxima: o PowerPoint corrompe absolutamente?). Felizmente um rapaz que estava na platéia veio à frente e o fez funcionar. Minha idéia de última hora de digitalizar meus originais da viagem não foi assim tão bem planejada. Deixar estes arquivos no mesmo local da minha apresentação no PowerPoint, tornou-os acessíveis para rodar neste programa. Em função dos risos, eu conclui que este evento adicionou um toque à minha apresentação. Nenhum problema, eu não me importo que riam por minha causa. Minha palestra teve uma boa audiência e foi bem recebida. Foi a única palestra que tratou da cultura de Odontoglossum.

Durante a WOC, nós tivemos uma possibilidade se encontrar Cynthia Hill Beckendorf e Steve Beckendorf, que estavam em sua lua de mel. Isto resultou em excursões bem divertidas. As habilidades francesas de Cindy eram uma vantagem e Steve, fazendo a pesquisa pós-doutorado em Genebra, dominava o francês. Dijon e seus arredores são verdadeiramente magníficos. Dijon está assentada no meio da famosa Cote d'Or, uma importante área produtora de vinho, de grande beleza cênica. É uma cidade medieval com raízes romanas. Com a riqueza histórica da Borgonha, há uma arquitetura maravilhosa e grandes museus grandes. O antigo centro da cidade parece sair diretamente de um romance de Dumas. As lojas e os mercados eram uma diversão.

Steve Beckendorf arranjou uma reunião no campo com Dr. Guido e Lieve Deburghraeve da Bélgica e com John e Anne Gay, ambos célebres cultivadores de Odontoglossum. John é ativo na North of England Orchid Society e antigo presidente da Great Britain Odontoglossum Alliance. Guido tem uma coleção soberba de espécies Odontoglossum e conhece bem o campo francês. Ele programou um jantar excelente, completo, com vinhos maravilhosos, em uma pequena estalagem no campo. Essa noite nevou, o que tornou tudo muito especial.

Juan Felipe e Maria Victoria Posada, da Colômbia, estavam também em Dijon com amigos. Eu me senti honrado por Juan Felipe ter retardado seus planos de ir embora o suficiente para assistir a minha palestra. Juan Felipe Posada estudou na França e é trilíngüe, claramente uma verdadeira vantagem para viajar. Nós jantamos também com os cultivadores Don e Carrie Brown de Santa Barbara e de Norrito Hasigawa, todos eles grandes companhias. Apesar da má comida e de um serviço terrível, os jantares eram divertidos!

A WOC 2005 Dijon foi um sucesso?
Se medirmos o sucesso pelo comparecimento, foi um sucesso. A exposição ficou lotada durante os dez dias que ficou aberta. As palestras e as apresentações foram, em um todo, excelentes.
Podia-se comprar plantas interessantes?
Em sua maior parte, não. Tais plantas foram confiscadas pelas autoridades francêsas do CITES ou foram entregues demasiadamente tarde para serem vendidas.

Um dos grandes chamarizes de exposições de orquídea e, particularmente, de conferências mundiais de orquídeas do mundo é o companheirismo.
Havia companheirismo?
Enquanto eu me encontrei com amigos velhos e conhecidos em Dijon, eu nunca me encontrei com meus anfitriões. Eu não recebi nenhuma cortesia, tal como receber boas-vindas, um telefonema, um aperto de mão ou uma visita a uma estufa. Havia um almoço para palestrantes. A 50 euros, eu escolhi não participar. O jantar de fechamento era um evento, em black-tie, num mosteiro histórico, a 150 euros por pessoa. A idéia de viajar para a França levando um smoking não me agradou, de maneira nenhuma. Poderia se optar por vestir um "traje nativo" no lugar do smoking, mas eu não pude concluir o que isto significava. Até meu retorno aos Estados Unidos, eu não recebi nenhum agradecimento. Os organizadores de Dijon são anfitriões anormais.

Eu termino com uma nota positiva. De Dijon, nós continuamos nossas férias viajando pelo trem TGV     (tecnologia soberba e macio como uma seda) para Paris, onde encontramos, mais uma vez, Cindy e Steve. Depois de Paris, pegamos o TGV para Lyon, a melhor comida da França e o mais grandioso cenário. Finalmente, fomos de carro para Arles, uma cidade com um anfiteatro romano ainda usado para touradas e lar de Gauguin e Van Gogh, por um período de suas vidas.

Ainda uma última nota sobre orquídea: a um dia de viagem de Arles, nós visitamos a Ponte de Gard, um aqueduto romano intacto. Nós passeamos na área em volta desta atração. Lá, no alto dos montes, florescendo para nós estavam as serapias, um gênero terrestre europeu de orquídea. Encontrar serapias em flor foi, realmente, a concretização de um sonho.



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